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CRÔNICA

 

                      A quarentena trouxe meus meninos de volta

 

Janio Ferreira Soares

 

Ainda é madrugada de um dia que pouco importa se de feira ou de cachimbo, quando ouço panelas batendo na cozinha. Desacostumado com o retorno da boa e velha rotina após mais de duas décadas vivendo quase sozinho, demoro alguns segundos pra perceber que não são meus fantasmas de estimação a me torturar com suas lives noturnas. Agora, no lugar deles e dos ventos de maio sacudindo tramelas e jenipapos, são os aromas de Miojo que sobem outra vez os degraus da escada em L, denunciando que alguém – pelo histórico, provavelmente Juca – prepara um rango ligeiro pra saciar a traiçoeira larica que costuma atacar a moçada naquele breve intervalo entre as doze badaladas e o alvorecer.

Pra confirmar ou desfazer meu palpite, olho pra direita e vejo a cabeça de Valéria candidamente repousada sobre seu travesseiro de estimação, enquanto à minha esquerda, Júlia se esparrama sobre o colchão naquela mesma posição de quando era apenas a braba pretinha do papai. Já no quarto ao lado, o ruído da porta implorando óleo nas dobradiças revela que Luíza também está na área (se bem a conheço, com a boca cheia d’água e doida pra filar umas garfadas), o que comprova ser Juca, sim, o autor do infalível lámen que há anos não dava o ar de seus conservantes por aqui, mas que, nesses dias onde o vale a pena comer de novo (sem parar, diga-se) é a grande novidade da temporada, voltou.

O fato, meu querido leitor e amada leitora, é que nem nos meus melhores sonhos poderia imaginar que esse isolamento pudesse proporcionar a este velho do rio algo que, na normalidade da vida, dificilmente voltaria a acontecer. Falo dos mais de 30 dias em que estamos juntos de novo – e o que é melhor, sem a mínima chance de alguém voltar pro seu canto -, confinados na casa do velho sítio onde os umbigos dos três repousam sob a porteira de um antigo curral, que hoje só existe na memória de quem lambeu a espuma que o leite quentinho das tetas de Mimosa deixava marcado na penugem de seus bigodes.

Pra terminar, precisaria do dobro deste espaço pra contar certos detalhes do que anda rolando nessa espécie de retiro forçado pelas circunstâncias, principalmente das mudanças de perspectivas de quando você enxerga as coisas pela ingenuidade do olhar infantil e, muitos anos depois, as reveem com a calejada experiência de mundo impregnada na retina. Mas aí é papo pra mais adiante.

Agora tão me chamando pra ajudar no bolo de aniversário de Júlia, exatamente hoje, 9 de maio. Em abril foi o de Luiza, igualmente cantado aqui. Em Julho, é a vez do de Juca. Pelo andar da carruagem, ninguém se arrisca a dizer onde será, onde será, onde será que ele vai passar. Vai depender, vai depender, vai depender do que a vida vai querer. Por mim, já encomendei suas 24 velinhas.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na beirada baiana do Rio São Francisco

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