maio
09

DO DIÁRIO DE NOTÍCIAS , DE PORTUGAL

Regina Duarte, secretária de cultura do governo de Jair Bolsonaro, abandonou nesta quinta-feira uma entrevista ao vivo na televisão depois de ouvir, sem estar à espera, um vídeo com críticas da também atriz Maitê Proença.

“Quem é você que está desenterrando uma fala da Maitê, quem é você? Eu tive que dar um chilique aqui, vocês estão desenterrando mortos, trazem um cemitério nas costas, sejam leves”, afirmou Regina, dirigindo-se à âncora Daniela Lima, nos estúdios da CNN Brasil em São Paulo.

Lima argumentou que o vídeo tinha sido enviado por Maitê à emissora horas antes.

Ao repórter que a entrevistava no gabinete dela em Brasília, a secretária manteve o tom de protesto: “Daniel [Adjuto], isso não foi combinado. O combinado foi uma entrevista com você!”

Mas a CNN deu por encerrada a conversa.

Maitê criticava a falta de ação do governo de Bolsonaro e da secretária em particular por não emitir nenhuma nota pela morte recente de ícones da cultura brasileira, como os músicos Moraes Moreira e Aldir Blanc, o ator Flavio Migliaccio e os escritores Garcia-Roza ou Rubem Fonseca, por exemplo. Mas não só.

“É inexplicável o silêncio de uma política pública para a cultura. Nós estamos sobrevivendo de vaquinhas”, afirmava.

Horas mais tarde, abordada pela revista Veja, Maitê reagiu a ter sido chamado de “morta” por Regina: “Como a Regina foi ontem conversar com o presidente, a CNN me ligou e eu topei falar. Achei que estava na hora de fazer alguma coisa como classe. Eu acho que ela não quis ouvir. Ela presumiu que era uma coisa do passado, não era. Eu estou absolutamente viva. A cultura está perplexa com esse silêncio abissal em relação à política pelo setor, nós estamos vivendo de vaquinhas. Fomos os primeiros a parar e seremos os últimos a voltar, pois nosso trabalho pressupõe uma aglomeração”.

E prosseguiu: “Nossos grandes estão morrendo, como Rubem Fonseca e Flávio Migliaccio, e ela e o presidente não dizem uma palavra. Eu fui a primeira pessoa a defender a Regina por ter o direito de pensar diferente. Mas agora estou clamando para ela mostrar os feitos e para conversar com a sua classe. Eu pedi para ela, mas ela não quis escutar. É isso que nós temos para hoje. Eu gosto dela. Eu penso diferente dela, mas eu respeito o direito de enxergar o mundo de forma diferente. Eu acredito que a Regina é bom caráter.”

Antes da interrupção abrupta, Regina Duarte foi questionada sobre a sua posição em relação à ditadura militar, período de que Bolsonaro é assumido admirador. “Ficar cobrando coisas que aconteceram nos anos 1960, 1970, 1980… Gente, é para frente que se olha”, disse a ex-atriz.

Sobre a quantidade de mortes resultantes desse regime argumentou que “pessoas sempre morrem”.

“Se você falar vida, do outro lado tem morte. Sempre houve tortura. Stalin, quantas mortes? Hitler, quantas mortes? Não quero arrastar um cemitério de mortes nas minhas costas. Não quero isso para ninguém”, disse a secretária, minimizando as vítimas do regime.

“Para quê olhar para trás”, insistiu a secretária, criticando o que chamou de “morbidez” que a Covid-19 “tem trazido para o Brasil”.

Ontem o Brasil foi responsável por quase 10% das mortes por covid-19 registadas em todo o mundo: morreram 610 pessoas e o número total de óbitos já ultrapassa os 9000.

A pequena entrevista decorreu pouco depois de numa reunião com Bolsonaro ficar acertada a continuidade da atriz na secretaria da cultura apesar dos indicadores em sentido contráriO.

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