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Dória com Maia: fantasia parlamentarista no tempo do coronavírus.
  ARTIGO DA SEMANA

Maia, Bolsonaro e o Bode: Poder no tempo do Covid-19

Vitor Hugo Soares

No mundo de fantasia parlamentarista, em que muitos políticos de expressão nacional no País imaginam viver – alguns já embalados por mal dissimulados planos políticos de pode, para 2022, – com mira fixa no Palácio do Planalto ocupado, no voto, pelo presidente Jair Bolsonaro, que não mais esconde de ninguém: tem projeto de permanecer onde está por mais um mandato, quando terminar o atual, e deixou isso claro na sua polêmica e espetacular (no sentido lato da palavra) participação, em Brasília, das manifestações que levaram multidão às ruas do País, em defesa de seu governo, domingo passado.

Neste caso, merece observação atenta a mudança, na movimentação e no comportamento, de alguns personagens da cena principal da política brasileira – João Dória Jr, Wilson Witzel, Davi Alcolumbre, Rui Costa, ACM Neto, para citar os mais afoitos e de maior visibilidade –, em especial o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, do DEM, na sua sonhadora tentativa de assumir as vestes e funções de “primeiro-ministro”, na era do Coronavírus, no Brasil cioso de sua  tradição de República Presidencialista, cuja população segue levando às praças e avenidas, em seus protestos, a histórica palavra de ordem: “Parlamentarismo, não!”.

Aí está, portanto – que ninguém se iluda – uma estratégia de mando com quase todos os ingredientes para dar errado e virar uma confusão política daquelas, se continuar sendo levada adiante, seja por quem for: do deputado pelo Rio de Janeiro, primeiro, – (depois do vice, general Hamilton Mourão, na linha constitucional de sucessão do mandatário em caso de vacância no cargo) –  ao governador de São Paulo, João Dória que, nestes dias mais recentes da escalada do Covid-19, parece ter resolvido virar uma precária imitação de “Churchill à brasileira”, comandando até as entrevistas coletivas em seu estado.

Mal (ou bem?) comparando, tudo isso pode acabar em uma comédia de (mal) costumes, do tipo da chanchada “Vai dar Bode!”, dos Anos 60, com o então gordinho Jô Soares em começo de carreira, no papel principal do grande sucesso de público do cinema nacional na época. Recomendo: Vale a pena ver de novo, neste preocupante “tempo de duro estresse que precisamos e vamos vencer” (a expressão é do ministro da Saúde, Henrique Mandetta, novo herói nacional acima dos implacáveis ódios ideológicos de “esquerda” e da “direita” ainda reinantes. Fase de recolhimento familiar compulsório (mas necessário, ressalto, para evitar mal entendidos do tipo causado por Bolsonaro, ao “correr para a galera” em sua inesperada chegada ao Palácio do Planalto, durante protestos, no Brasil, em defesa de seu governo.
  
Na segunda-feira, 16, dia seguinte às manifestações, ficou evidente, nas três entrevistas dadas por Maia a veículos diferentes (programa “90 Minutos”, da Rádio Bandeirantes, à Folha de S. Paulo, e à recém inaugurada rede de TV CNN Brasil) que o parlamentar do DEM, pelo Rio de Janeiro, baixou em alguns decibéis o tom de suas críticas ao presidente Bolsonaro, por ter ajudado a convocar e ter participado das manifestações, de domingo, antes da nova-velha moda de protesto – os panelaços – começar neste final de temporada do Verão 2020, abrindo espaço para a chegada do Outono do Coronavírus no Brasil. O resto, a conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitors.h.@uol.com.br   

“Cachorro Vira Lata”, Baby do Brasil: Estupenda gravação (voz, arranjo e acompanhamento) de um sucesso transcendente da era de ouro do Rádio, consagrado por Carmen Miranda nos Estados Unidos. Aqui em antológica e personalíssima interpretação de Baby do Brasil (Consuelo, se preferir), como tema de abertura da novela Vira Lata, da TV Globo, em 1996. Tema atual, para ouvir (e pensar), com bom humor,  neste tempo tenebroso do Coronavírus que abala o Brasil e o mundo.

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

 

mar
21
Posted on 21-03-2020
Filed Under (Artigos) by vitor on 21-03-2020
Ao afirmar que a curva de contágio do novo coronavírus só vai decair em setembro, o ministro Luiz Henrique Mandetta trata a questão com a seriedade necessária.

Ao encarar uma crise sanitária de proporções planetárias, não dá para simplesmente negar realidade – como tem feito Osmar Terra, um dos interessados na vaga de Mandetta.

A serenidade também é uma característica importante, para evitar a histeria social que normalmente acompanha situações como a que estamos vivendo.

Em 27 de fevereiro, o ministro gravou um vídeo criticando “o preconceito” em relação ao povo chinês, por causa da origem da Covid-19.

Ele lembrou que o Brasil foi foco há poucos anos do Zika Vírus e não seria correto que brasileiros fossem recebidos no mundo com ressalvas.

“No momento, o povo chinês precisa mais do que nunca de solidariedade. Xenofobia é crime. Sejamos todos muito solidários. A solidariedade é o melhor remédio para as epidemias de pânico.”

DO EL PAÍS

Após crise diplomática com a China provocada por seu filho, Bolsonaro diz não ter problemas com o governo de Xi Jinping, a quem pedirá doação de equipamentos

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou que o sistema de saúde brasileiro entrará em colapso ao final de abril, caso não sejam cumpridas as regras de distanciamento social. “Temos aí 30 dias para que a gente resista razoavelmente bem, com muitos casos, dependendo da dinâmica da sociedade. Mas, claramente, em final de abril nosso sistema entra em colapso”, disse, ao traçar um panorama do Brasil diante da pandemia de coronavírus a um grupo de empresários em teleconferência com o presidente Jair Bolsonaro, que, por sua vez segue errático na conduta da crise.

Ao lado do ministro, no entanto, havia um presidente ávido por criticar seus adversários políticos e cobrar a ajuda dos Estados na solução da crise. Contrário ao fechamento de rodovias, Bolsonaro reclamou, mais de uma vez, de um “governador” que “só faltou se declarar independente” do Brasil. Não citou nomes. Mas nos últimos dias, os governadores Camilo Santana (Ceará), do PT, e Wilson Witzel (Rio de Janeiro), do PSC, anunciaram restrição de circulação de ônibus interestaduais em seus Estados.

Após a forte declaração de Mandetta, o ministro tentou amenizar sua previsão caótica. “O que é um colapso? Às vezes as pessoas confundem colapso com sistemas caóticos, sistemas críticos, quando você vê aquelas cenas de pessoas em macas. O colapso é quando você pode ter o dinheiro, você pode ter o plano de saúde, você pode ter a ordem judicial, mas, simplesmente, não há um sistema aonde entrar”.

Na sequência, comparou a situação do Brasil a da Itália, onde há uma elevação exponencial do número de casos registrados e de mortos. “[Colapso] é o que está vivenciando a Itália, um país do primeiro mundo, atualmente. Não tem aonde entrar”.

Como medida de reduzir o impacto na saúde, Mandetta sugeriu que talvez seja necessário ampliar as ações de isolamento de pessoas, principalmente de idosos. “Para evitar esse colapso pode ser necessário segurar a movimentação para ver se consegue diminuir a transmissão. Quando a gente toma uma medida de segurar 14 dias, por exemplo, o impacto dessa medida só é sentido 28 depois porque a cadeia de transmissão é sustentada e você [a] quebra.”

As oscilações do ministro, enquanto no mundo as regras já são bem mais duras, são sintomas de um Governo que ainda tenta acertar o passo na comunicação sobre a crise. Enquanto Mandetta fala um idioma, Bolsonaro tenta retomar o protagonismo na crise, mas segue minimizando vez por outra a emergência —como fez ao falar a seguidores no Facebook na quinta-feira e ao repetir em entrevista coletiva nesta sexta. “Depois da facada, não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar, não”, disse Bolsonaro nesta sexta em referência à tentativa de assassinato que sofreu durante a campanha eleitoral em 2018.

As falas do ministro ocorreram durante uma teleconferência com ao menos 20 empresários brasileiros e representantes da gestão Bolsonaro. No encontro, os empresários disseram que estão dispostos a ajudar o governo a conter a disseminação do vírus. “A iniciativa privada quer participar [dos debates], não é para pedir nada. É para dar, para ajudar a solucionar os problemas”, afirmou o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, o empresário Paulo Skaf.

Nos últimos dias, a gestão Bolsonaro tem sido criticada por estar focando suas ações mais na área econômica do que na de saúde. Skaf, que aderiu ao bolsonarismo, disse que os empresários também estão preocupados com a saúde. “Primeiro tem de ser controlada a situação da saúde. Temos a consciência de que, se não diminuir a circulação de pessoas, não contemos a doença”.

No encontro o presidente Bolsonaro repetiu uma frase que tem se tornado seu mantra nos últimos dias. “Temos de tomar as medidas necessárias, mas sem histeria”. Ao contrário do que ocorreu ao longo da semana, todos os presentes no encontro no Planalto usaram máscaras faciais e as mantiveram em seus rostos enquanto falavam.

Crise diplomática

Após o encontro com os empresários, o presidente Jair Bolsonaro negou que o seu governo tenha qualquer problema com o do chinês Xi Jinping. Desde quarta-feira, um desentendimento diplomático foi iniciado pelas redes sociais por seu filho Eduardo Bolsonaro, deputado federal e presidente da Comissão de Defesa e Relações Exteriores da Câmara. “No governo brasileiro, não tem qualquer problema com o governo chinês, muito pelo contrário”, afirmou o mandatário.

Conforme o jornal Valor Econômico, contudo, Xi se negou a atender uma ligação do presidente Bolsonaro nesta sexta-feira. O governo chinês já disse em uma nota emitida na noite de quinta-feira que se sentiu ofendido, não aceitou uma tentativa de intermediação do chanceler Ernesto Araújo e aguarda um pedido oficial de desculpas do deputado Eduardo.

Nesta semana, Eduardo por meio de seu Twitter, aderiu a uma versão conspiratória de que a responsabilidade pela disseminação do coronavírus era do governo chinês. Suas declarações geraram uma série de respostas do embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, e do perfil da embaixada nas redes sociais. Em uma das mais recentes, direcionadas a Eduardo, a embaixada escreveu: “[Eduardo Bolsonaro] Que dê uma guinada o mais rapidamente possível, já que a história nos ensina que quem insiste em atacar e humilhar o povo chinês, acaba sempre dando um tiro no seu próprio pé”.

O vice-presidente, Hamilton Mourão, os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, do Senado, Davi Alcolumbre, do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, empresários e o Itamaraty intervieram. Mas o governo chinês insiste no pedido formal de desculpas de Eduardo. Na entrevista coletiva desta sexta-feira, o presidente Bolsonaro disse que, nos próximos dias, poderá entrar em contato com representantes de Xi para tratar da doação ou da venda de equipamentos médicos para ajudar no tratamento dos infectados pelo coronavírus no Brasil. Por enquanto, as falas do filho do presidente estão travando qualquer avanço nessas tratativas.

Por G1

Engenheiro Sérgio Campos Trindade, vítima de Covid-19 em Nova York — Foto: Reprodução/Agência Fapesp/Twitter Engenheiro Sérgio Campos Trindade, vítima de Covid-19 em Nova York — Foto: Reprodução/Agência Fapesp/Twitter

Engenheiro Sérgio Campos Trindade, vítima de Covid-19 em Nova York — Foto: Reprodução/Agência Fapesp/Twitter

 

O engenheiro químico Sérgio Trindade morreu em Nova York (Estados Unidos) na quarta-feira (18) devido a complicações causadas pela Covid-19, doença do novo coronavírus. A informação é da Agência Fapesp.

Segundo a agência, Trindade participou do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), grupo que ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2007.

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) informa que Trindade atuava como consultor em negócios sustentáveis e integrava o Comitê Científico para Problemas do Ambiente (Scope, na sigla em inglês) — agência intergovernamental associada à Unesco.

Coronavírus em Nova York

O estado de Nova York concentra a maior parte dos registros de novo coronavírus nos Estados Unidos: eram 5.715 casos nesta sexta-feira (20), segundo a Universidade Johns Hopkins. O total de mortos chegou a 38.

Por isso, Andrew Cuomo, governador do estado de Nova York, determinou que todos os funcionários de setores não-fundamentais da economia devem ficar em casa e proibiu aglomerações.

mar
21

Macaque in the trees
Passageiros e funcionários circulam vestindo máscaras contra o novo coronavírus no Aeroporto Internacional Tom Jobim- Rio Galeão (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

O governo federal restringiu a entrada de estrangeiros no Brasil por voos internacionais para prevenir maior disseminação do novo coronavírus no país. A medida tem prazo de 30 dias e começa a valer em 23 de março.

Serão impedidos de entrar no Brasil passageiros estrangeiros vindos da China, de países-membros da União Europeia, da Islândia, da Noruega, da Suíça, do Reino Unido e da Irlanda do Norte, da Austrália, do Japão, da Malásia e da Coreia do Sul.

De acordo com a portaria interministerial dos ministérios da Saúde, Justiça e Segurança Pública, Infraestrutura e Casa Civil, publicada na noite de ontem (19) em edição extra do Diário Oficial da União, a medida atende uma recomendação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de restrição excepcional e temporária de entradas no país.

Ainda segundo o documento, a restrição não se aplica a brasileiros natos ou naturalizados, imigrantes com prévia autorização de residência no Brasil, estrangeiro que vai se reunir com familiar brasileiro que está no país ou aquele que seja autorizado pelo governo em vista do interesse público.

A medida também não atinge profissionais estrangeiros a serviço de organismo internacional, funcionários estrangeiros autorizados pelo governo brasileiro e o transporte de cargas.

Ao deixar o Palácio da Alvorada na manhã de hoje (20), em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro foi questionado sobre o motivo de a portaria não incluir estrangeiros vindos dos Estados Unidos, já que há um aumento do número de casos naquele país. Para o presidente, é preciso manter contato com algum país de fora.

“[Os Estados Unidos] está numa situação semelhante à nossa, não é privilegiar esse ou aquele país. Não há, no meu entender, esse aumento que está sendo falado por aí. Nós precisamos algum contato de fora também e as próprias empresas aéreas estão parando, porque algumas viagens, de acordo com percentual de passageiros, não são lucrativas”, disse.

De acordo com o último boletim da Organização Mundial da Saúde, divulgado ontem, os Estados Unidos têm 7.087 casos confirmados, sendo 3.551 novos casos, e 100 mortes por Covid-19.

Fronteiras terrestres

Também nesta quinta-feira (19), o governo federal determinou o fechamento de fronteiras terrestre do Brasil com países vizinhos da América do Sul por 15 dias. Na quarta-feira (18), a medida foi aplicada apenas à Venezuela. Brasileiros continuam podendo entrar no Brasil vindo dos países mencionados.

A fronteira com o Uruguai será objeto de uma portaria específica. Hoje (20), ao deixar o Palácio da Alvorada, em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro disse que negocia um acordo comum com o presidente uruguaio Luis Lacalle Pou, assim como foi feito com os demais países.

“O presidente recém assumiu lá, nós queremos fazer algo em comum acordo. Agora, na verdade, é quase como se fosse um país só, é uma linha imaginária”, disse Bolsonaro. “O pessoal fala que fechar, resolveu. Lógico, vai atenuar o problema, mas não vai resolver”, ressaltou.

A portaria publicada ontem sobre fronteiras terrestres não impede o livre tráfego do transporte rodoviário de cargas e o tráfego de residentes de cidades gêmeas com linha de fronteira exclusivamente terrestre, como é o caso de Pedro Juan Caballero, no Paraguai, e Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul. A divisa do Brasil com o Uruguai também apresenta o mesmo caso com as cidades de Rivera, no Uruguai, e Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul.(Agência Brasil)

mar
21
Posted on 21-03-2020
Filed Under (Artigos) by vitor on 21-03-2020
DO EL PAÍS

Nós, mulheres da elite, lamentamos a difícil tripla jornada de trabalho com filhos na casa. Muitas já vivem essa cruel realidade há tempos

A primeira vítima fatal de coronavírus no Rio de Janeiro foi uma mulher, trabalhadora doméstica. Foi infectada “pela patroa” que não a informou que estava doente. Empregada e patroa foram assim descritas pelas notícias, sem nome, só os espaços de vida dos privilégios resumiam suas existências: empregada dormia no emprego, patroa viajou para Itália de onde retornou doente. Empregada morreu em um hospital público, foi enterrada em cemitério vizinho à casa de rua sem asfalto. A patroa mora no metro quadrado mais caro do Rio de Janeiro. Nem morta, a empregada teve o privilégio de ser nomeada para ser humanizada no luto, como mostrou Djamila Ribeiro.

Empregada e patroa são as alegorias de como uma pandemia se cruza com as fronteiras dos privilégios de gênero, classe e raça. Nosso feminismo latino, embranquecido pela colonialidade do poder, é insuficiente para responder à crueldade da epidemia entre o mundo das mulheres: nós, mulheres da elite trabalhadora e educacional, lamentamos a solidão do trabalho remoto, a difícil tripla jornada de trabalho com filhos na casa, o desaprumo da mesa de jantar como espaço de trabalho. As mulheres concretas do mundo, aquelas que todos os dias continuam a se mover pelas cidades em transportes públicos apinhados, já vivem essa cruel realidade há tempos. A diferença é que nosso sucesso no trabalho dependia de nosso posto como patroas na vida doméstica ou nas creches.

Os dados são frágeis, pois as mulheres concretas do trabalho doméstico vivem na informalidade. Elas são faxineiras, babás, empregadas domésticas, cuidadoras e o uso do feminino não é cacoete feminista: 93% das trabalhadoras domésticas da América Latina e Caribe são mulheres. Se somarmos a esse contingente, o universo das manicures e cabelereiras ou das educadoras e profissionais em saúde, estamos falando de para onde o feminismo de 99% das mulheres precisa olhar para entender os efeitos dessa epidemia nas mulheres nos privilégios de classe. O emprego doméstico é uma das áreas com maior nível de trabalho informal nas Américas: segundo a Organização Internacional do Trabalho, em 2013, 8 em 10 trabalhadoras domésticas estavam na informalidade.

Estar na informalidade é estar sem salário ou arriscar-se a adoecer para cuidar das elites adoecidas. Estar na informalidade é adoecer, e viver à espera da caridade das elites. Mesmo para as trabalhadoras domésticas formais, apenas 1 em cada 4 possui cobertura de previdência social na América Latina e Caribe. Há países onde o quadro é ainda mais desesperador: Bolívia, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua, México, Paraguai e Peru, nove em cada dez trabalhadoras domésticas não têm proteção social alguma.

Essas são mulheres trabalhadoras inexistentes para o Estado de bem-estar social, adoecidas, empobrecidas ou famintas viverão a perversidade das políticas de distanciamento social como arriscada sentença de morte. Recolhidas à casa como mandam as políticas abstratas de proteção à saúde, correm maiores riscos de violência, como mostram os dados da China, onde triplicaram os registros de violência doméstica em fevereiro de 2020 comparado à 2019, e não cuidam de si ou dos filhos. Fenômeno semelhante ocorre nos Estados Unidos, onde mulheres enfrentam barreiras para buscar refúgio em casas abrigo pelo risco de contágio. São mulheres que, se desafiam as regras de reclusão doméstica e se submetem à servidão do trabalho, correm o risco de adoecer como cuidadoras de quem ignoram seus direitos, sua vida ou seu nome. É hora de nosso feminismo reconhecer e abdicar dos privilégios da patroa para poder olhar e cuidar do impacto da pandemia na vida das mulheres concretas.

Debora Diniz é brasileira, antropóloga, pesquisadora da Universidade de Brown. Giselle?Carino?é argentina, cientista política, diretora da IPPF/WHR.

mar
21
Posted on 21-03-2020
Filed Under (Artigos) by vitor on 21-03-2020



 

Sponholz, NO

 

DO EL PAÍS

Annie Atkins, criadora de minuciosas antiguidades falsas para Wes Anderson e Spielberg, reúne o melhor de seu trabalho em um livro, ‘Fake Love Letters’

Annie Atkins fez uma vez os desenhos para um filme de ficção científica e não gostou. “Era um filme situado numa espaçonave. Passei mal, não sou uma pessoa que pense em como será o futuro. O melhor filme ambientado no futuro no qual trabalhei foi Ilha dos Cachorros, de Wes Anderson, que se passava ‘20 anos no futuro’, embora não se dissesse em relação a quando. Nosso trabalho se baseou em grande medida no design gráfico japonês dos anos setenta. Adorei. Cada trabalho para Wes é muito imaginativo”, conta a ilustradora britânica especializada em produções cinematográficas.

Agora acaba de publicar um livro, Fake Love Letters (Phaidon), onde reúne parte de seu trabalho no cinema. Ela é a pessoa que cria os cartazes, ingressos, jornais, os sinais de trânsito, as cartas… todas essas pequenas peças que contribuem para tornar verossímeis as ambientações de época. “Queria mostrar às pessoas primeiros planos de algumas peças que eram muito detalhadas, mas que não apareciam em primeiro plano nos filmes. E depois também queria mostrar os hero props de O Grande Hotel Budapeste (Wes Anderson, 2014). Também escolhi objetos que tinham histórias interessantes.”

Atkins, conhecida fundamentalmente pelas peças que realizou para os filmes de Wes Anderson, é especialista justamente no que denomina de hero props. Peças que serão vistas com tanto detalhe que precisam parecer autênticas mesmo se observadas de perto.

É conhecida por sua meticulosidade, inclusive quando não é a encarregada do desenho de tudo no filme, como aconteceu em Coringa. “Só fiz gráficos para dois sets nesse filme: a equipe de Nova York estava sobrecarregada e necessitava um par de mãos extra. A maioria das peças eram documentos para os trabalhadores sociais: montes de prontuários médicos, cartazes e boletins para quadros de anúncios. Tudo tinha que ser verossímil no Departamento de Saúde de Gotham. Cada vez que leio a palavra ‘escritório’ em um roteiro sei que terei muito trabalho”.

“Às vezes compro passaportes velhos no eBay e sempre me sinto estranha com o passaporte de um desconhecido que morreu. Também gosto de colecionar diários pessoais, só para ver a caligrafia”

Seu filme favorito é O Grande Hotel Budapeste, como diz sempre que pode, mas Atkins trabalhou para muitos outros diretores. Para Spielberg, em Ponte dos Espiões, fez passaportes da Alemanha Oriental e documentos da CIA. Para Sem Fôlego, de Todd Haynes, parafernália dos anos vinte e setenta, que ia de marcadores de livros a cartazes. Na série The Tudors criou pergaminhos, vitrais e mapas…

Trabalhou em filmes ambientados entre 1500 e 2010. “Minha época favorita? Passo por fases, mas atualmente estou desenhando uma cristaleira num estilo de meados do século XX, então essa é atualmente minha era favorita. Adoro todas as impressões offset, as notas escritas a máquina, as cores chamativas. Eu costumava amar a Londres vitoriana, mas tenho feito tantas peças para esse período que acredito que estou enjoada.”

Seu método, conta, são minuciosas pesquisas que incluem trabalho de campo, varrendo mercados de pulgas. “Dedico muito tempo a isso. Se não reunir as referências corretas, o trabalho fica muito mais lento. Às vezes também temos um pesquisador para ajudar, os assistentes do departamento de arte sempre encontram coisas geniais. As feirinhas em Berlim são incríveis para os desenhistas gráficos. Acredito que seja útil ter objetos reais, dessa maneira você sabe o que há por trás de qualquer peça, ou a escala e a textura de um objeto. É difícil julgar estas coisas pelo computador.”

É também colecionadora de objetos com passado. “Às vezes compro passaportes velhos no eBay, e sempre me sinto estranha com o passaporte de um desconhecido que morreu. Também gosto de colecionar diários pessoais, só para ver a caligrafia. Entretanto, a maior parte do que coleciono é lixo: velhos bilhetes de ônibus e maços de cigarro”.

Parte dianteira e traseira de um ‘white fiver’, notas brancas de cinco libras emitidas no século XIX.
Parte dianteira e traseira de um ‘white fiver’, notas brancas de cinco libras emitidas no século XIX.

Essa, digamos, dependência de modelos reais tem também suas consequências. “Pode parecer estranho, mas quanto mais recente é a época mais difícil é de desenhar. Trabalhei uma vez num filme de Ang Lee ambientado em 2004 e foi realmente difícil de investigar, porque ainda não se arquivou nada do começo dos 2000.”

E depois chega o momento de criar modelos falsos partindo dos autênticos. Um trabalho minucioso. Mas, ao falar desse processo, esta designer que depois estudou cinema ?e soube unir ambos os campos? minimiza a própria importância. “Não sou brilhante em nada, só sei um pouco de tudo e aprendi a trapacear com os anos”, disse num dos cursos que oferece. “Não sou calígrafa profissional, nem maquetista nem tipógrafa. Sou designer gráfica de objetos de cena. Isso significa que tenho que aprender a adaptar meu estilo a qualquer época ou gênero. Tudo o que fazemos para fazer cinema é um truque. E isso é o que explico aos meus alunos.”

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