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Postado em 07-04-2020
Arquivado em (Artigos) por vitor em 07-04-2020 00:09

DIÁRIO DE NOTÍCIA (DE PORTUGAL)

Luiz Henrique Mandetta, cuja popularidade subiu a pique na última semana, foi salvo em cima do gongo pelos conselheiros militares do governo. Ele defende o isolamento social, ao contrário do presidente da República. Para o seu lugar foi equacionado Osmar Terra, para quem “os países que radicalizaram na quarentena tiveram aumento de casos”

Jair Bolsonaro queria demitir o ministro da saúde em plena pandemia do coronavírus. A popularidade de Luiz Henrique Mandetta, o rosto do governo federal do Brasil na luta contra o Covid-19 e um defensor acérrimo do isolamento social, ao contrário do presidente da República, tinha subido a pique nos últimos dias. Em reunião ministerial, a portas fechadas e sem direito a uso de telemóvel, ficou decidido que o ministro permanece no cargo, após pressão dos conselheiros militares do presidente e dos líder do Senado, Davio Alcolumbre.

“Faltou-lhe humildade”, “fala pelos cotovelos” e “não hesitarei em usar a caneta, ninguém é indemissível”, foram alguns dos comentários recentes de Bolsonaro a propósito do ministro. Em resposta, Mandetta, ortopedista de formação, foi afirmando, a propósito de uma eventual demissão, que “um médico não abandona o paciente”. “Ao presidente, com mandato popular, cabe falar, a mim cabe-me trabalhar”, disse também.

O substituto mais provável, caso Mandetta acabe por cair nos próximos dias, será Osmar Terra, que exerceu o cargo de ministro da Cidadania até fevereiro, quando foi alvo de uma remodelação governamental, e almoçou nesta segunda-feira com o presidente. Em artigo publicado nesta segunda-feira no jornal Folha de S. Paulo, Terra, que também é médico, explicou que, em sintonia com Bolsonaro, é contrário à tese do isolamento.

“Nos países europeus que radicalizaram na quarentena, em vez de diminuir, o número de casos aumentou muitas vezes e não houve achatamento da curva epidémica. Isso já é possível ver na aceleração de novos casos na quarentena do Brasil. Mas como a população está muito assustada, ela acredita que quanto maior o isolamento e a proibição, mais segura ela estará. Isso induz os gestores públicos a radicalizar medidas”, escreveu.

Os detratores de Terra chamam-lhe nas redes sociais “Osmar Trevas”, “Osmar Terra Plana” e “Osmar Terra Arrasada”.

Mandetta, entretanto, tem o apoio dos 27 governadores estaduais, todos favoráveis ao isolamento. E dos presidentes das duas casas legislativas, o Senado Federal e a Câmara dos Deputados, além do líder do Supremo Tribunal Federal. Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, afirmara mesmo na semana passada que “Bolsonaro não teria coragem de demitir Mandetta”. Uma opinião que se confirmou, por enquanto.

Sondagens realizadas na sexta-feira davam conta de grandes subidas na popularidade e na relevãncia digital do ainda ministro. O Ministério da Saúde viu o seu índice de aprovação saltar de 55% para 76%, na pesquisa feita de quarta a sexta-feira, por telefone, pelo Instituto Datafolha, Bolsonaro caiu dois pontos, dentro da margem de erro, para 33%, menos de metade do registo da pasta liderada por Mandetta.

Na reprovação, a Saúde viu o índice de avaliações negativas cair de 12% para 5%, enquanto o papel de Bolsonaro na crise foi criticado por 39% (número quase oito vezes superior à taxa do ministério) – eram 33% na pesquisa anterior, feita de 18 a 20 de março.

Levantamento da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas, por outro lado, identificou, em apenas uma semana, um crescimento de citações a Mandetta na rede de 2976%. Antes da pandemia, o ministro aparecia em menos de 20 mil citações mensais. Nos últimos 30 dias, o número saltou para 615 mil.

Com a pandemia, até Sergio Moro, da Justiça e Segurança Pública, e Paulo Guedes, da Economia, perderam espaço para o titular da Saúde. Moro, que sempre liderou o ranking entre ministros, teve 246,1 mil menções no Twitter – 60% a menos do que Mandetta. E, apesar das medidas económicas anunciadas, Guedes foi citado em 189,5 mil tweets – quase 70% a menos do que Mandetta.

O conflito nos últimos dias entre Bolsonaro e Mandetta vai tendo episódios uns atrás dos outros. Desde logo, quando a 24 de março o primeiro, sem ouvir o segundo, criticou a política de quarentena e estimulou o regresso ao trabalho.

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