mar
22
Posted on 22-03-2020
Filed Under (Artigos) by vitor on 22-03-2020

DO EL PAÍS

O coronavírus será uma pandemia passageira. O que não passará é o medo da morte, que nos acompanha como uma sombra

Mulher caminha diante de grafite com mensagens religiosas que pedem proteção em diversas línguas, em Pamplona, na Espanha.
Mulher caminha diante de grafite com mensagens religiosas que pedem proteção em diversas línguas, em Pamplona, na Espanha.Alvaro Barrientos / AP (AP)
 

O coronavírus começa a causar estragos na Espanha. Ou, melhor dizendo, o espanto causado por esse vírus proveniente da China ocupa todos os noticiários e rádios e jornais, escolas e universidades, bibliotecas e teatros foram fechados, as Fallas de Valência foram paralisadas, as sessões plenárias das Cortes foram suspensas, os eventos esportivos serão realizados sem público, apesar de os distribuidores dizerem que haverá reposição as prateleiras dos supermercados são vistas semivazias, o que indica que as pessoas carregam produtos de primeira necessidade para o que entendem que será um longo isolamento, e, claro, nas conversas privadas não se fala de outra coisa.

Tudo isso, em termos práticos, é muito exagerado, mas não há nada a fazer: a Espanha tem medo, e os Governos, o nacional e os regionais, fazem frente à pavorosa doença com medidas cada vez mais rigorosas, que, de uma maneira geral, os espanhóis aprovam e, inclusive, exigem que sejam mais extensas e intensas. Estatísticas oficiais dizem que até o dia de hoje, 18 de março, há 309 mortes por culpa da pandemia e que é por gosto que, por exemplo, a simples gripe seja mais assassina que ela porque causa pelo menos 600 mortes anuais, e que são muitos mais os que se recuperam do coronavírus que os que perecem por culpa dele, que a Espanha tem um dos melhores sistemas de saúde do mundo —acima da média europeia— e que o trabalho que os médicos e profissionais sanitários vêm realizado em todo o país é eficiente e está à altura do desafio etc.

Jamais as estatísticas foram capazes de tranquilizar uma sociedade corroída pelo pânico, e esta é uma boa ocasião para comprovar isso. Em meio à civilização reapareceu a Idade Média, o que significa que muitas coisas mudaram desde então, mas muitas outras, não. Por exemplo: o medo da peste. E, a propósito, a literatura tem um renascer inevitável nestes períodos de medo coletivo: quando não entende o que acontece, uma sociedade vai aos livros para ver se eles o explicam. O pior romance de Albert Camus, A peste, tem um súbito renascimento e tanto na França como na Espanha são feitas reedições, e esse livro medíocre se transformou em um best-seller.

Ninguém parece notar que nada disso poderia estar ocorrendo no mundo se a China Popular fosse um país livre e democrático, e não a ditadura que é. Pelo menos um médico prestigioso, e talvez fossem vários, detectou esse vírus com muita antecipação e, em vez de tomar medidas correspondentes, o Governo tentou ocultar a notícia, silenciou essa voz ou essas vozes sensatas e tratou de impedir que a notícia se difundisse, como fazem todas as ditaduras. Assim, como em Chernobyl, perdeu-se muito tempo para encontrar uma vacina. Só se reconheceu a aparição da praga quando esta já se expandia. É bom que ocorra isto agora e o mundo saiba de que o verdadeiro progresso está mutilado sempre que não está acompanhado de liberdade. Entenderão isso de uma vez esses insensatos que acreditam que o exemplo da China, ou seja, o mercado livre com uma ditadura política, é um bom modelo para o Terceiro Mundo? Não existe tal coisa: o ocorrido com o coronavírus deveria abrir os olhos dos cegos.

A peste foi ao longo da história um dos piores pesadelos da humanidade. Sobretudo na Idade Média. Era o que desesperava e enlouquecia os nossos velhos ancestrais. Encerrados por trás das robustas muralhas que tinham erigido para suas cidades, defendidos por fossos cheios de águas envenenadas e pontes levadiças, não temiam tanto esses inimigos tangíveis contra os quais podiam se defender de igual para igual, enfrentá-los com espadas, facas e lanças. Mas a peste não era humana, era obra dos demônios, um castigo de Deus que recaía sobre a massa cidadã e golpeava por igual pecadores e inocentes, contra a qual não havia nada a fazer, salvo rezar e se arrepender dos pecados cometidos. A morte estava ali, todo-poderosa, e depois dela as chamas eternas do inferno. A irracionalidade eclodia em qualquer parte, e havia cidades que tratavam de aplacar a praga infernal oferecendo-lhe sacrifícios humanos, de bruxas, bruxos, incrédulos, pecadores não arrependidos, insubmissos e rebeldes. Quando Flaubert viajou ao Egito, ainda viu leprosos que percorriam as ruas tocando sinos para advertir às pessoas para que se afastassem se não quisessem ver (e se contagiar com) suas chagas purulentas.

Por isso, a peste quase não aparece nas novelas de cavalarias, que são outro aspecto, mais positivo, da Idade Média: nelas há proezas físicas extraordinárias, Tirante, o Branco, derrota sozinho gigantescos exércitos. Mas os adversários dos cavalheiros andantes são seres humanos, não diabos, e o que o homem medieval teme são os diabos, esses demônios que, escondidos no coração das epidemias, golpeiam e matam sem discriminar culpados e inocentes.

Esse velho terror não desapareceu de todo, apesar dos extraordinários progressos da civilização. Todo mundo sabe que, como ocorreu com a AIDS e com o ebola, o coronavírus será uma pandemia passageira, para a qual os cientistas dos países mais avançados logo encontrarão uma vacina para nos defender contra ela, e que tudo isto terminará e será, dentro de algum tempo, uma notícia murcha da qual as pessoas mal se recordarão.

O que não passará é o medo da morte, do além, que é o que se aninha no coração destes terrores coletivos que são o temor em relação às pestes. A religião aplaca esse medo, mas nunca o extingue, sempre fica, no fundo dos crentes, esse mal-estar que aumenta às vezes e se transforma em medo pânico, do que haverá uma vez que se cruze aquele limiar que separa a vida do que há além dela: a extinção total e para sempre? Essa fabulosa divisão entre o céu para os bons e o inferno para os malvados de um deus brincalhão, que as religiões prognosticam? Alguma outra forma de sobrevivência que não foram capazes de notar os sábios, os filósofos, os teólogos, os cientistas? A peste de repente traz estas perguntas, que na vida cotidiana normal estão confinadas nas profundezas da personalidade humana, para o momento presente, e homens e mulheres devem responder a elas, assumindo sua condição de seres passageiros. Para todos nós é difícil aceitar que tudo de belo que tem a vida, a aventura permanente que ela é ou poderia ser, é obra exclusiva da morte, de saber que em algum momento esta vida terá ponto final. Que se a morte não existisse a vida seria imensamente chata, sem aventura nem mistério, uma repetição cacofônica de experiências até a saciedade mais truculenta e estúpida. Que é graças à morte que existem o amor, o desejo, a fantasia, as artes, a ciência, os livros, a cultura, ou seja, todas aquelas coisas que tornam a vida suportável, imprevisível e excitante. A razão nos explica isso, mas a injustiça que também nos habita nos impede de aceitá-lo. O terror à peste é, simplesmente, o medo da morte que nos acompanhará sempre como uma sombra.

“That`s Life”, Frank Sinatra: Fé no santo! Bom domingo!

BOM DIA!!!

(Gilson Nogueira)

A economia dos cemitérios

 

O que explica o número calamitoso de mortes na Lombardia?

É a zona industrial mais importante da Itália, e as autoridades imaginaram que daria para controlar a epidemia sem estrangular completamente a economia.

Por isso, muitas atividades permaneceram abertas, embora a Covid-19 já estivesse disseminada em Bergamo e em Brescia, onde se concentram os mortos.

Na Toscana, no Lazio e na Emilia Romagna, que viram o que ocorreu na Lombardia, o regime de isolamento total foi aplicado em tempo e a epidemia de Covid-19 já está parcialmente controlada.

É o que São Paulo está tentando fazer agora.

Do Jornal do Brasil

O destino de Jair Bolsonaro está menos em quem bate panelas contra ou ao seu favor, e mais “no grupo que fica no meio, olhando para ver”, disse cientista político à agência de notícias Sputnik Brasil.

Macaque in the trees
Moradores de Santa cecília, em São Paulo, batem panela contra Bolsonaro (Foto: FolhaPress)

Na quarta-feira (18), dia em que o presidente participou de coletiva admitindo a gravidade da pandemia do coronavírus, mas também defendendo sua ida às manifestações do dia 15 de março, mesmo contra as recomendações do Ministério da Saúde, um grande panelaço contra Bolsonaro foi ouvido de janelas de várias cidades do Brasil.

Como resposta, o chefe de Estado mobilizou seus apoiadores a também bater panelas, mas ao seu favor. Para Carlos Sávio Gomes Teixeira, professor do departamento de ciência política da UFF (Universidade Federal Fluminense), o coronavírus representa um “desafio para a maneira do presidente governar”, algo que pode ter um “efeito político devastador”.

Ele acredita que a situação sanitária e econômica causada pela COVID-19, doença provocada pelo vírus, tem chances reais de levar à “derrota” de Bolsonaro. Mas seu destino não dependeria dos apoiadores fiéis ou dos críticos ferrenhos do presidente, que batalham nas janelas de panelas nas mãos.

‘Se desgarrando do espectro do bolsonarismo’

“Esses dois grupos, no atual contexto politico brasileiro, não são os mais relevantes, o mais relevante é aquele grupo que fica no meio, olhando pra ver, e esse grupo vem se desgarrando lenta e progressivamente do espectro do bolsonarismo. As pessoas que não são bolsonaristas e ainda apoiam o governo são consideráveis, mas vem se reduzindo”, afirmou Sávio.

O gesto de Bolsonaro de pedir aos seus apoiadores para darem resposta ao panelaço foi comparado com alguns à atitude do ex-presidente Fernando Collor de Melo à beira do impeachment, em 1992. À época, ele conclamou os brasileiros a irem às ruas vestidos de verde amarelo. Totalmente isolado, o pedido acabou gerando mais oposição e o movimento dos caras pintadas.

‘Bolsonaristas hardcore’

Segundo os especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil, a situação de Bolsonaro hoje é diferente da vivida por Collor. Teixeira ressalta que o atual presidente ainda conta com “apoio na sociedade” e existe um grupo de cerca de “vinte por cento” da população de “bolsonaristas hardcore, que provavelmente vão morrer com ele, mesmo que o “governo caminhe para uma estágio terminal”.

Para Clarisse Gurgel, do departamento de ciências sociais da Uni-Rio, o paralelo que pode ser feito é do governo Bolsonaro com as Marchas da Família com Deus pela Liberdade dos anos 60, com retórica anticomunista e a favor de valores cristãos.

“O presidente está tendo que reinventar sua forma de resistência, ou, no caso dele, reinventar sua forma de agitação. O panelaço representa muito mais setores progressistas de esquerda aprendendo com os argentinos [essa forma de protesto teria começado na Argentina] do que Bolsonaro colorindo [referência a Collor] sua forma de atuar. O que resta a ele é dar uma resposta na mesma estética, uma nova estética que não permite aglomerações e é um desafio para todos os lados”, afirmou Clarisse.

‘Enorme dificuldade em governar’

Segundo Sávio, Bolsonaro tem uma “enorme dificuldade em governar, no sentido convencional do termo”, por isso sua gestão “é uma extensão de uma campanha eleitoral permanente”, alimentada por “crises”, reais ou fabricadas. Além disso, o cientista político diz que o presidente não tem “um projeto de governo”, apenas pensa na “manutenção do poder”.

“Só que nesse contexto veio a crise do coronavírus, que colocou um desafio para o qual essa lógica do presidente Bolsonaro não esta preparada para lidar”, afirmou o professor da UFF, para quem Bolsonaro está “encurralado por essa circunstância nova e inesperada”.

Clarisse também avalia que “Bolsonaro vive de excitações diárias, de uma dramaturgia, de criar tumultos”.

Por outro lado, a professora da Uni-Rio acredita que existe um projeto de governo em andamento no país, que “segue avançando em seu projeto original, com coronavírus ou sem coronavírus”, e que ultrapassa até mesmo a figura de Bolsonaro.

‘Vírus do neoliberalismo’

“Se nós nos distrairmos com as alegorias e adereços de Bolsonaro, a gente não vai atentar para o principal vírus que está tomando conta do mundo, que é o vírus do neoliberalismo”, disse Clarisse.

Para a acadêmica, o coronavírus acaba trazendo à tona uma polarização muito mais profunda na sociedade, entre o “lucro” e a “solidariedade”, o “capital” e o “social”.

A professora diz que a postura do governo Bolsonaro diante da crise é “perversa”, pois estaria se aproveitando do momento para “tirar direitos trabalhistas e sociais” e se preocupando apenas em “garantir o lucro das empresas”.

‘Carona na quarentena’

Ao mesmo tempo, ela afirma que nunca precisamos tanto de um “social” totalmente “inclusivo” e de “serviços públicos como o SUS” (Sistema Único de Saúde).

“O governo pega carona na quarentena para avançar na deterioração dos direitos no Brasil. Mas enquanto nos gabinetes e plenários destroem o social, é o social que está salvando a população do país”, disse Clarisse. (Sputnik Brasil)

mar
22

Do Jornal do Brasil

 

Macaque in the trees
Teatro Municipal de São Paulo. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

A Prefeitura de São Paulo vai destinar R$ 103 milhões para apoiar os artistas da cidade em meio à crise causada pelo novo coronavírus. As medidas para restringir o contágio pela doença atingiram fortemente o setor cultural, com o cancelamento de apresentações e o fechamento de espaços culturais públicos e privados.

Festival nas janelas

Entre as ações de apoio, será criado o festival Janelas de São Paulo, inspirado nas manifestações artísticas feitas na Itália durante o período de quarentena. As apresentações feitas em varandas, sacadas ou janelas serão transmitidas pela internet.

Novos prazos

A prefeitura também adiou o prazo de todas as contratações artísticas do Executivo municipal, fazendo com que os shows impedidos no momento possam ser realizados em outras datas, garantindo o pagamento dos cachês.

A prefeitura administra, através da Secretaria Municipal de Cultura, 11 centros culturais, 18 casas de cultura e oito teatros, além do Theatro Municipal. Fora isso, há ainda a programação que acontece nas bibliotecas e museus.

O calendário de editais será antecipado. A ideia é que os grupos artísticos possam realizar a pesquisa e pré-produção durante o período de quarentena. As chamadas públicas oferecem verbas para os produtores que têm os projetos selecionados.

O prazo do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promac), que permite o apoio a iniciativas culturais a partir de incentivos fiscais será prorrogado até o dia 27 de maio.

mar
22
Posted on 22-03-2020
Filed Under (Artigos) by vitor on 22-03-2020


 

Clayton, NO JORNAL

 

DO DIÁRIO DE NOTÍCIAS (PORTUGAL)

O epicentro da pandemia provocada pelo novo coronavírus está agora na velha Europa. Os índices de envelhecimento dos países europeus fazem temer o pior e justificam a preocupação e a tomada de medidas extremas. Vencida a crise, que lições tirar de tudo isto? Falámos com Maria João Valente Rosa, especialista em demografia, o psiquiatra Júlio Machado Vaz e o pneumologista Filipe Froes.

De, de um dia para o outro, a vida como a conhecíamos, puf. Ruas desertas, lojas fechadas, escolas encerradas, voos cancelados, pais e filhos que se viam de relance de manhã e à noite agora o dia todo juntos, filhos adultos que ligavam de semana a semana aos pais, agora todos os dias a lembrar-lhes que têm de ficar em casa, almoços e jantares de família ou amigos adiados sine die, no país do presentismo, muita gente em teletrabalho, outros sem poder trabalhar de casa nem fora dela e outros ainda para quem o mundo não parou, antes acelerou. Gente de máscara e luvas e gel desinfetante e distanciamento físico. Beijos e abraços proibidos até ver.

Por estes dias, em que a maioria está ligada dia e noite às redes sociais, o que não faltam são vídeos humorísticos, memes e quejandos sobre os tempos que vivemos. O “de repente, puf” é bem ilustrado por um vídeo que circula de uma família europeia de férias na neve falando descontraidamente do novo coronavírus. Não há problema, está na China, é longe, não é conosco. Lá em cima, começa a desenhar-se uma avalanche, mas eles não dão por isso. É lá longe, no Irã, não é com eles. A avalanche aproxima-se a grande velocidade. Só percebem quando lhes cai em cima. Puf.

O novo coronavírus é mais letal entre os mais velhos. Será essa uma das explicações para o fato de a Itália, cujo número de infectados é metade em relação à China, ter aproximadamente o mesmo número de mortos.

Neste momento, a Europa é o epicentro da epidemia e vê, atônita, outros países fecharem-lhe fronteiras. A Itália vive a situação mais grave, seguida de Espanha. Portugal está em isolamento há uma semana, mas os números ainda não refletem as medidas tomadas pelo governo.

Este sábado, os números oficiais apontavam para 1280 casos confirmados e 12 mortos. O continente europeu, ao contrário daquilo a que está habituado, está particularmente vulnerável.

O novo coronavírus é mais letal entre os mais velhos, com sistema imunitário debilitado e co-morbilidades, como diabetes, hipertensão, problemas cardíacos ou respiratórios, e por aí fora, comuns numa população envelhecida como a europeia. Será essa uma das explicações para o facto de a Itália, cujo número de infetados é metade em relação à China, ter aproximadamente o mesmo número de mortos.

Enquanto uma vacina e medicamentos eficazes não forem criados, o mundo, e especialmente a Europa, não poderá respirar de alívio. Para combater a pandemia, os países erguem fronteiras, isolam-se, isolam a população, tomam medidas de contenção. De repente, de um dia para o outro, a vida como a conhecíamos muda.

Os mais velhos são os que estão em maior risco, mas, de acordo com os testemunhos de muitos filhos à beira de um ataque de nervos, parecem ser os menos preocupados. Não deviam, como explica o pneumologista Filipe Froes.

“Todos estamos em risco, mas os mais velhos, e sobretudo aqueles que têm co-morbilidades associadas, são os que estão em maior risco, por isso têm de ter mais cuidados e defender-se. É um problema de todos que todos temos de contribuir para resolver. A proteção individual e coletiva serve para nos defendermos a nós, individualmente, e a todos, em conjunto, e evitar a disseminação do vírus na comunidade. É o princípio da imunidade de grupo, que é o objetivo da vacinação em massa.”

Como para este vírus ainda não há vacina, é fundamental que cada um cumpra a sua parte e siga as recomendações. Na opinião do médico, de um modo geral, estas estão a ser seguidas. “As pessoas agem dependendo da maneira como compreendem o problema, por isso é preciso explicar-lhes o problema de forma clara, compreensível e acessível, e essa é uma responsabilidade de todos nós.”

“Quando a quarentena acabar, vamos cair todos nos braços uns dos outros, mas isso não significa que não fiquem marcas, e em algumas pessoas não serão apenas marcas”, diz o psiquiatra Júlio Machado Vaz.

Júlio Machado Vaz não embarca em generalizações de jornalistas e considera uma injustiça encarar os maiores de 65 como um grupo homogêneo. Para os que resistem a ficar fechados em casa tem explicação, não justificação. “É uma geração que passou por muito e têm a perspetiva de que tudo passa. Com isto cruza-se o fato de serem mais agarrados às suas rotinas, algumas delas verdadeiros rituais, como ler o jornal enquanto bebem o cafezinho, de que é difícil abdicar.”

Dito isto, Júlio Machado Vaz chama a atenção de que “o isolamento deve ser físico, não social. Este tem de ser combatido, pelas redes sociais, pelo WhatsApp, pelo telefone, seja de que forma for. No outro dia, uma senhora contava uma história comovente. A filha pegou no carro e pôs-se do outro lado da rua e acenaram uma à outra da janela. É muito importante isto”, diz o psiquiatra, que nestes tempos de pandemia se preocupa tanto com a “geração sanduíche”, que tem de cuidar dos mais velhos e dos mais novos, como com a sua, que em muitos casos não domina as novas tecnologias e por isso está menos apoiada. “No meu tempo de jovem, analfabeto era quem não sabia ler nem escrever. Agora, há os info-excluídos, que num momento como este estão muito mais isolados.”

E as consequências disto na saúde mental? “Graves. As duas que mais me preocupam são a depressão e o stress pós-traumático. Quando a crise for resolvida, resolve-se a parte física, mas as questões psicológicas arrastar-se-ão. Quando a quarentena acabar, vamos cair todos nos braços uns dos outros, mas isso não significa que não fiquem marcas, e em algumas pessoas não serão apenas marcas.”

Para as evitar ou amenizar, o psiquiatra aconselha que se mantenham as rotinas e não se caia na tentação de deslizar para uma terra de ninguém em que os dias se sucedem aos dias em frente ao “quadrado”. “Levantar sempre à mesma hora, não andar de pijama, ler, escrever, ouvir música, fazer exercício físico, conversar com os filhos e os amigos, manter-se ativo, sobretudo mentalmente. Se a malta se deixa deslizar, é fácil perder a noção de a quantas anda. Temos de lutar contra isso.”

  • Arquivos