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DO EL PAÍS

Aqueles que têm tudo de sobra atravessam a tempestade com menos sacrifícios do que os pobres, para os quais a epidemia é apenas um elemento a mais da dor em que já vivem

Um barbeiro da favela de Mandela, no Rio de Janeiro, trabalha com máscara de proteção durante pandemia de coronavírus.
Um barbeiro da favela de Mandela, no Rio de Janeiro, trabalha com máscara de proteção durante pandemia de coronavírus.Antonio Lacerda / EFE
 Juan Arias
Já se escreveu muito sobre como a tragédia do coronavírus nos iguala a todos porque quando golpeia não conhece classes nem ideologias. Mata ricos e pobres. Isso é, no entanto, uma meia-verdade, porque, como sempre na história, aqueles que têm tudo de sobra atravessam a tempestade com menos sacrifícios do que os pobres, para os quais a epidemia é apenas um elemento a mais da dor em que já vivem.

Pode parecer, mas não é uma blasfêmia dizer que os pobres sofrem menos do que os ricos nestas tragédias porque estão acostumados a conviver com a dor, a frustração e a morte.

Talvez por isso, os que mais se opõem ao confinamento que pode salvar muitas vidas são aqueles para quem não faltará nada durante a quarentena, nem mesmo um bom hospital caso o bicho chegue a pegá-los, como afirmou o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta.

Não vimos, de fato, multidões de pobres saírem às ruas para protestar contra o isolamento, apesar de serem eles os mais martirizados por essa medida, pois ela os impede até de sair para ganhar o pão para sua família. Os pobres não têm cadernetas de poupança, e sim dívidas, e a epidemia os deixa mais desprotegidos do que ninguém.

Estão sendo, paradoxalmente, os mais ricos que estão forçando as manifestações contra o isolamento —que, segundo a ciência, é em todo o mundo o único antídoto até hoje para salvar vidas. Sim, o vírus não é classista, mas as tremendas desigualdades da nossa sociedade cruel continuam vivas e até se agigantam durante a epidemia.

Para os mais ricos, os da Casa Grande, o que interessa é que a máquina da produção seja posta em marcha o quanto antes para que a Bolsa volte a subir.

Talvez seja por isso que personagens políticos como o presidente Jair Bolsonaro se revelem desprovidos de sentimentos humanos elementares de compaixão pelos que mais sofrem as consequências da epidemia, e cheguem a negá-la.

Isso explica por que esses pequenos aprendizes de tiranos não se preocupam com aqueles que mais vão morrer com o vírus. Sabemos que são os idosos e os que já sofrem de alguma doença crônica. E essas vítimas são as que menos interessam a todos que veem o mundo sob o prisma do mero lucro ou do mero interesse político. Para eles, idosos e doentes são improdutivos em nossa sociedade do consumo e da vertigem da produtividade a qualquer preço.

Os psicólogos e psiquiatras estão apontando as consequências negativas que terá, para nosso cérebro, a crise mundial que afeta a humanidade inteira. E é aterrador. É um rio de angústias profundas que nossa psique está acumulando, e ainda não sabemos quais serão suas consequências finais.

Mas, dentro de tanta dor, angústia e morte, há um aspecto esquecido que poderia nos ajudar a resgatar um sentimento perdido em nossa sociedade, infectada pelo ódio político e social. Refiro-me a um certo despertar do mundo das emoções, as mais positivas, as que nos curam das psicoses e pareciam adormecidas em uma sociedade contagiada por ódios e discriminações.

É como se o mundo do dinheiro frio e até o do tédio daqueles que têm a mesa farta tivesse se apoderado de um mundo que já é incapaz de emoções humanas profundas.

No entanto, a emoção nos redime de nossos pessimismos estéreis, nos aproxima, nos faz descobrir algo que acreditávamos ter perdido para sempre imersos, como estamos, na sociedade do egoísmo e da inveja. As emoções são o oxigênio da nossa vida interior.

A epidemia, com suas dores, está nos devolvendo, por exemplo, o gosto pela emoção gerada pela solidariedade e pela empatia com os demais, que nos parecem mais próximos e iguais do que nunca.

É verdade que as sequelas psiquiátricas provocadas pelo desespero da separação física podem aumentar durante a crise, como se vê pelo aumento da violência doméstica em algumas famílias. Mas também é possível que o confinamento forçado sirva para que muitos casais e famílias valorizem e reconquistem a intimidade perdida e a alegria de estar juntos.

São essas emoções que o isolamento desperta repentinamente em nós, fazendo com que nos sintamos mais amigos e receptivos à dor e à alegria alheias.

Cenas como a de idosos até de cem anos que saem dos hospitais curados do vírus, sob aplausos de médicos e enfermeiros, eram inéditas até ontem.

Não podemos esquecer, nem mesmo nestes momentos trágicos, que a perda das emoções cria mundos paralelos de ódio e incompreensão da dor e da pobreza alheias.

As emoções, em vez disso, afastam os demônios da vingança. A emoção positiva está mais disposta ao perdão do que ao castigo e nos prepara melhor para compreender a dor e a solidão dos outros.

Quem é incapaz de abrigar emoções diferentes das criadas pela violência e pela morte nunca entenderá o que a ternura e o abraço significam.

O que os nazistas, que arrastavam mães com seus filhos para os crematórios nos campos de concentração, sabiam sobre emoções como a compaixão pelos outros?

Os incapazes de emoções são os mais próximos dos psicopatas que matam com a maior frieza do mundo. Onde estava a emoção nos interrogatórios policiais sob tortura ou nos pelotões de fuzilamento das ditaduras?

Se o coronavírus nos servir para despertar os melhores sentimentos de emoção diante da felicidade alheia, sentimentos que a luta política envenenada aniquilou, a pandemia não terá sido inútil.

Nada seria mais positivo para nosso mundo amargurado e cada vez mais injusto e com maior capacidade de segregação que nascesse um rio de emoções reprimidas capaz de nos redimir de tantos ódios acumulados.

Só aqueles que têm a alma seca de emoções não conseguem entender certas correntes de emoções positivas que só apreciamos quando as perdemos.

É por isso que todos os ditadores ou aspirantes são sempre os mais alérgicos às emoções que salvam e unem a humanidade na busca de uma felicidade que não precisaria matar nem humilhar para se sentir em paz com os outros

“É preciso saber viver”, Roberto Carlos :Reiberto Carlos! Para levar o barco!

Sempre e em qualquer situação!

BOM DIA!!!

(Gilson Nogueira)

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DO CORREIO BRAZILIENSE

Os organizadores e o governo concordaram que os riscos são muito elevados, com mais de seis milhões de visitantes esperados durante o evento

 Agência France-Presse

Prevista para acontecer de 19 de setembro a 4 de outubro, a Oktoberfest de Munique foi anulada, devido à pandemia do novo coronavírus – anunciaram autoridades locais nesta terça-feira (21/4).

A prefeitura de Munique e o governo da região da Baviera (sul) “concordaram na avaliação de que os riscos são simplesmente muito elevados”, com mais de seis milhões de visitantes esperados – entre eles um terço do exterior e, particularmente, da Ásia, disse o chefe de governo do Estado da Baviera, Markus Söder. “Foi por isso que decidimos que a Oktoberfest não vai acontecer este ano”, acrescentou.
Söder deu a entender que o evento poderia ser realizado apenas no caso da descoberta de uma vacina contra o coronavírus, já que é impossível estabelecer regras de distanciamento social em um dos maiores eventos do mundo.

Do Jornal do B

Macaque in the trees
Brasília 60 Anos – Passarelas subterrâneas de pedestres – as tesourinhas (Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

A claridade de Brasília fechou a retina dos olhos verdes do garoto Will, com 14 anos incompletos. Era 13 de janeiro de 1959, ele fazia sua primeira viagem de avião, vindo de São Paulo para morar na nova capital federal. O voo era da Viação Aérea de São Paulo (Vasp), uma das seis companhias que mantinham rotas regulares para Brasília, como a Loide Aéreo Nacional, Real Aerovias, Paraense, Sadia, Cruzeiro do Sul, todas extintas.

De dentro do avião teve a primeira miragem da amplidão do cerrado, no qual Juscelino Kubistchek decidiu criar a cidade. Mesmo lugar onde, 60 anos mais tarde, Wilson Pereira Rodrigues, agora com 74 anos, ainda vive com sua família e trabalha. Ele tem três filhos (um homem e duas mulheres) e duas netas. Todos brasilienses.

Will ou Wilson tem memórias de Brasília do ar, da terra e da água. Quando menino, tomava banho no Córrego Guará e no Riacho Fundo. Andava de bicicleta, comia fruta do cerrado no pé e caçava passarinho em uma área de mata que ia da antiga Cidade Livre (hoje Núcleo Bandeirante) até próximo ao antigo aeroporto (hoje Base Aérea).

“A sensação era de estar de férias no meio do mato. Era o oposto de morar em São Paulo”, onde ficaram avós, tios e primos. Wilson se divertia, mas estudava – no Ginásio Brasília (GB) da rede La Salle (fundado em 1957) – e trabalhava, no Hotel e Churrascaria Presidente, na mesma Cidade Livre, de propriedade do seu pai – um pequeno empresário que depois teve outros negócios como uma distribuidora de gás (na Asa Norte), uma padaria e uma madeireira (em Sobradinho).

Wilson ajudou o pai nos negócios e depois serviu o Exército em 1964, no batalhão da Presidência da República. Mais tarde, concluiu estudos no colégio Elefante Branco, primeiro centro de ensino científico e para normalistas na cidade. Lá estudava a sua futura esposa, Walkiria Dunguel Pereira, por quem que se encantou numa festa do clube da Sociedade Desportiva Sobradinhense (Sodeso). Ele trabalhou na Companhia de Erradicação de Favelas (CEI), e fez curso de Geologia na Universidade de Brasília (UnB).

“Tudo aqui foi mais fácil. Não teria feito o curso que fiz se tivesse ficado em São Paulo. Também foi mais fácil criar meus filhos”, avalia após rever a vida. Trabalhou por quase 20 anos na estatal Siderúrgica (Siderbrás), onde se tornou um dos maiores especialistas em carvão do país. Hoje, anistiado entre os empregados públicos demitidos no governo Collor, trabalha no Ministério de Minas e Energia.

Outras vocações

A trajetória de Wilson, na Brasília que se inaugurava, foi bastante diferente dos rumos que os filhos tomaram quando Brasília se amadurecia, perdia a vegetação original e criava mais jeito de cidade. O filho mais velho, Alexandre Dunguel Pereira (49 anos), por exemplo, é formado em Publicidade. Chegou a trabalhar em repartição pública, mas há 20 anos é empresário, apesar das recomendações da mãe – que sempre o informa de concursos públicos que estão com inscrições abertas.

Junto com outros dois sócios na mesma faixa etária, também criados em Brasília, Dunguel abriu uma firma para soluções em comunicação e tecnologia. Com o tempo, se especializaram em monitoramento de mídia. Hoje a empresa mantém a sede em Brasília, dispõe de filiais no Rio e em São Paulo, tem cerca de 100 clientes – a maioria empresas privadas e 80% fora da capital federal – e emprega 90 pessoas nas três praças. “Acabou que esse percurso pela iniciativa privada foi se abrindo e se tornou um bom caminho”, diz o empresário.

As diferenças das jornadas do pai e do filho ilustram como Brasília, apesar de ser a sede da administração pública federal, com o tempo encontrou outras vocações econômicas. De acordo com estudo da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), no Distrito Federal, predomina o setor de serviços, e menos de um terço (27%) dos empregos estão nas repartições da administração pública, na defesa ou seguridade social.

O setor de serviços atende a empresas e famílias com alto poder aquisitivo. Segundo a Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o rendimento médio real no 4º trimestre de 2019 em Brasília foi o maior do país: R$ 3.980, 43% acima da média nacional (R$ 2.261) e 28% acima de São Paulo (R$ 2.866), que concentra 31% da massa de rendimento do Brasil.

Fincando raízes

Dunguel, como o pai, acha Brasília “ótima para viver”. E apesar de ter um trabalho que pode ser feito remotamente de qualquer lugar, ainda mora, trabalha e cria a sua filha na cidade. “A gente vai fincando raízes. Eu sou filho de Brasília.” Segundo ele, o Plano Piloto de Lúcio Costa ficou preservado “em alguns aspectos” conforme pensou o urbanista. “Aqui tem muito verde e espaço aberto.” Nesses lugares, é comum ver animais silvestres.

Apesar do entusiasmo, Alexandre Dunguel, tem suas críticas. Acha que sua filha, Gabriela (12 anos), não desfruta da mesma autonomia e independência que ele tinha na mesma idade. “As gerações atuais não têm a mesma iniciativa que a gente tinha de pegar um ônibus. A gente sente um pouco sequestrado dessa liberdade, por conta da violência urbana, mas isso não é só Brasília.”

O professor de Sociologia da UnB Arthur Trindade, especializado em políticas de combate à criminalidade e ex-secretário de Segurança Pública no Distrito Federal, avalia que, apesar da preocupação da sociedade local, Brasília tem uma situação de crimes letais “semelhante a grandes cidades norte-americanas.”

Na comparação entre as unidades da Federação, o Distrito Federal está entre as cinco unidades com menor taxa de homicídio por 100 mil habitantes: 20,1 – quase a metade do Rio de Janeiro (38,4) e menos de um terço do Rio Grande do Norte (62,8), a pior situação do país como aponta o Atlas da Violência 2019, editado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Segundo Arthur Trindade, o maior problema de segurança em Brasília está nos crimes contra o patrimônio, como furtos e roubos de carro. O especialista alerta, no entanto, que a situação varia dentro do DF. O Plano Piloto, onde moram Alexandre e Wilson, tem situação de segurança melhor que outros lugares, como as antigamente chamadas cidades-satélites ou os novos assentamentos urbanos distritais. “São coisas bem diferentes. Cada região administrativa tem uma situação distinta.”

O problema da violência cresce nas proximidades do Distrito Federal, na região metropolitana de influência chamada de Entorno, formada por municípios de Goiás. Essas localidades funcionam como cidades dormitórios de Brasília, as pessoas moram lá e trabalham no centro da capital. O professor aponta que “o impacto da violência no Entorno é bem menor que o imaginário supõe. [No caso das estatísticas de homicídio,] as pessoas matam e morrem nos seus bairros.”

Desigualdade

As diferenças apontadas pelo sociólogo quanto à violência entre as regiões administrativas do Distrito Federal e entre o DF e o Entorno também podem ser medidas com relação à desigualdade.

Dados da Codeplan contabilizam que no Lago Sul, onde vive 1% da população do DF, a renda per capita é de R$ 8.317,19. Na Ceilândia, onde moram 15% da população local, a renda per capita é de R$ 1.120,02 – 7,42 vezes menor que a do Lago Sul.

No Setor Complementar de Indústria e Abastecimento (SCIA), a renda per capita é de R$ 569,97 – 14,59 vezes menor que a do Lago Sul. Na área, vive 1,2% da população do DF, inclusive os moradores que residiam próximos ao Lixão da Estrutural, o maior aterro sanitário da América Latina em funcionamento até dois anos atrás.

Na comparação do DF com doze municípios do Entorno, a discrepância permanece. Segundo pesquisa da Codeplan, a renda domiciliar média do conjunto das cidades ao redor de Brasília é de R$ 2.441,67, duas vezes e meia menor do que a renda domiciliar média do DF.

Dada essas disparidades, o urbanista José Carlos Coutinho, professor emérito da UnB, teme que no futuro Brasília acabe “sendo um centro histórico cercado de pobreza por todos os lados”.

O professor e especialista em geografia urbana Telmo Amand Ribeiro, que mantém um canal no YouTube sobre Brasília, discorda dessa avaliação.

Ele ressalta que “as antigas cidades-satélites já estão virando novos redutos para a classe média”. O youtuber, no entanto, se preocupa com a exclusão das pessoas mais pobres do DF e sua retirada para o Entorno. “O Distrito Federal inteiro está gentrificando e expulsando gente para a região do Entorno”.

A situação socioeconômica de Brasília faz com que seus críticos a chamem de “ilha da fantasia”. Para Telmo Amand, o termo pode caber para o Plano Piloto, área central e mais rica da cidade, que “está fisicamente separada das demais regiões administrativas do Distrito Federal”.

A mesma avaliação faz o diretor do Instituto de Ciência Política da UnB, Lucio Rennó, que, em entrevista à Agência Brasil, destacou que “o conjunto do Distrito Federal e as adjacências não têm nada de ilha da fantasia”.

Em termos nacionais e até internacionais, a desigualdade de Brasília não a diferencia de outras partes do mundo. O sociólogo e economista Marcelo Medeiros, ex-morador da cidade, considera que “a desigualdade é alta em vários países e o que vemos em Brasília se repete na Argentina, na África do Sul, nos Estados Unidos e na China. A desigualdade é um problema global e se torna evidente nas metrópoles.”

As discrepâncias da capital federal não correspondem aos sonhos do primeiro brasileiro que quis trazer para o interior do Brasil a sede do poder: Tiradentes, cujo dia também é lembrado em 21 de abril. Duzentos e trinta anos depois dos inconfidentes, o país ainda não é a pátria imaginada.(Agência Brasil)

 

DO CORREIO BRAZILIENSE

A justificativa para a ação foi baseada na ”proteção” dos postos de trabalho de norte-americanos


 Agência France-Presse
 
O presidente americano, Donald Trump, anunciou nesta terça-feira (21/4) a suspensão por pelo menos 60 dias da imigração legal aos Estados Unidos, argumentando que busca com isto proteger os postos de trabalho dos cidadãos americanos.
 
 Trump deu os primeiros detalhes em um vago anúncio feito na noite de segunda-feira, abordando um tema-chave para sua base conservadora, em um momento em que o desemprego dispara no país, devido à pandemia do novo coronavírus, que deixa mais de 43.000 mortos nos Estados Unidos.

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Posted on 22-04-2020
Filed Under (Artigos) by vitor on 22-04-2020
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Jornal de charges – O melhor do humor gráfico brasileiro na Internet – ano XXIII – 3ª- feira 21/04/2020

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TachoNO jornal NH (RS)

DO EL PAÍS

Governador do Distrito Federal, que diz não considerar Bolsonaro um aliado, inicia reabertura do comércio após quase 40 dias de quarentena. Ele elogia novo ministro, e critica socorro econômico do Executivo

O governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB), em novembro de 2018, em sua casa em Brasília.
O governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB), em novembro de 2018, em sua casa em Brasília.Pedro Ladeira / Folhapress / Pedro Ladeira/Folhapress

O Distrito Federal tem o sétimo maior coeficiente de incidência do novo coronavírus no Brasil. São 289 casos para cada 1 milhão de habitantes, um índice considerado alto, mas ainda quase a metade do Amazonas, que lidera o ranking no país. Em Brasília e suas regiões administrativas moram 2,5 milhões de pessoas, e até esta terça-feira havia a confirmação de 881 pessoas infectadas e 24 mortes, o que coloca a taxa de letalidade na federação em 2,7% (ante 6,4% do índice nacional). Na avaliação do Ministério da Saúde, o DF está entre as sete unidades da federação próximas a entrar em uma fase descontrolada de contaminação. Ainda assim, o governador Ibaneis Rocha (MDB) demonstra tranquilidade para ampliar o afrouxamento do isolamento social que ele impôs por decreto desde a segunda semana de março. Segundo ele, a adoção rápida do confinamento deu tempo para o DF se preparar para a fase de pico, prevista para o fim de abril. “Não tenho dúvida nenhuma que surtiu efeito. Chegamos a ter dias com 80% de isolamento social. Isso ajudou muito para não estarmos em uma situação incontrolável hoje”, afirmou ao EL PAÍS. Foi o primeiro governador do país a adotar uma postura indicada por autoridades sanitárias, mas repudiadas pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que demitiu seu ministro da Saúde na semana passada exatamente por essas divergências.

Dizendo gostar do presidente, mas não o considerar um aliado, Ibaneis é um dos que concordaram com a demissão de Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde, no último dia 16, ao contrário do que pensa 64% da população, conforme pesquisa Datafolha. “Acho que já foi tarde”. O governador do Distrito Federal também esteve entre os poucos que não assinou as recentes cartas críticas ao presidente —a mais recente, assinada por 20 governadores, manifestou apoio aos líderes da Câmara e do Senado em repúdio aos protestos com viés antidemocráticos realizados no domingo, com a presença do presidente. Com quase tudo fechado desde 12 de março, nas últimas duas semanas, Ibaneis autorizou a abertura de feiras livres, lojas de móveis e eletroeletrônicos, além de óticas. Até 4 de maio, deve abrir o restante do comércio. E, no começo de junho, autorizará o retorno das aulas nas redes públicas e privadas. Diz não sofrer pressões para fazê-lo antecipadamente e que, apesar do pico da doença chegar até o fim de abril, está preparado para um eventual aumento dos casos que necessitem de internações hospitalares. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida por telefone.

Pergunta. Qual a sua avaliação sobre a demissão de Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde?

Resposta. Acho que já foi tarde. O ministro Mandetta fez um excelente trabalho antes do coronavírus. Na nossa secretaria de saúde ele ajudou muito na atenção básica e no reaparelhamento da saúde, na compra de medicamentos, nos equipamentos dos hospitais. Isso tudo até a chegada da covid-19. Depois, parece que ele foi colhido por um vírus político e entrou numa divergência com o presidente e esqueceu da condução e do tratamento do coronavírus no Brasil como um todo. Tínhamos condições que eram previsíveis em todo o país. Saber que São Paulo teria um colapso era uma coisa natural. Saber que Brasília corria um risco, em virtude de sua condição de ter embaixadas, o Congresso Nacional, abrigar a Presidência da República era alguma coisa previsível também. Alguns Estados do Nordeste também. O Ceará por causa do turismo e Pernambuco pela atividade econômica. Tem algumas situações que poderiam ter sido identificadas e tratadas de um modo diferenciado. Não sou médico, mas com base em nossa equipe concluí que ele não tratou o vírus da forma técnica como deveria. O tempo que ele perdia naquelas entrevistas era um tempo que poderia ser utilizado tratando de estratégias de combate com os governadores e secretarias de saúde dos Estados. Eu, nesse período todo ele não tratou comigo nenhuma vez.

P. Como assim? Não teve nenhuma reunião com o Mandetta nessa crise?

R. Não. Tudo o que fiz no Distrito Federal foi com os meus técnicos. Montei minha sala de gestão, montei os meus modelos, com todos os dados inseridos e pelas previsões. Analisei os dados do mundo que deram certo e errado. Eu entendo que o ministro Mandetta poderia ter feito um trabalho diferenciado olhando para o Brasil como um todo. Ele se envolveu em uma guerra com o presidente da República e se esqueceu de um exército formado pelas secretarias de saúde dos Estados e municípios.

P. O senhor também demitiu o Osnei Okumoto, seu secretário da Saúde, durante a pandemia. Por qual razão?

R. Foi no início da crise e não foi por incompetência ou por questões políticas, não. Ele é extremamente competente, da mesma maneira que é o Mandetta. Ele conhece muito de atenção básica. Me ajudou a resolver o problema da saúde do Distrito Federal. Hoje, temos quase 80% de cobertura na atenção básica, acabei com desabastecimento. Tudo isso foi ele quem fez. Mas, para o enfrentamento da crise com a agilidade que eu precisava, eu logo notei que o secretário Osnei não ia dar conta. Ele saiu, mas continua na minha equipe. Hoje, ele preside o hemocentro. Você tem uma pessoa para cada momento [Francisco Araújo Filho assumiu o comando da Secretaria de Saúde do DF]. O Mandetta foi num excelente ministro antes da crise, dentro da crise, entendo que ele não agiu bem.

R. Qual é a avaliação que o senhor faz do novo ministro da Saúde, Nelson Teich?

R. A primeira fala dele aponta para um rumo mais correto. Quero ver as ações. Em primeiro lugar, ele tem de esquecer a política, já que ele se coloca como um técnico. E ele tem de partir agora para uma união dos Estados. Tem de sentar com a equipe técnica dele e montar uma estratégia para os Estados para pensar na recuperação do Brasil como um todo. Como a crise se agravou em São Paulo, Fortaleza, Manaus, ele vai ter de adotar uma estratégia diferente. Se não o país não vai sair da crise.

P. O Ministério da Saúde inclui o DF como um dos que estão na iminência de entrar em uma fase descontrolada.

R. O Distrito Federal hoje está com uma curva de controle, tanto que eu estou falando já em reabertura. Agora, tem outros Estados que não vão tratar disso tão cedo. O ministério hoje tem de olhar o mapa do Brasil como um todo, ver a estrutura das cidades, aumentar a testagem da população como ele colocou na sua primeira manifestação e dar um socorro para cada um dos Estados prevenindo o que está acontecendo.

P. Conforme os seus técnicos, o pico já chegou no Distrito Federal?

R. Não. Vamos chegar no pico daqui mais uma ou duas semanas. Até o fim do mês.

P. Se ainda vai atingir o pico no fim de abril, por que o senhor prevê reabrir o comércio na primeira semana de maio?

R. Eu já tinha essa análise desde o fim de março. Como estamos sob controle, eu tive tempo para melhorar minha rede de saúde. [Até a sexta-feira, 17 de abril] Hoje tenho só 17 pessoas internadas para 300 leitos de UTI na rede pública. Somando com a rede privada chegamos a uns 500 leitos só pra Covid-19. Temos o maior número de leitos da UTI, temos mais de 1.600 leitos. A nossa previsão é que o vírus agora vai se espalhar para as comunidades mais carentes. E muitos deles não tem condição de fazer um isolamento domiciliar. Como eu diminuí muito o atendimento dentro dos hospitais, separei o Hospital Regional da Asa Norte [referência na rede pública] que só está atendendo queimados e covid-19. Então, eu tenho leitos hoje para fazer isolamento até quem não tem conta de se isolar em seu domicílio. E até o fim do mês também terei um hospital de campanha pronto.

P. Qual é a estrutura desse hospital de campanha?

R. Serão mais 200 leitos no estádio Mané Garrincha. Não terá UTI, mas será destinado para quem se infectar nas regiões mais carentes e não tem como se isolar. Darei o isolamento para pessoa e, se for necessário, o que sair do estágio mais grave da UTI e ainda precisar ficar internado, irá para esse hospital de campanha

P. Brasília está em isolamento desde a segunda semana de março. Acha que surtiu efeito?

R. Não tenho dúvida nenhuma que surtiu efeito. Chegamos a ter dias com 80% de isolamento social. Isso ajudou muito para não estarmos em uma situação incontrolável hoje.

P. Há empresas que fazem esse monitoramento que apontam que o isolamento hoje está torno de 55% no DF. Por que reduziu tanto?

R. Ainda somos o primeiro do Brasil. Reduziu porque eu já abri algumas atividades [feiras, lojas de eletrônicos, móveis e ótica]. Essa é uma gripe que muita gente vai pegar. O que temos é diminuir o ritmo da infecção. Vamos chegar num ponto que teremos 70% das pessoas infectadas. Como não tem vacina, só vamos ter a imunidade quando tivermos mais de 60% da população que tiveram contato com o vírus.

P. Pelo seu decreto, as escolas só devem reabrir em junho. Já que está abrindo o comércio, pretende alterar essa data também?

R. Não. No caso das escolas, se eu as mantenho fechadas, diminuo pela metade o número de pessoas circulando na cidade. Antes do início das medidas, eu tinha em torno de 1,2 milhão de pessoas que circulam diariamente. Eu mantendo as escolas fechadas e servidores públicos em teletrabalho, eu vou ter, com a reabertura do comércio, em torno 500.000 a 600.000 pessoas circulando.

P. Sente-se pressionado por empresários, comerciantes ou qualquer outro setor para afrouxar as medidas de restrição de isolamento social o quanto antes?

R. Não. Eu passei minha vida todinha na advocacia. Não sou sujeito à pressão. Como fui eleito por mim mesmo, não tive o apoio de ninguém, não devo nada a ninguém. Tenho uma condição diferenciada.

P. Um diálogo vazado do ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni, com o deputado Osmar Terra mostrou que se o senhor relaxasse as medidas, poderia servir de exemplo para os demais governadores. Isso de alguma forma afetou suas decisões? Sentiu-se sob pressão para reabrir logo?

R. Não. Eu tive uma conversa com o ministro Braga Netto (Casa Civil) e com o Osmar Terra. Fui eu quem falei para eles que tinha previsão de abrir antes. E, se o governo me ajudasse, eu poderia servir de exemplo. Quando eu falo isso, eu preciso de ajuda para fazer uma testagem em massa, para ter maior nível de segurança. E preciso equipar mais meus hospitais. Aí, eu disse a eles que Brasília podia ser um exemplo. Nós adotamos as medidas de isolamento com muita firmeza e estamos fazendo nossa parte. Essa foi a informação que eu passei para eles. Naquele diálogo, eles só replicaram a minha fala.

P. E essas testagens em massa. Há previsão de acontecerem?

R. Começamos a fazer já. Antes, fazíamos em torno de 600 testes por dia e aumentamos para 1.000. Contratei um laboratório e contratarei mais dois para que, na próxima semana, passemos a fazer 1.500 testes ao dia. O ministério está nos ajudando enviando 15.000 testes. Até o fim do mês, quero chegar a 2.000 testes por dia. Até o final de maio quero chegar a 400.000 pessoas [cerca de 15% da população].

P. A mortalidade no Distrito Federal é de 2,7% dos infectados, enquanto que a do Brasil está na casa dos 6,4%. A que atribuiu esses dados?

R. Às condições de nosso atendimento médico tanto na rede pública quanto na privada, que é muito bem equipada.

P. Qual é o impacto financeiro dessa crise para o DF?

R. É muito ruim do ponto de vista econômico. Mas do ponto de vista da saúde, tivemos a oportunidade de reequipar a rede pública, inclusive. Estamos com nossos leitos públicos renovados e ampliados.

P. E os respiradores. Conseguiram comprar?

R. Sim. Nós recuperamos 250 que estavam em nossa sucata. Compramos 150 com recursos do BRB [banco estatal de Brasília] com doações de empresários e mais 150 com recursos próprios. Soma-se a isso outros 160 que já tínhamos [total 710].

P. O senhor já se declarou aliado do presidente Bolsonaro. Mas, ultimamente, tem adotado medidas diferentes das que ele defende. Ainda é um aliado dele?

R. Eu sou um hospedeiro da presidência da República e do Congresso Nacional. Eu sabia que teria de ter uma boa convivência com todos eles. Eu tenho um bom relacionamento com o presidente e com os ministros. Agora, nem por isso sou obrigado a concordar com tudo o que ele fala e faz. Vivi e cresci dentro da democracia. Eu convivo com opiniões divergentes com muita facilidade. Agora, eu adoto as que eu acho que estão corretas. Isso não me faz brigar com ninguém. Posso não concordar com muita coisa que ele fala, mas não vai me fazer um inimigo dele.

P. Mas o senhor já subscreveu cartas de governadores que criticavam o presidente. Acha que, de alguma maneira, elas interferiram na relação dos governadores com ele?

R. Eu subscrevo as cartas. Sou coordenador do fórum. Quando houve uma reunião para tratar de uma questão mais politizada, eu não participei. Quando há reuniões que contém críticas positivas e, se adotadas, podem ajudar na evolução, eu assino sem problema.

P. Para ficar claro. O senhor é ou não um aliado do presidente?

R. Sou um aliado. Não, corrigindo. Sou aliado, não. Eu gosto do presidente e de muita coisa que ele fez, só não concordo com todas.

P. Está satisfeito com o socorro econômico anunciado pelo Governo federal aos Estados e Municípios e da forma com que ele foi votado na Câmara?

R. Esse pacote que não olha para os Estados entendendo que o Brasil é um país continental com suas divergências. A principal renda das regiões Norte de Nordeste vem do Fundo de Participação dos Municípios e do Fundo de Participação dos Estados. Tem razão os parlamentares e governadores de lá quando fazem suas críticas. Quando você vem para Centro-Oeste, Sul e Sudeste, você tem uma modificação na composição dessa renda. Nossa principal fonte é a arrecadação de tributos: ICMS e ISS, principalmente. Esse pacote trata todos os Estados da federação da mesma maneira, e, por isso, você não consegue resolver o problema. Fica cada um puxando a corda para um lado e gera uma situação de impasse. Faltou um pouco de técnica na elaboração, para que realmente tivesse uma solução que atendesse a todos. Isso não é só desse Governo, o Brasil sempre foi assim. Eles tentam dar uma solução nacional, quando nossos problemas são regionais. A nossa Constituição teve esse pecado, quis igualar todo mundo, esquecendo que todos os brasileiros vivem em localidades diferentes.

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