ARTIGO

Artigo publicado na Tribuna da Bahia, edição de 30.04.2020.

Ponto de vista

A duração das quarentenas

Joaci Góes

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Aos queridos amigos e artistas notáveis Márcia e Juarez Paraíso!

?Em razão das distintas posições de risco das pessoas diante da Covid-19, o substantivo quarentena tem que ser grafado no plural, a menos que venha sucedido pelo grupo a que se refere. Até mesmo os milhares de pessoas, mundo afora, que já se curaram da peste ainda não sabem se estão ou não sujeitos a novo contágio. Na perspectiva de hoje, portanto, a plena tranquilidade só virá quando os pesquisadores anunciarem o desenvolvimento da vacina eficaz, a exemplo do que já aconteceu com tantos males que, apesar de continuarem a ceifar muitas vidas, são tratados como componentes da normalidade.

?No plano do pragmatismo, porém, o mundo já compreendeu que é possível e de todo conveniente conciliar a manutenção da atividade econômica com a preservação da vida humana, ajustando-se a adoção do binômio vida e renda às características de cada país, e, dentro dos países, às características de cada cidade ou região. Em face de suas ingentes desigualdades, o Brasil possui marcantes singularidades que o distinguem das demais nações. A própria OMS demorou muito – a eternidade de um mês, em tempos epidêmicos, quando as pessoas morrem pelas tabelas-, para compreender essa verdade palmar. Quando as autoridades, intensamente contagiadas pelo vírus eleitoral e pelo medo pânico, anunciaram o isolamento social como a palavra de ordem, deram a impressão de que toda a sociedade brasileira era composta de pessoas da classe média para cima, ignorando que para ficar segregada em casa para a maioria da população brasileira equivale a condená-la a oscilar entre o purgatório e o inferno, de tal modo pequenas, destituídas de conforto e de higiene são a grande maioria das residências entre nós, sobretudo nas cidades médias e grandes metrópoles, ensejando as aglomerações que facilitam o contágio. A postura hipócrita do “politicamente correto” de estigmatizar como genocida a proposta de conciliar atividade econômica com a preservação da vida, está matando percentual muito alto das populações pobres.

?Agora que, finalmente a ficha caiu, o Brasil e o mundo se preparam para iniciar a restauração da atividade laboral e produtiva, observadas, com grave atraso, certas regras de segurança, como o uso das máscaras e a abstenção de aglomerações, em ambientes lúdicos, de comércio ou de transporte. Para facilitar as coisas, o exercício das atividades industriais, de comércio e de serviços, deve ser distribuído ao longo das 24 horas do dia, de modo a rarefazer o deslocamento e o encontro de pessoas. Isso sem falar, na intensificação do trabalho em Home Office, inclusive da atividade escolar, modalidade que já alcançou notável desenvolvimento no pouco tempo da implacabilidade virótica que vem pondo o mundo de joelhos. Na Bahia, onde a educação é considerada a pior do País, o Sindicato dos Professores não apoia o ensino à distância por temor de reduzir seu poder de greve.

?Desde que adequadamente paramentadas, não faz o menor sentido impedir que as pessoas frequentem as praças e parques, andem pelas calçadas, oxigenando os pulmões e os músculos, sobretudo em nossa arejada orla, e se beneficiem da excelente talassoterapia que lhes proporciona o contato com o mar, tépido na Bahia, no Nordeste e no Norte, nas 24 horas de todos os dias do ano.

?Os grupos de risco, porém, idosos e pessoas com baixa imunidade, têm que observar estrita quarentena, até a chegada da vacina, de modo a evitar um contágio de elevado potencial mortífero, para eles, o que, na hipótese mais otimista, pode ocorrer a qualquer hora, de modo mais consistente, porém, entre junho e julho, ou, até, no começo do próximo ano. Isso significa uma segregação social que deverá durar no mínimo quatro meses. Prisão domiciliar a que muitos estão se acostumando e até apreciando, como ocasião única para o exercício pleno de uma ociosidade digna e sem culpa, regada a boa leitura, filmes, chope, cerveja, vinho e quejandos, além de reflexão e elaboração de projetos para quando a peste desaparecer de suas vidas.

?Nossa tropicalidade, mais do que a ação organizada do setor público e da cooperação da sociedade, constitui ambiente pouco favorável à expansão da Covid-19 que terá no Brasil uma das vítimas menos atingidas entre as nações populosas do Planeta

Joaci Góes é escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia. Texto publicado nesta quinta-feira, 30, na TB.