ARTIGO

Ponto de vista/TB

Covid-19 e infecção hospitalar

Joaci Góes

Ao querido amigo e primo rico Joca Góes!

A má qualidade da saúde pública é uma das pragas que assolam o Brasil. É mais uma das dimensões ostensivas do fracasso do Estado como gestor, mesmo tendo o SUS, Sistema Único de Saúde, alcançado uma abrangência notável de atuação, tanto do ponto de vista geográfico, quanto na diversidade médica dos atendimentos que presta.

Apesar da criação, em 1988, da primeira Comissão de Controle de Infecção Hospitalar, ainda não dispomos de estatísticas confiáveis sobre o número anual de mortes pelo chamado contágio nosocomial. A Anbio, porém, Associação Nacional de Biossegurança, apresenta dados alarmantes, a começar pelo reconhecimento de que 80% da rede hospitalar brasileira não faz este controle. Segundo declara, a depender da unidade, o percentual de pacientes que contrai infecção hospitalar pode variar de 14% a incríveis 88,3%, ocasionando cerca de cem mil mortes, anualmente.

É improvável que a Covid-19 atinja metade disso. Havendo cuidado, o índice pode ficar próximo de zero, segundo a direção da entidade. Mais conservadora, a OMS – Organização Mundial de Saúde considera razoável um percentual médio de 14% dos pacientes afetados. A verdade é que a possibilidade de contrair infecção hospitalar depende dos cuidados que as diferentes unidades dispensem à questão. Desgraçadamente, a Anbio estima que apenas 1% das unidades hospitalares cumpre, satisfatoriamente, essas medidas cautelares. Um estudo divulgado na Grã-Bretanha, em 2010, situou o Brasil no 38° lugar, em “qualidade de morte”, entre 40 países considerados, em razão da baixa qualidade dos tratamentos paliativos e dos medicamentos analgésicos disponibilizados pela saúde pública. Isso significa reconhecer que, no Brasil, grande parte da população vive e morre mal.

Essa introdução vem a propósito dos riscos que correm pacientes comuns de contraírem a Covid-19, conforme as denúncias que vêm sendo feitas em toda parte, sobretudo pelas pessoas que perderam entes queridos em decorrência da contração no ambiente hospitalar da temível peste que vem pondo de joelhos o Mundo, o Brasil e a Bahia, onde já são vários os casos do gênero, mesmo quando ainda não contabilizamos uma centena de vítimas fatais. Como exemplo de nossa proverbial imprevidência, a mortalidade infantil, no Brasil, é muito elevada, apesar de vir, sistematicamente, diminuindo, nos últimos anos, estando, hoje, em 300 mortes, em cada grupo de dez mil crianças nascidas vivas, considerada a faixa etária de até cinco anos. Números que representam nove mil mortes por ano, evitáveis em sua grande maioria.

A tão em moda e polêmica OMS, Organização Mundial de Saúde, aponta o saneamento básico como um dos principais fatores determinantes da saúde dos povos. Em razão da falta de saneamento básico, metade da população brasileira tem sua média de longevidade reduzida de 75 para 54 anos, um verdadeiro genocídio, em “suaves prestações”, contra a qual nossas lideranças, inclusive as intelectuais, revelam uma sensibilidade coriácea. Aqui, as doenças de transmissão feco-oral, sobretudo a diarreia, se multiplicam durante os períodos de chuva, como durante as secas, causadas pela cólera, giardíase, febre tifóide, infecção por shigella, e outras. Deficiências no saneamento básico respondem por mais de 80% dessas doenças, segundo o IBGE. Com uma fração dos recursos que, historicamente, temos despendido para tratar, reativamente, essas doenças, teríamos construído uma rede de coleta e tratamento de esgotos que as evitaria, tornando o nosso povo mais saudável, feliz e produtivo. O mesmo pode ser dito da Dengue, do Aedes aegypti e de outros males. Em lugar disso, muita gente bateu palmas para investimentos em países bolivarianos com o dinheiro do contribuinte. Não seria isso genocídio?

Desgraçadamente, a maior parte da população brasileira, insuficientemente educada, só valoriza as intervenções oficiais quando as epidemias aparecem fazendo estragos. Daí advém o desprestígio de ações preventivas que não dão bônus eleitoral. Entre os políticos, circula a convicção de que obra subterrânea não dá votos. Sem um trabalho prévio de orientação à população, doenças como as decorrentes da infecção hospitalar, a dengue e a febre amarela continuarão fazendo vítimas fatais em número superior às produzidas pela temível Covid-19.

Joaci Góes, escritor, é presidente daAcademia de Letras da Bahia-ALB, ex-diretor da Tribuna da Bahia. Texto  publicado na edição de quinta-feira,23, da TB