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 Moraes: “aquele cabeludo que você gosta”

 

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 CRÔNICA

Viva Moraes Moreira e tchau, Moro!

Janio Ferreira Soares

“Rapaz, só ontem, vendo o Fantástico, foi que soube da morte daquele cantor do cabelão que você gostava”, me diz Carlinhos Namorador, enquanto separa linhas e anzóis pra uma pescaria na companhia de Júlio Boca de Lata, Ciço Bucho de Tripa e umas duas garrafas de Pitú, itens fundamentais para inspirá-los nas fisgadas dos peixes que mais tarde virarão petiscos pra tirar o gosto travoso desses dias onde reina o medo.

Encosto os cotovelos na parte não farpada do arame que cerca o rio e concluo que, se não fosse pela citação do programa dominical da Globo, teria continuado minha caminhada sem perceber que já estava na segunda-feira posterior à da partida de Moraes Moreira, fato que apenas confirma que esse isolamento anda deixando minha bússola completamente ariada em relação a levada do tempo.

Finalmente situado na folhinha e sem maiores compromissos pela frente, sento na poltrona do faz de conta e embarco no ônibus da Luxo Salvador rumo ao Conjunto Castro Alves, Bloco C, Apto 311, Engenho Velho de Brotas, precioso endereço de minha tia Santinha e tio Waldemar, dois velhos baianos que não poupavam esforços pra realizar os sonhos dos novos que aportavam na sua casa vindos do interior.

E foi lá, numa roda de violões composta por uma moçada de cabelos longos e calções curtos, que no começo dos 70 apareceu um rapaz franzino levado por um camarada chamado Gordo, que depois de ficar um bom tempo apenas observando vozes desafinadas cantando algumas canções de Roberto, pegou o violão e levou uma composição sua que ninguém conhecia e que, apesar de um pouco longa, era bem fácil de tocar. Moraes era seu nome e a música era a inédita Preta, Pretinha.

E assim, durante muitas noites, moradores do Conjunto Castro Alves tiveram o privilégio de ouvir em primeira mão algumas partes da canção que conseguimos decorar, principalmente aquelas onde portas e janelas se abriam para ver o Sol nascer, enquanto a barca de Galvão corria solta pelas águas de Juazeiro.

Não sei se é impressão minha, mas ultimamente (bem antes dessa epidemia, diga-se) Moraes andava triste e abatido, talvez angustiado pelo que anda rolando nesse nosso Brasil, que, se um dia já foi do pandeiro iluminando os terreiros, agora parece que está querendo se transformar numa espécie de feudo do capitão e seus armados seguidores, nem aí pra pastorinhas e cantores, muito menos para as demais expressões e cores, a propósito, covardemente furtadas e incorporadas a uma estranha gente defendendo uma nova nação que, definitivamente, não é a minha, nem a de Aldir Blanc, nem a de Rubem Fonseca, muito menos a de um cara que era cheio de estrelas de São João, onde, na sua guerra-magia, a única coisa que poderia explodir era o amor. Viva Moraes Moreira e tchau, Moro!

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

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