ARTIGO

Artigo Publicado na Tribuna da Bahia, edição de 14.05.2020.

Ponto de vista

O efeito boomerang de nosso isolamento social

Joaci Góes

Para as queridas amigas Adriana Gabrielli e Tânia Magalhães Sodré!

Parece que uma grosseira ou superlativa imprevidência figurará, aos olhos da posteridade, como a característica comum do modo como o mundo reagiu à chegada da Covid-19, em que todos fomos apanhados com as calças na mão. No Brasil, essa imprevidência continua predominando com desenvolta arrogância, agravada pelo caráter ostensivamente político-eleitoral que assumiu a luta contra a surpreendente e mortífera pandemia, envolvendo forças que de modo tumultuário querem mudanças contra os que aspiram retornar ao passado de privilégios inconfessáveis, em prejuízo da realização de uma agenda mínima em favor dos interesses populares. De permeio, contribuindo para poluir, ainda mais, o ambiente, assistimos ao ativismo político do Judiciário, sobretudo o STF, usurpando atribuições dos outros poderes, como tão bem denunciou nesta Tribuna o pensador Luiz Holanda, em artigo intitulado Ativismo Judicial no Brasil. É verdade que já se observa o crescimento de uma terceira corrente de opinião, equidistante desses dois extremos. Fato é que fica difícil saber quem vencerá essa insensata disputa que compromete as aspirações de mudança do País.

No estágio do atual momento, em que predomina a imposição do isolamento social, as autoridades persistem no erro de desconsiderar que para mais da metade de nossa população, mantê-la confinada em suas residências constitui o modo mais favorável de expansão do contágio, seja por deficiências habitacionais, urbanas e de saneamento básico, seja por ostensivas precariedades educacionais, como temos visto diariamente em reportagens televisivas. Explica-se porque, como as estatísticas já revelam, cresce de modo desproporcional o contágio entre as populações mais pobres.

Como é do conhecimento geral, até a descoberta e produção em massa da vacina protetora, toda a população brasileira estará exposta ao contágio, cuja cura poderá ser alcançada, antes da obtenção da vacina redentora, se alguns países e laboratórios efetivarem suas promessas de chegar ao remédio curativo, o que Deus seja louvado, poderá ocorrer no curso dos próximos dois meses. Até que essas promissoras expectativas se realizem, manda a prudência que devemos agir, preventivamente, aguardando o pior. É imperioso advertir que os recursos oficiais para socorrer a população carente, cada vez mais dependentes do Tesouro Nacional, não são um saco sem fundo, um manancial inesgotável, como uma fonte infinitamente alimentada de água bombeada do mar, razão pela qual é imperioso pensar na atividade econômica que alguns beócios confundem com uma alternativa, sem

critério, entre vida e dinheiro. A miséria acarretada por uma generalizada, absoluta e indiscriminada pobreza geral tem potencial para ser muito mais lesiva à vida do que a Covid-19 em sua versão mais pessimista. De novo: o desregramento da paixão política que grassa no País, de que participa parte substancial da grande mídia e de nossos intelectuais, vem amedrontando e condicionando as precipitadas medidas oficiais de combate ao Corona vírus. Como exemplo, citemos a iniciativa de retirar de circulação da cidade de São Paulo metade dos automóveis, pela proibição alternada de seu uso nos dias da semana, em razão do último número da placa ser par ou ímpar. O resultado prático, como tem sido alardeado, tem sido o deslocamento do ambiente protegido do interior de seus veículos de centenas de milhares de pessoas que elevaram em 15% o uso dos ônibus e das linhas do metrô, ambientes em que o contágio tem potencial muitas vezes maior.

É evidente, até para as pessoas de mais fraco raciocínio, que uma vez distribuídas as atividades econômicas ao longo das 24 horas do dia, em dois turnos de 12 horas, ou em três de oito horas, haveria uma enorme redução das aglomerações, tanto na utilização dos meios de transporte, quanto junto às empresas em operação, quando as pessoas de mais baixa renda gozariam de uma proteção sensivelmente mais efetiva do que a proporcionada pelas limitações do seu precário ambiente doméstico. Como exemplo sugestivo, supermercados e shopping centers só funcionariam do início da noite até o amanhecer. Paralelamente, as administrações municipais cuidariam de marcar no solo os espaços distanciados a serem ocupados pelas pessoas, além do fornecimento de máscaras, uso de álcool gel, e a fiscalização da observância das regras de higiene, pública e diariamente anunciadas à exaustão.

É de claridade solar que, para quem puder ficar em casa seja, de longe, a alternativa mais recomendável, para cuidar da saúde física e mental, trabalhar em home office, estudar, meditar e amar.

Joaci Góes é escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia. Artigo publicado nesta quinta-feira, 14, na TB.