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DO EL PAÍS

Protesto em Curitiba e outras cidades do Estado defendem normalização do comércio. Governos de Santa Catarina, Mato Grosso e Rondônia afrouxam medidas restritivas

Carreata se concentra em frente ao Palácio Iguaçu, sede do governo do Paraná.
Carreata se concentra em frente ao Palácio Iguaçu, sede do governo do Paraná.Renato Gasparin Jr./Direita Paraná

Quando o Paraná estava prestes a completar uma semana da quarentena imposta pelo Governo local por conta da pandemia de coronvavírus, grupos de direita puxaram, nesta sexta-feira, carreatas em protesto pela reabertura do comércio. Movimentos como o Acampamento Lava Jato e o Direita Paraná protestaram em vários pontos da capital Curitiba e de outras cidades espalhadas pelo Estado. A principal reivindicação dos organizadores e manifestantes é a volta ao trabalho e a normalização das atividades econômicas, alinhada ao discurso do presidente Jair Bolsonaro, que em pronunciamento na última quarta-feira (25) criticou as medidas de isolamento dos Estados.

Os atos contrariam as estratégias do Governo do Paraná e da prefeitura de Curitiba para enfrentar a pandemia. O governador Carlos Massa Ratinho Júnior (PSD) determinou o fechamento de shoppings e galerias na quinta-feira passada, dia 19, e, na sequência, instruiu que funcionassem apenas os serviços essenciais a partir do sábado, dia 21. Carros do Corpo de Bombeiros circulam pela cidade desde então pedindo que as pessoas fiquem em suas casas. O Governo local também realizou uma campanha, veiculada na televisão e nas redes sociais. O prefeito Rafael Greca (DEM) segue o mesmo direcionamento, e a capital está em situação de emergência de saúde pública desde o dia 16 de março. O Paraná tem 125 casos confirmados, 1.078 em investigação e dois óbitos, em Maringá.

O movimento no Paraná é mais uma mostra de que Bolsonaro conseguiu insuflar sua base para rebelar-se contra as medidas restritivas. Outras carreatas estão sendo convocadas para o fim de semana em várias capitais enquanto os Governos de Santa Catarina, Mato Grosso e Rondônia já foram além: optaram nesta semana por afrouxar o isolamento social. As decisões causam conflitos nos Estados, porque nem todas as prefeituras concordam com as decisões dos governadores. O prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro (MDB), por exemplo, disse que o isolamento na capital do Mato Grosso não será relaxado. Em Santa Catarina, a retomada de obras públicas de infraestrutura e a determinação de reabrir gradualmente o comércio foram determinadas após manifestação de 50 entidades empresariais catarinenses, que cobraram a retomada da atividade econômica no Estado.

Percurso em Curitiba

O bunizaço por bairros como Água Verde, Centro Cívico e Bigorrilho, na capital paranaense, começou por volta das 11h da manhã e seguiu até o meio da tarde. Representante do Direita Paraná em Curitiba, Renato Gasparin Jr. conta que se surpreendeu com a adesão, pelo fato de a divulgação do ato ter começado apenas no dia anterior. De acordo com ele, cerca de 500 carros saíram de frente do estádio do clube Atlético Paranaense até o Palácio Iguaçu, sede do governo estadual. “Foi um sucesso”, celebrou.

Microempresários, empreendedores, motoristas de aplicativos e entregadores de aplicativo, comerciantes e autônomos formaram, segundo Gasparin, o grupo que saiu em carreata. Eram manifestantes com idades entre 30 e 50 anos, de acordo com os organizadores. “Sabemos que a faixa etária das pessoas de direita e conservadoras é de mais de 60 anos. Mas enfatizamos em nossas redes para que esse pessoal fique em casa, queremos que o grupo de risco continue se cuidando”. Em vídeos divulgados no Twitter, porém, é possível ver que idosos também se manifestaram nos carros, bem como famílias com crianças. No Paraná, segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde e do IBGE, a cada 10 paranaenses, 1,5 tem mais de 60 anos.

A carreata saiu pela manhã do bairro Água Verde, em Curitiba, e o buzinaço seguiu até o meio da tarde.
A carreata saiu pela manhã do bairro Água Verde, em Curitiba, e o buzinaço seguiu até o meio da tarde.Renato Gasparin Jr./Direita Paraná (custom credit)

Segundo Gasparin Jr., o Direita Paraná não é a favor de tirar as pessoas consideradas mais vulneráveis (acima dos 50 anos ou com comorbidades como diabetes, hipertensão e doenças crônicas) do isolamento, mas chamar a atenção para setores que perderam a renda na última semana. “Enquanto você adere a uma quarentena imposta por Governo e Prefeitura, os meios básicos continuam. O cobrador e o motorista do ônibus vão trabalhar. É fácil falar em ficar em casa quando [você] tem o seu mantimento, o seu estoque cheio. Mas e o povo?”, questiona ele, que é técnico de climatização, contratado formalmente. “O Uber já não tem passageiros. E os caminhoneiros, os frentistas de posto? Não podemos abandonar o serviço assim. Nossa economia está quebrando, e isso, junto com o vírus, aí sim será uma histeria”.

Proprietário de um restaurante (e também pré-candidato a vereador nas eleições municipais em Curitiba), Luiz Carlos Alborghetti Neto participou da carreata no fim da manhã e define o cenário econômico como “caótico”. Ele propõe medidas que chama de “intercaladas”para retomar o comércio, como modificação de horários dos estabelecimentos (com redução no número de horas aberto ao público), escalas para evitar aglomerações no transporte público e, por enquanto, fechamento dos bares e casas noturnas. Segundo ele, seu restaurante, no bairro Rebouças, perdeu 80% das vendas. “Estamos operando em delivery para pagar os funcionários. Conversei com muitas pessoas na carreata que estão desesperadas porque souberam de demissões”.

Outras cidades

Maringá, no Noroeste do Estado, foi a primeira cidade a ter carreatas, nesta quinta-feira. O Direita Paraná também realizou atos em Paranaguá, no litoral, Londrina, norte do estado, e em cidades da Região Metropolitana de Curitiba, como São José dos Pinhais. Uma das integrantes do protesto na cidade, a engenheira de produção Vanusa Mulek de Souza, cita o exemplo do pai para exemplificar a situação de trabalhadores autônomos. “Ele é motorista de caminhão e recebe por viagem. A empresa parou e ele não tem de onde tirar renda”.

Vanusa acredita que o isolamento vertical ?no qual apenas pessoas com mais de 60 anos ou com comorbidades são afetadas? é o ideal. “Estamos vendo a experiência de Israel e da Coreia do Sul, que fizeram isolamento vertical e têm apresentado reduções nos índices de óbito”, argumenta. Esses países, porém, tiveram a capacidade de realizar testes em massa para a Covid-19, separar e tratar os doentes. Além disso, o isolamento vertical é considerado insuficiente neste momento, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

“Oportunistas e irresponsáveis”

Procurado, um dos representantes do Acampamento Lava Jato, Éder Borges, não quis conversar sobre os atos de Curitiba. Em vídeo enviado por WhatsApp para a reportagem, o movimento fala que houve adesão de 5.000 carros no ato do começo da tarde. Outros tradicionais grupos de Direita e pró Lava Jato, como o Curitiba contra a Corrupção, não chamaram manifestações. Uma das ativistas, Narli Resende, declarou que “como cidadã que vem acompanhando a situação da pandemia, estou revoltada com essas pessoas oportunistas e irresponsáveis que se aproveitam da fragilidade emocional das pessoas para propor ações contrárias a tudo o que vem sendo preconizado por médicos e cientistas”.

As assessorias de imprensa da Prefeitura de Curitiba e do Governo do Paraná informaram que nada muda nas determinações, e que o Estado e a cidade continuam em quarentena. E orientam que, todos que puderem, fiquem em suas casas o máximo possível.

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