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CRÔNICA

 

                                     Pra quem a vida não mudou na pandemia?

                                               Janio Ferreira

Para o calendário, pois os dias seguem avançando sobre aquilo que chamamos tempo, enquanto o tic-tac das horas continua nos empurrando para um destino que tu não sabes e eu também não sei.

Para o Sol, que neste exato instante lança seus primeiros raios em mais uma manhã deste assustado abril, que doura coqueiros e reflete suas palhas nas paredes e lajotas salpicadas de insetos perecidos enquanto veneravam o lume da derradeira luz de suas vidas.

Para a velha barragem em minha frente, que há anos prende em seu concreto um silencioso São Francisco, coitado, desde sempre aguardando as enxurradas vindas de seus afluentes, rara ocasião em que suas águas são momentaneamente alforriadas e aí seguem soltas até encontrar um mar que elas só conhecem de ouvir falar.

Para os peixes que vivem nessas mesmas águas e, nem aí pra resguardos verticais, chapuletam suas caudas na espelhada superfície por onde boiam desprotegidas baronesas em mansos remansos horizontais.

Para os passarinhos, que, com seus cantos em variados timbres, seguem me tirando da cama antes das cinco e me levando pra mais uma semana regada a papos mandettas e performances sonoras caseiras, na sua maioria disputando com as antigas lives transmitidas das dependências do DOI-CODI pelo coronel Ustra e Seus Gorilas Amestrados, até hoje, diga-se, bastante acessadas e elogiadas por militares e simpatizantes do Capitão Cloroquina, que teima que aquela praga que nos assolou em março de 1964 foi só uma alergiazinha.

Para as lagartas de fogo, que acabam de chegar aos montes nas folhas de cajueiros e umbuzeiros e, em breve, sem precisar de nenhum gole de Red Bull, ganharão asas e sairão borboleteando por aí.

Para a Lua cheia, que sempre imperou sobre guerras, pandemias e namorados inspirando poetas e intrometidos a descrevê-la em versos e canções, que tanto podem transformá-la numa simples banda de maracujá quando ela vem saindo por trás de uma serra acolá, como numa nobre porcelana sobre a seda azul, como a definiu um velho e genial baiano ao invocar São Jorge numa madrugada de um distante 1979, nomeando-a sua eterna guia, além de mãe, irmã e filha de todo esplendor.

Para Elis, João Ubaldo, Walter Franco, Leminski, Drummond, Sérgio Sampaio, Raul, Lennon, Belchior, Cazuza e, principalmente, Vinicius e Tom, que, igualmente imunes à contaminação do vírus e dos vivos, não se cansam de cantar na minha vitrola que quando tudo isso terminar, hão de ser milhões de abraços apertados, colados e calados, tudo acompanhado de beijinhos e carinhos sem ter fim, que é pra acabar com esse negócio de você longe de mim.

P.S.: Se der, mantenha a tradição e tome um bom vinho com bacalhau. Depois, seguindo a atual tendência, lave bem as mãos e as panelas e deixe-as de prontidão na varanda.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

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