Brigas? Corte essa!O tempo pede reflexão e harmonia.

Bom dia!

(Gilson Nogueira)

DO EL PAÍS

Por Filipe Matoso e Mateus Rodrigues, G1 — Brasília

Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, diz que fica no cargo

 

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou nesta segunda-feira (6), em entrevista coletiva no ministério, após reunião com o presidente Jair Bolsonaro e ministros no Palácio do Planalto, que permanecerá no cargo.

De acordo com o Blog do Camarotti, Bolsonaro havia decidido demitir o ministro, mas voltou atrás depois da reação de ministros do governo, dos presidentes de Senado e Câmara e de parlamentares.

O motivo que levou o presidente Jair Bolsonaro a cogitar a demissão de Mandetta foram as divergências públicas de ambos a respeito das estratégias para conter a velocidade do contágio pelo novo coronavírus. O presidente defende o que chama de “isolamento vertical”, ou seja, isolar somente idosos e pessoas com doenças graves, que estão no grupo de risco, a fim de não paralisar a economia. O ministro é a favor do isolamento amplo, adotado por governadores, pelo qual a recomendação é que as pessoas se mantenham em casa.

Segundo Mandetta, a reunião no Planalto serviu para demonstrar que agora o governo ‘se reposiciona’ em relação ao enfrentamento a novo coronavírus.

“A reunião foi muito produtiva. Foi uma reunião muito boa, acho que o governo se reposiciona de ter mais união, foco. Todos unidos em direção ao problema”, declarou.

 O ministro chegou a afirmar que ele e auxiliares já estavam “limpando as gavetas”.

“Tinha gente aqui dentro limpando gaveta, pegando as coisas. Minhas gavetas, vocês ajudaram a fazer a limpeza das minhas gavetas. Nós vamos continuar porque, continuando, a gente vai enfrentar o nosso inimigo. O nosso inimigo tem nome e sobrenome: é o covid-19”, afirmou. E voltou a repetir: “Médico não abandona paciente. Eu não vou abandonar”, declarou o ministro.

Na entrevista coletiva, Mandetta também afirmou que não tem receio de crítica, mas que as críticas devem ser “construtivas”, sem tentativa de criar “dificuldade no ambiente de tabalho”.

“Trabalhamos o tempo todo com transparência nos números, nas discussões e nas tomadas de decisão. Não temos receio de crítica. A crítica construtiva enobrece e nos faz rever e dar um passo à frente. Gostamos da crítica construtiva. O que temos diferente é quando, em determinadas situações ou determinadas impressões, as críticas não vêm no sentido de construir, mas para trazer dificuldade no ambiente de trabalho”, afirmou.

‘Paz’ e imprensa

Mandetta também disse esperar ter “paz” para continuar à frente do ministério. “Infelizmente, começamos com mais um solavanco a semana de trabalho. Esperamos que a gente possa ter paz para poder conduzir”, declarou.

Sem citar casos específicos, Mandetta disse ainda que a orientação no Ministério da Saúde é ter “foco”, independentemente de “barulhos” que surjam no momento.

“Esses barulhos que vêm ao lado: ‘Fulano falou isso, Beltrano falou aquilo’. Esquece isso. Isso está do lado. Apesar dos pesares, foco aqui. Foi o que disse para eles”, afirmou.

Em outro momento, destacou o papel da imprensa na cobertura e disse que todos estão dando “dose de sacrifício”.

“Agradeço à imprensa que cobra o Ministério da Saúde. Sabemos do momento que está passando o país. Sabemos da importância de permanecer, ajudar. Está todo mundo fazendo sua dose de sacrifício. Nós também daremos nosso sacrifício, nosso quinhão a mais de colaboração, até quando formos importantes, nominados ou até quando o presidente queira”, afirmou.

 

Servidores

Pouco antes de encerrar a fala, Mandetta se dirigiu aos servidores do ministério e afirmou que eles não devem parar o trabalho enquanto ele não determinar isso.

“Não é para parar enquanto eu não falar que é para parar. Quando eu deixar o ministério, vamos colaborar com quem entrar. Mas vamos sair juntos do Ministério da Saúde”, afirmou se dirigindo aos servidores que se encontravam na sala da entrevista.

Mandetta também se dirigiu aos servidores para dizer: “Vocês que saíram todos de suas salas, saíram para fazer choro, bater panela, voltem a trabalhar”.

Segundo o ministro, ele seguirá no cargo “com o máximo de esforço”. Ao afirmar que o dia foi “emocionalmente muito duro para todos” e que ele estava “um pouco mais apreensivo”, destacou que irá “tocar em frente como o velho boiadeiro tocando a boiada”.

Ao encerrar a entrevista, Mandetta disse que, se Bolsonaro quiser substituí-lo e à equipe atual do ministério, “que encontre as pessoas certas”.

“A gente está aqui para ajudar. Mesmo que venha outro, a gente está aqui para ajudar”, disse.

abr
07
O Ministério da Saúde planeja recomendar um relaxamento das medidas de isolamento social a partir de 13 de abril nos estados e municípios onde a capacidade de atendimento na saúde não estiver comprometida nesta data.

Num boletim epidemiológico publicado hoje, a pasta diz que, daqui a uma semana, caso o número de casos confirmados pelo novo coronavírus não tiver impactado em mais de 50% a capacidade instalada existente antes da pandemia, poderá haver uma transição nesses locais

Caso esse cenário se confirme, as unidades da federação poderão passar do que a pasta chama de “distanciamento social ampliado” (em que todas as pessoas são orientadas a permanecer em casa) para o “distanciamento social seletivo” (em que apenas idosos e pessoas com doenças crônicas ficariam nas suas residências, liberando a circulação do restante da população).

Em nenhum caso, por enquanto, o ministério prevê a necessidade de “bloqueio total”, o “lock down”, em que “todas as entradas do perímetro são bloqueadas por profissionais de
segurança e ninguém tem permissão de entrar ou sair do perímetro isolado”.

Hoje, na entrevista à imprensa, o secretário de Vigilância da Saúde, Wanderson Oliveira, afirmou que o governo “está fazendo de tudo” para que as medidas de isolamento já implementadas “sejam minimizadas ao máximo possível”.

“É um começo de flexibilização para uma transição gradual, de onde está implementado um distanciamento social ampliado, como São Paulo e Distrito Federal, migrar gradualmente e com segurança, para o distanciamento social seletivo”, disse.

As duas unidades da federação citadas, no entanto, ainda não compraram a ideia. Hoje, João Doria anunciou que a quarentena em São Paulo vai até o dia 22 de abril, com liberação apenas de serviços essenciais. No DF, Ibaneis Rocha decretou na semana passada que as medidas de restrição vão pelo menos até o dia 3 de maio.

abr
07

DIÁRIO DE NOTÍCIA (DE PORTUGAL)

Luiz Henrique Mandetta, cuja popularidade subiu a pique na última semana, foi salvo em cima do gongo pelos conselheiros militares do governo. Ele defende o isolamento social, ao contrário do presidente da República. Para o seu lugar foi equacionado Osmar Terra, para quem “os países que radicalizaram na quarentena tiveram aumento de casos”

Jair Bolsonaro queria demitir o ministro da saúde em plena pandemia do coronavírus. A popularidade de Luiz Henrique Mandetta, o rosto do governo federal do Brasil na luta contra o Covid-19 e um defensor acérrimo do isolamento social, ao contrário do presidente da República, tinha subido a pique nos últimos dias. Em reunião ministerial, a portas fechadas e sem direito a uso de telemóvel, ficou decidido que o ministro permanece no cargo, após pressão dos conselheiros militares do presidente e dos líder do Senado, Davio Alcolumbre.

“Faltou-lhe humildade”, “fala pelos cotovelos” e “não hesitarei em usar a caneta, ninguém é indemissível”, foram alguns dos comentários recentes de Bolsonaro a propósito do ministro. Em resposta, Mandetta, ortopedista de formação, foi afirmando, a propósito de uma eventual demissão, que “um médico não abandona o paciente”. “Ao presidente, com mandato popular, cabe falar, a mim cabe-me trabalhar”, disse também.

O substituto mais provável, caso Mandetta acabe por cair nos próximos dias, será Osmar Terra, que exerceu o cargo de ministro da Cidadania até fevereiro, quando foi alvo de uma remodelação governamental, e almoçou nesta segunda-feira com o presidente. Em artigo publicado nesta segunda-feira no jornal Folha de S. Paulo, Terra, que também é médico, explicou que, em sintonia com Bolsonaro, é contrário à tese do isolamento.

“Nos países europeus que radicalizaram na quarentena, em vez de diminuir, o número de casos aumentou muitas vezes e não houve achatamento da curva epidémica. Isso já é possível ver na aceleração de novos casos na quarentena do Brasil. Mas como a população está muito assustada, ela acredita que quanto maior o isolamento e a proibição, mais segura ela estará. Isso induz os gestores públicos a radicalizar medidas”, escreveu.

Os detratores de Terra chamam-lhe nas redes sociais “Osmar Trevas”, “Osmar Terra Plana” e “Osmar Terra Arrasada”.

Mandetta, entretanto, tem o apoio dos 27 governadores estaduais, todos favoráveis ao isolamento. E dos presidentes das duas casas legislativas, o Senado Federal e a Câmara dos Deputados, além do líder do Supremo Tribunal Federal. Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, afirmara mesmo na semana passada que “Bolsonaro não teria coragem de demitir Mandetta”. Uma opinião que se confirmou, por enquanto.

Sondagens realizadas na sexta-feira davam conta de grandes subidas na popularidade e na relevãncia digital do ainda ministro. O Ministério da Saúde viu o seu índice de aprovação saltar de 55% para 76%, na pesquisa feita de quarta a sexta-feira, por telefone, pelo Instituto Datafolha, Bolsonaro caiu dois pontos, dentro da margem de erro, para 33%, menos de metade do registo da pasta liderada por Mandetta.

Na reprovação, a Saúde viu o índice de avaliações negativas cair de 12% para 5%, enquanto o papel de Bolsonaro na crise foi criticado por 39% (número quase oito vezes superior à taxa do ministério) – eram 33% na pesquisa anterior, feita de 18 a 20 de março.

Levantamento da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas, por outro lado, identificou, em apenas uma semana, um crescimento de citações a Mandetta na rede de 2976%. Antes da pandemia, o ministro aparecia em menos de 20 mil citações mensais. Nos últimos 30 dias, o número saltou para 615 mil.

Com a pandemia, até Sergio Moro, da Justiça e Segurança Pública, e Paulo Guedes, da Economia, perderam espaço para o titular da Saúde. Moro, que sempre liderou o ranking entre ministros, teve 246,1 mil menções no Twitter – 60% a menos do que Mandetta. E, apesar das medidas económicas anunciadas, Guedes foi citado em 189,5 mil tweets – quase 70% a menos do que Mandetta.

O conflito nos últimos dias entre Bolsonaro e Mandetta vai tendo episódios uns atrás dos outros. Desde logo, quando a 24 de março o primeiro, sem ouvir o segundo, criticou a política de quarentena e estimulou o regresso ao trabalho.

abr
07
Posted on 07-04-2020
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Jornal do Brasil

 

Os Estados Unidos (EUA) registraram nesse domingo (5) mais de 1.200 mortes em 24 horas causadas pela covid-19, de acordo com a contagem da Universidade Johns Hopkins.

O número total de morte, desde o início da pandemia nos Estados Unidos, é agora de mais de 9 mil e o de infectados, de cerca de 337mil.

Segundo a Universidade Johns Hopkins, mais de 17 mil pessoas já se recuperaram da doença no país.

“Estamos aprendendo muito sobre o inimigo invisível. É duro e inteligente, mas somos mais duros e inteligentes!”, escreveu o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na rede social Twitter.

O novo coronavírus, responsável pela pandemia de covid-19, já infectou mais de 1,2 milhão de pessoas em todo o mundo, das quais morreram mais de 68 mil.

Dos casos de infecção, mais de 283 mil são considerados curados.

Depois de surgir na China, em dezembro, o surto espalhou-se por todo o mundo, o que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar situação de pandemia. (Agência Brasil)

abr
07
Posted on 07-04-2020
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 Sinfrônio, no

 

abr
07
Posted on 07-04-2020
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O coronavírus ataca impiedosamente os bairros operários da cidade, epicentro desta e de tantas crises. O confinamento apaga a identidade deste pedaço adorado dos EUA e expõe a brecha social

Diego Martínez-Téllez vai para sua casa, em Astoria (Queens, Nova York), na quinta-feira, ao fim de seu dia de trabalho.
Diego Martínez-Téllez vai para sua casa, em Astoria (Queens, Nova York), na quinta-feira, ao fim de seu dia de trabalho.EDUARDO MUÑOZ (EL PAIS)

As ruas do Soho são como o cenário de uma série de televisão que já terminou, tão bonitas e vazias que parecem irreais. Wall Street, um sepulcro. Nova York não se cala nem debaixo d’água, nem da neve, nem mesmo açoitada por um bom ciclone, porque sempre há um louco para desafiá-lo, ou um bar que serve drinques em seu nome; ou porque o próprio fenômeno retumba entre os edifícios, reivindicando seu lugar. É mais fácil descrever um ruído do que o silêncio, principalmente em um lugar que lhe é tão alheio. Quem imagina ouvir os próprios passos às quatro da tarde na Times Square; que outro pedestre lhe dê boa tarde, como se você se deparasse com ele passeando pela montanha, ou pelo vilarejo? Como explicar que dê tanto medo andar pelo West Village à noite, sem nenhum lugar aberto, com toda aquela gente bonita desaparecida, os neons apagados e o som da respiração através da máscara como única companhia? Quem pensa na Broadway sem teatro, na Quinta Avenida sem compras, em Manhattan sem turistas?

“Nunca imaginei Nova York assim, nunca; cheguei na crise de 2008, quando pessoas perderam a casa e o emprego, mas nunca vi isto. Aqui tudo é correria, tudo é barulho, e agora dá muita tristeza; também assusta, sair sem gente assusta, porque quando há muita gente, alguém sempre pode te ajudar”, explica Diego Martín-Téllez, um mexicano de 31 anos encarregado de um dos poucos lugares para almoçar ou tomar café que permanecem abertos, perto da entrada sul do Central Park.

Ele, no entanto, continua correndo. Acorda às três da madrugada para pegar o metrô em Astoria, um dos bairros mais conhecidos do distrito de Queens, e ter o restaurante funcionando por volta das 5h30. Quando o confinamento começou, de um dia para outro, oito funcionários foram demitidos e ficaram apenas Diego e outro garoto. É mais que suficiente. Os hotéis ainda abertos na área, vários quatro estrelas de preços astronômicos, oferecem agora quartos por menos da metade do preço, mas poucos dormem neles além das equipes de enfermeiros que chegaram que todos os lugares.

A pandemia causada pelo coronavírus está atacando impiedosamente a cidade, epicentro de tantas coisas nos Estados Unidos, e também deste vírus terrível. O paciente zero de Nova York foi detectado em 1º de março e na sexta-feira já havia mais de 1.800 mortes e 57.159 contágios confirmados na cidade, quase o dobro da semana passada, um de cada quatro em todo o país. As tragédias fazem parte do DNA da cidade mais populosa dos EUA. Foi incendiada duas vezes durante a Revolução, foi atacada duramente na Guerra Civil e foi o berço da Grande Depressão; também foi vítima do 11 de Setembro e de um grande número de desastres naturais. Mas esta tragédia atacou particularmente sua identidade: o barulho, a multidão, as aglomerações, um estilo de vida exótico para boa parte dos americanos e um caldo de cultivo ideal para os contágios.

O metrô, adorado como um fetiche por artistas e viajantes do mundo inteiro, também perdeu seu espírito. Em uma cidade tão brutalmente desigual como Nova York, é o único lugar onde as fronteiras sociais desaparecem, onde viajam tanto os que comandam os escritórios quanto aqueles que os limpam. Ao sair para a superfície, cada um vai para seu setor da vida, o de negociar fusões e aquisições, o de ensinar idiomas ou o de lavar pratos, mas ali embaixo todos convivem com os mesmos atrasos e a mesma sujeira.

O Soho de Nova York, quase deserto, na sexta-feira.
O Soho de Nova York, quase deserto, na sexta-feira.

Agora não é assim. Os vagões ficaram sem os turistas e os profissionais encerrados no teletrabalho. Por isso, praticamente só é usado pelos sem-teto e pelos trabalhadores como Diego, que às 19h de quinta-feira, entra em um vagão de volta para Astoria, coberto com um lenço como se fosse um foragido de filme de faroeste.

Os dados de infecções por distrito, divulgados quarta-feira pelo Departamento de Saúde da cidade, mostram como o vírus está atingido com maior dureza as áreas mais humildes. Nesse dia, havia 616 casos confirmados para cada 100.000 habitantes no Queens e 584 no Bronx, em comparação com 376 em Manhattan. E dentro do Queens há dois códigos postais malditos, o 11.368, que cobre uma área chamada Corona ?sim, ela tem esse nome?, e o 11.370, East Elmhurst, com menor número absoluto, mas maior incidência (12 de cada 1.000 moradores). A renda média anual dessas famílias é de 48.000 dólares (pouco menos de 257.000 reais), enquanto a renda média na cidade como um todo é de 60.000 dólares (321.000 reais), segundo os dados do censo.

Vários fatores podem pesar na diferente incidência, como o número de testes realizados, mas a doutora Jessica Justman, epidemiologista e especialista em doenças infecciosas do centro ICAP em Columbia, destaca o fator sociológico. “Faz sentido que as áreas de classe trabalhadora sofram maior exposição ao vírus, seus postos de trabalho em serviços essenciais, estabelecimentos comerciais etc. não fecharam, algo que ocorre também com o pessoal de saúde, e essas pessoas se movem mais e costumam compartilhar moradias com mais frequência”, aponta.

Neste marco zero do Queens fica o hospital Elmhurst, o mais afetado pela pandemia, que o presidente Donald Trump citou há uma semana para explicar por que mudou de opinião a passou a considerar necessário prolongar o confinamento. “Vi coisas que não tinha visto nunca, há corpos em sacos por toda parte, nos corredores, [os profissionais de saúde] os colocam em caminhões frigoríficos porque não conseguem lidar com tantos cadáveres. E está acontecendo no Queens, na minha comunidade”, disse Trump na Casa Branca.

À uma da tarde de quinta-feira, a enfermeira Cynthia Scott, que veio de Minneapolis para ajudar, descreve um quadro tenebroso. Sentada à porta do hospital durante o intervalo para o almoço, conta que a infraestrutura do centro “é tão precária que complica ainda mais a tarefa, não há respiradores suficientes, estão começando a ser tomadas decisões sobre quais pacientes temos que deixar partir”.

Jovens tiram foto perto do hospital de campanha erguido no Central Park, em Nova York.
Jovens tiram foto perto do hospital de campanha erguido no Central Park, em Nova York.

Um imponente navio-hospital do Exército atracou na cidade, foram erguidos hospitais de campanha no recinto de feiras Javits, no complexo de tênis Billie Jean e até no Central Park. E 45 necrotérios móveis. Mas faltam materiais. Na terça-feira, o governador do Estado, Andrew Cuomo, alertou que, com aquele ritmo de internações, só havia respiradores para seis dias. Uma das imagens mais representativas desta crise foi vista na semana passada, quando Bill de Blasio, o prefeito da cidade imperial, com tantos centros de pesquisa médica de ponta, foi recolher pessoalmente 250.000 máscaras doadas à sede das Nações Unidas.

Jaqueline Morelo, atendente de uma loja de artigos ortopédicos e outros produtos paramédicos em frente ao Elmhurst, acompanha há semanas o agravamento desta crise. “Em janeiro, vendíamos uma caixa com 50 máscaras cirúrgicas por 30 dólares (160 reais); agora, cada máscara custa três dólares, mas foi o próprio fornecedor que aumentou o preço”, diz a jovem de 22 anos.

Os pais de Jaqueline acabam de perder o emprego ao mesmo tempo. O restaurante onde ele trabalhava fechou as portas, assim como a lavanderia em que ela trabalhava. Esse é um problema para Anna Soles, que andava quarta-feira pelo bairro, sem máscara nem luvas, procurando algum lugar para lavar a roupa, pois a maior parte das residências não tem máquina de lavar. Andava com o carrinho de sua bebê de sete meses, coberta com uma capa plástica para chuva, apesar do sol radiante. “Eu a protejo como posso, porque não posso nem mesmo deixá-la em casa, vivo sozinha”, explica a jovem de 25 anos.

Ela também perdeu seu emprego de supervisora de refeições para eventos e aguarda os cheques de ajuda que o Governo federal vai enviar para poder pagar o aluguel. Quase 10 milhões de americanos pediram auxílio-desemprego em apenas duas semanas. “Mas o aluguel terá de esperar, porque agora preciso escolher entre comer ou pagar o aluguel”, acrescenta Soles.

Quando é preciso fazer uma escolha dessas, outros dilemas desaparecem na hora, como o de sair ou não sair de casa.

Vista geral da área de Wall Street na sexta-feira, quase deserta.
Vista geral da área de Wall Street na sexta-feira, quase deserta.

O movimento de trabalhadores, ou de pessoas como Anna, o som das escavadoras, que não para, mantêm parte da agitação habitual. O oposto do silêncio de Wall Street, só alterado de vez em quando pelo som longínquo das ambulâncias. Sam Stovall, diretor de investimento da empresa CFRA, fez as malas há duas semanas e foi para a Pensilvânia, de onde acompanha o movimento do mercado de ações. Stovall percebeu que algo ruim iria acontecer quando, em fevereiro, apesar de todos os recordes da Bolsa, as ações que mais começaram a subir foram as de empresas de consumo e serviços básicos, as ações “defensivas”.

Desde o surto, os mercados financeiros têm vivido alguns dos piores dias desde a Grande Depressão, mas, diferentemente do que ocorreu naquela ocasião, não há notícia de suicídio de nenhum banqueiro em Nova York, embora um deles, Peg Broadbent, tenha morrido de Covid-19 aos 56 anos, e outro, Peter Tuchman, toda uma instituição na Bolsa, tenha testado positivo. A Bolsa contratou seu próprio serviço médico para examinar os corretores, mas acabou fechando o edifício em 23 de março, o que esvaziou o bairro.

Em alguns lugares, é como se a cidade tivesse sido fechada para ser visitada apenas por pequenos grupos. Foi o que ocorreu quarta-feira à tarde no Bryant Park, o encantador parque localizado entre a Times Square e a Biblioteca Pública de Nova York, onde apenas indigentes se sentam diante de suas mesas. Rodeados deles, dois garotos esbeltos se destacam jogando pingue-pongue de mangas curtas, como se fossem aqueles jovens jogando travesseiros no final do filme Zero de Conduta (1933), em uma rebelião inconsciente contra a autoridade.

Ao entardecer, quando acabam as jornadas de teletrabalho, a vida explode em diferentes pontos da cidade, até mesmo surtos de dolce vita. Como o rio de gente que pratica esportes no começo da Ponte do Brooklyn, o tráfego no sul da ilha e os corredores e passeadores de cães e de crianças ao lado do hospital de campanha erguido no Central Park, em frente ao famoso centro hospitalar Mount Sinai, no Upper East Side, uma das áreas mais seletas de Manhattan. David Allen, um fotógrafo aposentado que vive com sua esposa jornalista no bairro, sai várias vezes ao dia com Marley, uma pastor alemão de quatro anos. “Não uso máscara nem luvas, mas tomo cuidado, não toco em nada nem em ninguém, tento não me contagiar, se isso ocorrer, espero me curar, se não, será porque o destino quis assim, tive uma boa vida”, explica.

David Allen tem seguro de saúde, enquanto Diego é um dos 27 milhões de cidadãos que não têm, e não pisa em um consultório há nove anos, desde que um dentista lhe cobrou 2.000 dólares (quase 11.000 reais) para tratar algumas cáries. O plano de estímulo aprovado pelo Congresso inclui uma ajuda para cobrir o tratamento de quem precisar.

O vírus não faz distinção entre classes sociais, mas tudo que ocorre antes e depois dele, sim. E poucos lugares como Nova York encarnam com tanta crueldade o Conto de Duas Cidades, de Dickens. A imprensa local publicou dias atrás que muitos sem-teto passam os dias de confinamento viajando sem rumo no metrô, mas o presidente da Autoridade do Transporte Metropolitano, Pat Foye, esclareceu que não há mais do que antes, eles simplesmente são mais notados porque os vagões andam mais vazios.

Anna Soles na entrada de sua residência, perto do hospital Elmhurst, no Queens, na sexta-feira.
Anna Soles na entrada de sua residência, perto do hospital Elmhurst, no Queens, na sexta-feira.

“Nova York sempre foi competitiva, chame-a de brutal, se quiser”, responde por telefone o veterano historiador Kenneth T. Jackson, professor da Universidade de Columbia especializado nesta metrópole. “Mas é a cidade que todo mundo deseja, e não acredito que isso vá mudar nos próximos 50 anos”, acrescenta. “Minha previsão é que vai sair desta muito bem, como fez em outras ocasiões.” Como muitos outros nova-iorquinos com segunda residência, Jackson deixou seu apartamento de Manhattan para passar estes dias fora.

Morte e ressurreição são quase o logotipo desta parte dos EUA.

Diego Martín-Téllez diz algo parecido, de teor mais darwinista: “Eu me adapto muito bem às coisas, e esta cidade é assim, isso é de vir para trabalhar. Acho que nós, os mexicanos, ou os hispânicos em geral, nos adaptamos”

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