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Postado em 18-03-2020
Arquivado em (Artigos) por vitor em 18-03-2020 00:34

Em São Paulo, grupos de voluntários se unem para ajudar a rotina dos mais velhos. Pró-Sangue sofre com estoque abaixo do volume necessário

Senhora na praia do Arpoador, no Rio.
Senhora na praia do Arpoador, no Rio.Silvia Izquierdo / AP (AP)

“Estou sentindo que vamos ficar cada vez mais unidos”. A frase da cozinheira Karen Cecchia, 31 anos, não tem conotação literal, e sim metafórica: ela a usou para defender que, conforme a pandemia do novo coronavírus cresça exponencialmente no Brasil, mais a população precisará ajudar os grupos de risco e colaborar para impedir que o vírus circule pelas ruas. Karen faz parte de uma comissão de jovens moradores do Edifício Louvre, um dos mais conhecido da região central de São Paulo, criada para ajudar os habitantes do prédio – especialmente os idosos – que precisam ficar em quarentena sem sair de seus apartamentos. “Por enquanto, 20 apartamentos se solidarizaram para ajudar os ‘velhinhos’ nas compras de supermercado, farmácia e qualquer outra coisa, já que muitos deles moram sozinhos aqui no prédio”, diz a cozinheira.

Karen conta que o prédio é heterogêneo pois “só moram ou jovens ou mais velhos. Não existe uma idade intermediária”. Enquanto os mais novos estão fora da faixa de risco de morte da doença, os idosos são os que correm mais perigo; a única morte confirmada pelo Ministério da Saúde de Covid-19 no Brasil até agora é de um senhor de 62 anos com doenças pré-existentes, em São Paulo. “Precisamos facilitar a vida deles porque sabemos que para eles é preocupante”, diz Karen. Em entrevista coletiva dada na tarde desta terça-feira, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, reforçou a mensagem passada pelos moradores do Louvre: “Cuidem dos idosos”.

Além de compras, os membros do grupo também se disponibilizam para cuidar dos filhos daqueles que ainda não podem trabalhar de casa, uma vez que algumas empresas da cidade ainda não adotaram o home office. Há ainda outras maneiras: como cozinheira, Karen Cecchia recebe de acordo com as comidas que faz para eventos os quais, neste mês, foram todos cancelados. “Ou seja, estou sem salário. Por isso me propus a cozinhar para aqueles que estão em quarentena. Faço uma marmitinha a um preço camarada, ajudo eles e eles me ajudam”, argumenta. Como a comissão foi criada nesta segunda-feira, 17, as atitudes sugeridas começaram a entrar em vigor nesta terça, 18.

A ideia da ajuda comunitária veio através da foto de uma carta escrita à mão que está circulando nas redes sociais e foi compartilhada no grupo de WhatsApp dos moradores do edifício. Sem identificação de origem, a foto foi tirada de um elevador de um prédio, onde a mensagem redigida em uma folha de papel diz que “tendo em conta a situação complicada (…), aos vizinhos que, pela idade ou complicações de saúde, estejam nesse momento com receio de se deslocarem a rua, nos disponibilizamos para ajudar com idas ao mercado, à farmácia ou outra necessidade”. “É o que nos resta: monitorar quem precisa ser monitorado e ajudá-los”, complementa Karen.

Além dos moradores, startups e empresas consolidadas adotaram medidas para combater o contágio do vírus em países com situações piores que a brasileira, como a Espanha. Lá, a empresa de big data Hocelut lançou o site coronavirus.org com o apoio do Google para ajudar na identificação dos diferentes casos da Covid-19 pelo país. A startup de educação Tutellus divulgou um curso básico gratuito de medicina preventiva com informações sobre a doença, enquanto a Fundação Cotec iniciou um estudo para desenvolver aparelhos de respiração artificial através de impressoras 3D, visando facilitar a distribuição e venda para as pessoas infectadas pelo novo coronavírus. No Brasil, a iniciativa tecnológica mais próxima foi governamental, quando o Ministério da Saúde lançou o aplicativo para celular Coronavírus – SUS, que informa a população quando é o momento de procurar um posto de saúde de acordo com os sintomas descritos. Na entrevista coletiva desta terça, Mandetta pediu para que grupos de voluntários ajudem a cuidar de asilos, lugares onde a concentração do grupo de risco é muito grande.

“Eu já vejo um altruísmo melhor, mas as pessoas só estão dispostas a ajudar quando a saúde delas já está garantida”, pontua Karen. “Mas acaba sendo algo natural, de sobrevivência. Até porque não dá para colaborar com o outro se você mesmo não tomar as devidas precauções”, complementa. A cozinheira, cujo apartamento tem vista para a Praça da República, um dos pontos mais movimentados do centro da capital, ainda reclama que tem visto muitas pessoas andando em grupos “todos bem tranquilos ainda”. “Ainda não está acontecendo, mas vai chegar uma hora que todos terão que dar o mesmo grau de importância à situação”, conclui.

Bancos de sangue sofrem com baixo estoque em SP

Outra forma de colaborar com a situação da saúde pública na cidade é indo aos postos de coleta de sangue para a Fundação Pró-Sangue, instituição pública responsável pelo abastecimento de sangue dos hospitais da Grande São Paulo. Não porque a coleta de sangue ajudará no combate direto ao coronavírus, mas porque a fundação está sofrendo com baixos estoques devido a pandemia. “Quem tem coronavírus não precisa de um tratamento envolvendo uma demanda alta de bolsas de sangue. O nosso problema é que as pessoas não estão vindo doar por conta das restrições e do medo de contágio”, afirmou a Pró-Sangue através da assessoria.

Atualmente, as bolsas de sangue estão operando em 40% da reserva necessária. Os sangues do tipo O+, O- e B- só tem bolsas para mais um dia de operação, enquanto A- e A+ conseguem atender por mais dois dias. A Pró-Sangue faz questão de ressaltar que está adotando as medidas necessárias para que não haja risco de contágio do vírus durante a doação, como o aumento do número de agendamentos individuais para diluir o número de doadores durante o dia, a disponibilidade de álcool gel em todos os cômodos de todas as unidades e a alteração da disposição das cadeiras para evitar aglomerações nas salas. “Além disso, seguimos um rigor sanitário no procedimento e no material utilizado no doador, que é de uso único, de forma que não há risco de contaminação”, explicou a instituição.

A Pró-Sangue reforça o caráter preocupante da situação e garante a segurança de quem for ao posto doar sangue. Para ser um doador, é necessário ter entre 16 e 69 anos de idade, pesar mais de 50 quilos e levar um documento original com foto. Recomenda-se evitar alimentos gordurosos nas quatro horas que antecedem a doação e 12 horas no caso de bebidas alcoólicas, além de esperar sete dias após a recuperação em caso de gripe ou resfriado. Se a pessoa não estiver nas condições ideais de saúde, ela será orientada durante o processo de triagem, que antecede a doação.

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