Artigo publicado na Tribuna da Bahia, edição de 16.04.2020.

Ponto de vista

Como será depois do COVID-19?

Joaci Góes

?Ao velho e bom amigo Deputado Marcelo Nilo!

?O britânico Arnold Joseph Toynbee (1889-1975), um dos maiores historiadores do Século XX, pouco traduzido para o português, notabilizou-se, sobretudo, pelo desenvolvimento de sua teoria segundo a qual a evolução da humanidade é balizada pela superação dos desafios ou dificuldades. Nos doze volumes de seu Magnum opus, A Study of History, que escreveu ao longo dos 27 anos compreendidos entre 1934 e 1961, o também helenista e diplomata Toynbee, egresso de uma família de notáveis intelectuais, analisa o processo de nascimento, crescimento e queda das civilizações, a partir de uma perspectiva global, por entender que o estudo isolado dos estados oferece, apenas, uma visão tópica parcial da realidade humana, induzindo a erro o intérprete. Segundo seu raciocínio, as civilizações não morrem por assassinato, mas por suicídio, a partir de erros internos. A morte das civilizações, coincidindo com invasão estrangeira ou a ocorrência de um desastre natural só é possível em razão do desgaste acumulado e produzido por forças internas. Explica-se a grande influência que exerceu na ampliação das atividades das grandes corporações, mundo afora, a partir de um programa intitulado Visão de Empresa, baseado na Visão, na Cultura e na Motivação, os três pilares comuns às 26 civilizações hegemônicas que analisou. A revista Time disse de sua obra ser “o mais provocador trabalho de teoria da História, escrito na Inglaterra, desde O Capital de Karl Marx”. Em seu livro de memórias, A journey around the world, Toynbee disse que o Brasil era “the melting pot of civilizations”, definição que não tem caráter axiológico, já que melting pot pode resultar em confusão ou redentora complexidade. Em obras que publicou depois da Segunda Grande Guerra, antecipou-se em meio século a Samuel Huntington, ao sustentar que os conflitos no Século XXI não seriam entre capitalismo e comunismo, mas entre regiões nascidas de Abrahão, além de vaticinar que a União Soviética não veria o fim do Século XX.
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Tive o privilégio de, como aluno secundarista do Central, escutá-lo quando conferenciou na UFBA, ao tempo de Edgard Santos, um dos maiores reitores brasileiros de todos os tempos. Um pouco depois, já estudante universitário, aí também conheci nomes de peso como Aldous Huxley, Jean Paul Sartre, Emílio Myra y Lopez, John Kenneth Galbraith e muita gente mais. Explica-se porque a UFBA já foi considerada uma das melhores universidades brasileiras.
?Toda essa longa digressão introdutória vem a propósito de especular sobre o futuro que nos aguarda, a partir do day after dessa inquietante epidemia.

?A julgar pelas conclusões do sábio inglês, enquanto algumas nações irão ao fundo do poço, outras, em graus variados, compatíveis com a resiliência que foram capazes de construir, farão, em escala nacional, dessa crise ou queda, um passo de dança, na construção do seu harmonioso bailado, como queria o mineiro Fernando Sabino. No geral, penso que a recuperação dar-se-á em tempo mais rápido do que sugere a antecipação da queda brutal do PIB mundial e dos países, com a exceção da China que baixará o seu crescimento a um patamar aspirado pela maioria dos povos.

A rapidez da recuperação resulta da consciência coletiva de que o colapso resultou de uma circunstância alheia à vontade humana, diferentemente do ocorrido com a debacle de 1929, a partir da queda sem precedentes da Bolsa de Nova Iorque, contagiando a economia global. Esta quarentena servirá para tornar as sociedades mais previdentes diante de ocorrências previstas por personalidades das mais distintas vertentes, como Bill Gates e Barack Obama. Sem falar, no vaticínio poético do Maluco Beleza, Raul Seixas. Mais ainda ficará evidenciado o valor do conhecimento na prosperidade das pessoas e dos povos. Os menos educados, categoria que no Brasil abunda, a partir de nosso péssimo sistema educacional, sofrerão mais. Modificações profundas ocorrerão no exercício do trabalho, com crescimento exponencial do home office.

O hábito da leitura, que no Brasil é mendicante, receberá inegável e benfazejo impulso. As pessoas valorizarão mais a simples e valiosa circunstância de estarem em gozo de boa saúde e simplesmente poderem bater perna, livremente, em nosso ambiente externo ensolarado. Esse momento aflitivo passará, inclusive para as pessoas que perderam seus entes queridos, os únicos para quem o mundo se acabou.

?Como única afirmação inquestionável, o universo continuará sua marcha de sempre, ninguém sabe para onde, inteiramente indiferente às alegrias, lágrimas, arrogância e humildade dos Homens.

Joaci Góes é escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia-ALB, ex-diretor da TB. Texto publicado originalmente quinta-feira,16, na TB