Moro sai do governo Bolsonaro e torna futuro incerto - Tribuna ...

Moro faz graves denúncias  e abala governo Bolsonaro.

ARTIGO DA SEMANA

Moro sai: tudo pode piorar

Vitor Hugo Soares

“Nada é tão ruim que não possa piorar”. Estamos, irremediavelmente,  diante da força e do impacto da verdade desta frase de sábio autor desconhecido: O País já tremera na base com o embate irracionalmente feroz que redundou na queda do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta,  abrindo espaço para  Nelson Teich, novo chefe da pasta, e o general Eduardo Pazzuello, seu braço direito, como secretário executivo – com novas estratégias “para vencer a pandemia sem matar a economia”. Episódio grave e constrangedor, e de conseqüências imprevisíveis, é verdade. No entanto, nem de perto comparável à implosão demolidora dos alicerces de imagem e sustentação política e institucional do governo do presidente Jair Bolsonaro, causada pela fala recheada de revelações e denúncias do ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sergio Moro, ao deixar a pasta.

Ainda resta muita poeira e fumaça no ar em razão da explosão de nitroglicerina pura nos pilares do governo bolsonarista. Mas  dá para avaliar e reconhecer desde já, ao menos do ponto de vista jornalístico: O ex-ministro da Justiça e Segurana ao sair da gestão – onde sempre foi o mais bem avaliado integrante do primeiro escalão nas pesquisas de opinião pública – fez um dos pronunciamentos mais duros e reveladores  dos intestinos da política e do poder na história moderna da Nação. Moro sai maior – bem maior do que entrou.E deixa menor, bem menor – quase em cacarecos – o governo onde passou menos de um ano e meio.  Mais: O juiz condutor da Lava Jato deixa o governo acusando, pública e explicitamente, o mandatário do Palácio do Planalto de interferir politicamente no trabalho da Polícia Federal.

O Procurador-Geral da República, Augusto Aras, ontem mesmo, anunciou ter solicitado ao STF que investigue todas as denúncias de Moro em sua saída. A conferir.

Na espera dos próximos fatos, cabe pausa para contextualizar o tumulto de domingo, 19 de abril, comemorativo do Dia Nacional do Exército. Afinal, muito da implosão desta sexta-feira,24, para não esquecer, parece decorrer da ruidosa manifestação popular pedindo o relaxamento das normas de isolamento, no combate à pandemia, onde aconteceu de tudo, ou quase: do agressivo discurso do presidente, a gritos de “prisão” e “cadeia” para o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Houve até pedidos de novo AI-5 e intervenção militar..

A reação foi imediata. Ruidosa também, cheia de contradições e jeitinhos: de Maia a Alcolumbre (Congresso), de Dias Toffoli a Gilmar Mendes (STF); dos intelectuais, celebridades “e suspeitos de praxe”, como no filme “Casablanca”.
Com panos quentes, no meio do fogo cruzado, apareceu o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que alerta no Twitter: “Não é bom acirrar crises institucionais. Um pouco de contenção de lado a lado ajuda. Não creio em conspirações para tirar poder do Presidente. Ele e alguns militares podem crer. Melhor não dar pretexto para o pior; Lembremos de 68”. No fim da semana o desfecho mais inesperado e devastados: a saída do ministro Sergio Moto. Desce o pano no teatro de horrores e suspense nacional.. Até o próximo ato.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitors.h@uol.com.br

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Comentários

Carlos Volney on 26 Abril, 2020 at 16:38 #

Grande Vitor Hugo, suas conhecidas e reconhecidas lucidez e inteligência são singulares, quase ímpares.
Mais uma vez você faz uma análise brilhante, sintetizando com rara felicidade o delicado, conturbado e infeliz momento que estamos vivendo. Não nos bastasse a ameaça desse invisível e devastador inimigo que assola o mundo, sofremos também o turbilhão de inconsequências – pra ser generoso – desse paranóico – nova generosidade minha – que nos governa e infelicita.
Repito o que já postei aqui, Bolsonaro, por méritos próprios, não teria dez por cento dos votos com que foi eleito. Sua ascensão é consequência do desgosto e revolta de pessoas sérias, comprometidas com a moralidade, com a incontestável corrupção perpetrada e comandada por Lula. Então estes, sem opção, vislumbraram um mal menor com a eleição desse tresloucado que aí está.
De minha parte, mais um débito de Lula.
Agora, vejamos o quadro atual do Brasil.
Creio não ter havido até aqui, em nenhum lugar do mundo, na Era Contemporânea – e ela já é bem velhinha – uma situação inusitada como a que estamos a vivenciar. Um presidente da República tem três filhos, todos com fortíssimas evidências de comprometimento com corrupção, milícias e até coisas piores, envolvimento com pessoas do submundo do crime. Pois bem, isto não bastasse, os três, um de cada vez, ocupam as manchetes de todos os órgãos de imprensa, dia sim o outro também, destilando sandices, pior que em nome do governo e dele têm apoio.
Agora, tirando de vez a máscara, Bolsonaro demite, sem qualquer motivo que justificasse o ato, um diretor da Polícia Federal, numa inequívoca tentativa de proteger seus filhos, já que sabia que não conseguiria controlar o diretor demitido em sua atuação no inquérito que, autorizado e determinado apesar da tentativa de barrá-lo, apurará as denúncias contra eles.
Pra piorar um pouco chama Waldemar Costa Neto, Roberto Jéferson, Ciro Nogueira e outros, cujos “prontuários” são sobejamente conhecidos e lhes entrega régia fatia de poder pra que o utilizem da maneira cuja precedência é de todos conhecida.
Só por uma questão de coerência e justiça sou obrigado a afirmar que Lula também o fizera.
Perdoem a prolixidade deste aínda COROA VIVO.


vitor on 26 Abril, 2020 at 17:13 #

Carlos Volney
Brilhante mesmo é sua análise sobre o que escrevi no artigo da semana do (publicado tb na Tribuna da Bahia e no Blog do Noblat-VEJA). Brilhante, lúcido e completo. Dessas coisas que não dá para agradecer com palavras.Vai então o abraço mais forte, no recolhimento da pandemia, de outro Coroa Vivo. O espaço de pensamento e opinião inteligente é todo seu no BP. Chega mais.!!!


Carlos Volney on 27 Abril, 2020 at 11:01 #

Fico honrado e envaidecido com sua manifestação, Mestre Vitor, mas saberei dar o desconto da generosidade nela cometida.
Grande abraço.


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