Pacote norte-americano, o maior da história, equivale a 9% do PIB e inclui gigantesca transferência de renda. O do Brasil ainda está em formulação. País tem SUS, mas não infraestrutura e capacidade de investimento dos EUA

Reunião de Jair Bolsonaro e Donalda Trump nos Estados Unidos.
Reunião de Jair Bolsonaro e Donalda Trump nos Estados Unidos.A. Wong (Getty)

Diante da escalada da pandemia de coronavírus, Jair Bolsonaro insiste em se espelhar no discurso do presidente americano Donald Trump de minimizar a disseminação da doença e defender o fim do isolamento social para salvar a economia, batendo na tecla de que “a cura não pode ser maior do que o problema”. Seguindo de certo modo os passos do colega, o mandatário brasileiro decidiu se pronunciar em rede nacional para criticar o fechamento do comércio e escolas, culpar a imprensa pelo que classifica de clima de “histeria” e pedir que a população volte à normalidade para que os empregos sejam mantidos, assim como o sustento das famílias. Mais uma vez, a fala de Bolsonaro deixou entidades internacionais preocupadas com o Brasil, que já possui 2.433 infectados e 57 mortos pela Covid-19.

Ao seguir a cartilha de Trump, que também chegou a pregar medidas contrárias às recomendações da Organização Mundial da Saúde e por vezes também minimiza o problema, Bolsonaro tenta imitar, no entanto, um país com uma realidade completamente diferente. A começar pelo tamanho da economia, a maior do mundo, capaz de ampliar com mais velocidade as ações de saúde e preservar a renda da população. Nesta quarta-feira, os EUA acertou um pacote inédito de 2 trilhões de dólares para o combate da doença e dos efeitos econômicos do coronavírus. O total representa 9,5% do PIB americano e inclui uma massiva medida de transferência de renda para todas as famílias de baixa renda no valor de 1.200 dólares mensais (cerca de 6.000 reais). Os recursos para os hospitais chegam a 130 bilhões de dólares (cerca de 650 bilhões de reais). Segundo levantamento do Observatório de Política Fiscal do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), feito pelo economista Manoel Pires, as medidas anunciadas no Brasil estão muito aquém do que foi anunciado pelos EUA e de vários outros países.

Iniciativas anunciadas até o momento pelo Governo brasileiro —como antecipação do 13º salário de pensionistas e aposentados do INSS—, redução temporária de impostos para empresas, ampliação do programa Bolsa Família, novos recursos para o Ministério da Saúde e transferências para Estados e municípios (8 bilhões de reais) somam cerca de 4% do PIB do país.

Para além dos estímulos atuais de combate à doença, os dois países também têm históricos de investimento em saúde nada parecidos. O levantamento Panorama da Saúde da OCDE mostrou que o Brasil gastou com saúde 1.282 dólares per capita em 2018, somando os recursos públicos e privados. O valor coloca o Brasil em 37º lugar na lista da OCDE, que inclui 6 países além dos 38 membros da organização. Nos Estados Unidos, o total de gastos com saúde por habitante ultrapassou 10.000 dólares, sendo que a maior parte desse valor se refere a despesas públicas —ainda que, à diferença do Brasil ou do Reino Unido, o país de Trump não tenha um sistema de saúde público.

“Os EUA têm mais chances de se recuperar e achatar a curva da doença porque tem uma infraestrutura mais sofisticada em todo o país. No interior do Brasil, você tem muitas cidades com números baixos de leitos de UTI e no país há uma dificuldade maior de implementar o distanciamento social em favelas”, explica o professor de relações internacionais Oliver Stunkel. Problemas históricos como falta de acesso à água, alta concentração de casas de poucos cômodos e ausência de ventilação tornam as favelas em locais que precisam de ações específicas na prevenção ao coronavírus. “O Brasil tem uma estrutura já muito sobrecarregada em tempos de poucos investimentos na área, o sistema de saúde do Rio de Janeiro já estava em colapso antes do coronavírus”, completa.

O desafio de Trump hoje é maior do que o de Bolsonaro, mas pode ser que, no futuro, a situação se inverta, caso o coronavírus seja enfrentado apenas como uma “gripezinha”. O presidente norte-americano lida hoje com mais de 60.000 infectados e 827 mortes no país, que atualmente é o terceiro maior número de casos confirmados, atrás apenas da China e da Itália. A OMS já vê potencial para que os EUA se torne o novo epicentro de coronavírus. No dia 13 de março, o país liderado por Trump tinha 2.179 infectados e 47 mortos, quase o mesmo número que o Brasil na terça: 2.201 brasileiros infectados e 46 mortes. A limitação na realização de testes para confirmar os casos de coronavírus no Brasil dificulta, no entanto, a avaliação do quadro real da evolução da doença no país.

Na avaliação de Stunkel, o alinhamento dos dois presidentes, que indicam pressa para relaxar as regras de isolamento antes mesmos do pico da doença em ambos países, é mais uma briga que Trump e Bolsonaro compraram com uma uma estratégia padrão de suas políticas de antagonismo com o mundo. “Buscar algum confronto para viabilizar a retórica, pois o modelo de governança depende de um inimigo. Esse trabalho de culpar a China, depois governadores e prefeitos e também ir contra os especialistas e técnicos de saúde é necessário para esse modelo de governança. Nunca buscam uma união, mas uma tensão”, afirma o professor, que ressalta que Bolsonaro sai bastante enfraquecido politicamente ao seguir a postura do americano e desprezar os alertas das autoridades de saúde.

Contrariando o presidente, governadores reiteraram em reunião com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, nesta quarta-feira, os procedimentos de isolamento adotados para conter a pandemia do novo coronavírus.

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