ARTIGO/Ponto de vista

Covid-19 ou saneamento básico, o que mata mais?
Joaci Góes

?Ao grande médico e querido amigo Rodolfo Dantas!
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Nunca houve na história do mundo um tema tão comentado e tão pouco compreendido como a peste do Corona Vírus.
?Pelo menos esta é a impressão que colho na conversa com as pessoas dos mais diferentes grupos sociais, inclusive as mais intelectualizadas. Até mesmo as autoridades que têm o dever de combatê-la, apesar de terem acesso as informações necessárias, só agora, com dois meses de grave atraso, vieram tornar obrigatório o uso das máscaras, quando inúmeros contágios poderiam ter sido evitados, uma vez que, em países desiguais como o Brasil, o isolamento social só é eficaz para a parcela da população mais bem aquinhoada. Em lugar das aglomerações que a TV exibe todos os dias, formadas pelos cidadãos mais pobres, supostamente sujeitos ao isolamento social, a manutenção das atividades produtivas, distribuídas ao longo das 24 horas do dia, paralelamente ao isolamento social dos que podem fazê-lo, sem prejuízo para o curso de suas vidas, seria muito melhor para a saúde e a segurança financeira e emocional dos que se encontram na base da pirâmide social e para as finanças públicas, em geral. Um grupo de estudos, de Minas Gerais, divulgou ontem os erros cometidos pelas autoridades brasileiras no combate ao Corona. Antes tarde, porém, do que nunca.
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Tomara que o Brasil corresponda às mais otimistas projeções que o colocam entre os países com o menor número de vítimas, relativamente ao tamanho de sua população de 220 milhões de almas. Mesmo assim, estamos diante de uma hecatombe, algo entre 50 e 100 mil óbitos, que traz aflição e dor para tantas famílias, sobretudo as mais carentes, como as estatísticas já revelam, vítimas, também, da guerra política em que nossas lideranças converteram um sério problema de saúde pública.

?Neste artigo, quero chamar a atenção dos leitores para um problema crônico de saúde pública que massacra as populações pobres do Brasil, acarretando, ao mesmo tempo, irreparáveis prejuízos à sociedade brasileira, em geral, sem que as pessoas se deem conta, para a paz de espírito dos políticos que se ancoram na ignorância popular que, aparentemente, não se importa com o regular e metódico genocídio a que é submetida, ao longo de cada um de todos os dias do ano. Referimo-nos às deficiências de nosso saneamento básico que reduz a média de vida de pouco mais da metade da população brasileira, a 54 anos, contra 79 da metade mais rica, segundo o relatório A diferença que nos une, da Oxfam (Oxford Famine), entidade, fundada na Inglaterra durante a Segunda Grande Guerra, e que hoje representa uma confederação de 19 organizações e mais de 3.000 parceiros, atuando em mais de 90 países na busca de soluções para o problema da pobreza, desigualdade e da injustiça, por meio de campanhas, programas de desenvolvimento e ações emergenciais. Segundo esse relatório, seis brasileiros têm uma riqueza equivalente ao patrimônio dos 100 milhões mais pobres do país, enquanto os 5% mais ricos detêm a mesma fatia de renda dos demais 95%.

?Como alterar esse ominoso e aviltante panorama? Do ponto de vista prático operacional, duas medidas fundamentais avultam no campo da educação e da saúde. Na educação, é imperioso que retornemos aos ensinamentos de Anísio Teixeira, o maior educador brasileiro de todos os tempos, colocado no olvido em favor de Paulo Freire, um idealista-marxista que cumpriu à perfeição o ideário ideológico do italiano Antônio Gramsci, ao mesmo tempo em que levou ao naufrágio a educação brasileira. Sem educação de qualidade ao alcance dos segmentos mais pobres da sociedade, a distribuição de renda será sempre instrumento do populismo irresponsável da esquerda ou da direita. No campo da saúde, nada tão impactante como o acesso da infeliz metade de nossa população a saneamento de qualidade, libertando-a da excessiva mortalidade infantil, doenças crônicas e morte precoce e sofrida, 21 anos abaixo da média nacional.
?Os recursos aplicados pelo Brasil a fundo, praticamente, perdido em países bolivarianos seriam suficientes para libertar milhões de brasileiros desse genocídio silencioso e implacável que destrói a vida de brasileiros pobres. Aproveito o ensejo para propor um debate público e tão educativo a respeito desse tema com os eminentes doutores petistas da Universidade Federal da Bahia que pensem em contrário.
?Nada mais oportuno e cívico!

Joaci Góes é escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia. Texto publicado hesta quinta-feira, 7, na TB.