Castro Alves e o Coronavírus

Joaci Góes
Aos jovens e queridos amigos Lara e Chico Kertész!

Estimo que pelo menos 90% do noticiário das televisões sejam destinados a abordar a momentosa questão do Coronavírus, como se nada mais pudesse interessar as pessoas. Observe-se que praticamente nada se apresenta de novo. A reiteração do noticiário serve para intensificar a histeria coletiva que vai deixar um doloroso rastro de falências e desemprego, sem falar dos que vivem na economia informal que virarão pó, se não houver quem lhes cubra a satisfação das necessidades mínimas, tarefa que incumbe, prioritariamente, ao poder público, sem prejuízo do espírito de caridade das pessoas abonadas.

É verdade que o ambiente maniqueísta em que estamos imersos vê, em tudo, ocasião para externar sua boa ou má vontade relativamente ao que aplaude ou estigmatiza na vida política brasileira. Tal foi o caso da imprevista aparição do Presidente Bolsonaro, à frente do Palácio, em Brasília, para cumprimentar um grupo de manifestantes que protestava contra os malfeitos do Congresso Nacional e da Suprema Corte. Segundo o noticiário de algumas tevês, o Presidente tocou em 272 pessoas e em mais de uma dúzia de celulares, expondo-se, de modo intenso, a um contágio do qual, aparente e milagrosamente, se livrou, de membros de sua comitiva aos Estados Unidos, em recente viagem.

Seus críticos viram, na atitude, o descumprimento de recomendações das autoridades de saúde do seu próprio governo. Não vi, desse modo. Em pronunciamento à Nação, na sexta-feira, dia 13, o Presidente aconselhara a desarticulação dos protestos concebidos para ocorrer, em todo o Brasil, no domingo, dia 15. Ao ver tanta gente expressar solidariedade à sua luta para vencer os que dificultam as reformas de que tanto necessitamos, para vencer o atraso em que nos encontramos, o Presidente, num gesto de solidariedade aos que se expunham ao risco de contágio, foi ao seu encontro, de corpo aberto. Penso que sua liderança cresceu aos olhos da maioria da população brasileira.

Com tantos em compulsória quarentena doméstica, não tenho memória de um momento da história com tanta gente em casa, ávida por assistir os seus programas favoritos. Como a receita proveniente dos ingressos das competições esportivas é uma fração dos direitos televisivos, a manutenção dos torneios nunca foi de tanta importância, até como saudável mecanismo de mitigação da ansiedade geral. Para assegurar a proteção dos atletas, todos seriam previamente submetidos a exames reveladores de sua sanidade.

Em esportes como o tênis, em que não há contato físico entre os atletas, a quarentena seria momentaneamente transferida para as quadras.

Como a vida continua, vale refletir sobre importantes atividades que podem ser praticadas, sem qualquer prejuízo das cautelas que se impõem, em sintonia com o conselho do Ministro da Fazenda, Paulo Guedes, para conhecermos mais as coisas do Brasil, antes de sairmos em busca das maravilhas, mundo afora, até porque o dólar está caro e não deve cair, significativamente, o que será muito bom para nossas exportações e aumento das contratações de mão de obra do setor. Nesse diapasão, a visita ao Parque Castro Alves, local onde nasceu o maior poeta brasileiro, morto no verdor dos 24 anos, é de preceito. A caravana Edivaldo Boaventura, grande e saudoso intelectual baiano, composta por personalidades de relevo, integrantes das Forças Armadas, do Judiciário, da Universidade e do mundo dos negócios realizou esse périplo no último sábado, 14 de março, data de nascimento do grande vate.

O encanto foi geral. Nada mais do que duas horas de carro, com retorno por Muritiba e almoço no restaurante-fazenda Santa Cruz, com excelente culinária e uma das mais belas vistas do Brasil, com visão sobre as águas da barragem Pedra do Cavalo, o rio Paraguaçu, as cidades de São Felix e Cachoeira, cintadas por uma tênue cordilheira que se derrama sob os nossos olhos numa grande extensão.
A iniciativa que veio para ficar resultou da aliança entre a Secretaria de Turismo do Estado da Bahia e da Academia de Letras da Bahia, como passo inicial de um programa de exaltação da memória dos grandes filhos de nossa terra.

Joaci Góes, escritor, é presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretos da Tribuna da Bahia. Texto publicado nesta quinta-feira, 19, na TB.