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Postado em 17-04-2020
Arquivado em (Artigos) por vitor em 17-04-2020 00:48
Do  Jornal do Brasil

GILBERTO MENEZES CÔRTES

O novo ministro da Saúde, o oncologista Nelson Teich – que tem formação em MBA no IBMEC, onde conheceu, em 2006 o atual ministro da Economia, Paulo Guedes – definiu, preliminarmente, que precisa ter dados sólidos em mãos para definir os próximos passos além da atual restrição de mobilidade horizontal. Uma das deficiências é a quase ausência de instrumentos para fazer a testagem (nem os médicos e paramédicos) têm sido testados para saber se estão infectados ou se desenvolveram anticorpos contra o novo coronavírus (Covid-19). Esta fase é possível de ser corrigida só com a chegada de milhões de testes importados.

A outra deficiência, bem mais difícil de resolver, para garantir dados sólidos sobre a movimentação da doença no imenso território brasileiro, é a quase completa desarticulação entre a central de coleta de dados do ministério e as secretárias estaduais de saúde e destas com as secretarias municipais – para ficar apenas na imensa rede do SUS – e de outra parte, a falta de alimentação de dados pelos hospitais particulares e planos de saúde à rede pública.

Teich fundou o Grupo Clínicas Oncológicas Integradas (COI), em 1990, e foi seu presidente até 2018, tendo passado os últimos três anos, vinculado ao United Health Group, que comprou a Amil, em 2015. Em artigos, sempre frisa a importância de se trabalhar com dados sólidos. O que reafirmou na cerimônia da tarde desta quinta-feira, 16 de abril, no Palácio do Planalto.

Excessivamente controlado, com ar de ter tomado tranquilizantes, o presidente Jair Bolsonaro agradeceu o trabalho de Henrique Mandetta, disse que a pandemia virou “uma verdadeira máquina de moer empregos”, tentou dividir responsabilidades da crise com os governadores que adotaram restrições à movimentação da população em geral e orientou Teich a olhar para a saúde e o desemprego simultaneamente. Teich não se comprometeu com uma guinada nos planos atuais de isolamento horizontal e vertical.

Os entraves da burocracia

Os dados do ministério da Saúde divulgados na tarde desta quinta-feira, com base nos informes centralizados das secretarias estaduais de saúde, indicaram a ocorrência de 2.105 novos infectados, cujo total chegou a 30.425. Com mais 188 mortes hoje, o país acumula 1.924 vítimas fatais. A cifra de 188 mortes, não chega a tranquilizar – embora tenha indicado queda frente a dois dias de registros de pouco mais de 200 casos.

É que se a frente de médicos e paramédicos está atuando além de suas forças nos hospitais e UTIs, a parte burocrática das secretarias municipais e estaduais não responde no mesmo ritmo. Já virou tradição que os registros caiam no sábado e domingo e voltem a dar picos na terça-feira.

A razão é simples: enquanto os empregados do setor privado (os que não perderam empregos) estão operando de casa, a burocracia folga a partir das 17 horas de sexta-feira e só retoma o batente na manhã de segunda. Como semana passada houve o feriado prolongado da Semana Santa, os dados ficaram bastante irregulares e precisam de uma clivagem.

Na próxima semana, com o feriado de Tiradentes (21 de abril) e a comemoração do Dia da Consciência Negra em alguns estados e municípios (dia 23), na próxima quinta-feira, a base de dados vai ficar mais deficiente. É preciso criar um sistema de fluxo de informações mais constante e atualizado.

Amazonas o estado mais crítico

Mas o cotejo das informações oficiais do Ministério da Saúde com os dados do IBGE mostra um quadro bem mais preocupante. O Amazonas, com a capital Manaus concentrando 1.350 (87%) dos 1.554 casos registrados em todo o estado, e 124 mortes (quase 90% em Manaus), revela-se a situação mais preocupante no país. Embora o estado tenha apenas 1,88% da população brasileira (4.194 milhões, para um total de 211,393 milhões em todo o Brasil), a incidência de casos no AM chega a 6,5% do total nacional e a capital do estado, com 2,18 milhões de habitantes teria um número alarmante.

Basta comparar com São Paulo, que foi o primeiro estado a registrar contaminações e lidera, com a capital paulista à frente, o maior número de infectados e de mortes. São Paulo tem 46,207 milhões de habitantes (22% da população brasileira). E a capital, tem 12,252 milhões (5,8% da população nacional). O estado registra 853 mortes, o que equivale a 44% do total nacional (o dobro da participação do estado na população brasileira). E a capital paulista registra 7.754 casos, mais de 25% do total do país.

Parece claro que a concentração em São Paulo tem a ver com a sua maior população, o seu alto padrão de vida e a existência no estado dos aeroportos internacionais e nacionais de maior tráfego no país. Todos sabem que os casos da Covid-19 vieram basicamente “importados” por turistas, estudantes ou homens de negócio que viajaram em fevereiro para a Europa, e que não houve restrições durante e após o Carnaval.

Por sinal, até aqui, embora tenha a terceira população entre os estados 17,3 milhões, atrás 21,2 milhões de mineiros, o Rio de Janeiro tem a 2ª posição absoluta em casos e em mortes, mas perde em termos relativos para o Ceará. No Rio e em São Paulo, as primeiras contaminações ocorreram na elite, no grupo de pessoas com poder aquisitivo para viajar nas classes A e B.

O risco agora no país é a propagação horizontal nas classes menos favorecidas. Daí a cautela de Nelson Teich (e da equipe de Mandetta) de flexibilizar o isolamento sem dados confiáveis.

Com 124 mortes, o mesmo que o Amazonas, o Ceará, que tem uma população de 9,175 milhões de habitantes (4,3% do total nacional), está com uma incidência de mortes elevada: 6,5%. Pernambuco e a Bahia, que também tiveram Carnaval animado, padecem da falta de cuidados preventivos à movimentação de turistas.

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