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 CRÔNICA

           Balada pós-chuva e a profecia do velho Raul

 

          Janio Ferreira Soares

 

O sol ainda não revelou as garças que sei pousadas nas algarobas, mas por trás delas já dá pra ver o vulto de uma canoinha deslizando entre as baronesas que o vento norte trouxe lá do Moxotó e que, fosse nos 70 pré-barragens, despencariam nas cachoeiras de Paulo Afonso e seguiriam nos cânions até encontrar o mar.

No açude sangrando, sapos e jias modulam sons numa tonalidade como de há muito não ouço. Show? Exibição? Medo? Nada disso. A cantoria que se estende desde a madrugada é mais uma espécie de louvação ao que deve ser louvado, como sabiamente já cantava outro velho cururu baiano quando queria deixar o que era ruim de lado.

Júlio e Edgard, coitados, ainda assombrados com os trovões, balançam os rabos e me olham com um olhar de “pelo amor de Deus, patrão, me explique à origem daqueles rugidos vindos do Céu e que, ô susto dos infernos, pareciam saídos da boca de um sanguinário predador surgindo em forma de lampejos só pra comer cachorro que não gosta de tomar banho”.

Calço as botas de pisar espinhos e saio à procura das mangas derrubadas pelos ventos, que, por derradeiras, estão mais valorizadas do que o dólar furado do xerife Guedes. À minha esquerda, manguitas de fazer diabético passar longe se espalham pelo chão, enquanto ao lado umas espadas clamam por dentes sem medo da agonia dos fiapos enganchados nos últimos molares. Aproveito pra ver se está tudo bem com um ninho de um beija-flor num galho transverso, que de tão perfeito lembra um cálice por onde girou um enrubescido Porto que um dia bebi no Douro.

Tudo bem com os bruguelos, sigo pra coar um café meia-tigela com nome do santo que mães invocam quando seus filhos se engasgam, sempre na vã expectativa de que goteje na térmica algo parecido com um expresso extraído de uma legítima Lavazza italiana. Decepção novamente fumaçando na xícara pego o rodo e parto pra limpar a água das inesperadas goteiras, todas causadas pela dilatação dos rejuntes de cumeeiras desacostumadas com tamanho arrojo pluviométrico.

Agora o sol já está naquela altura em que a labuta rouba o espaço da poesia e sigo pra cidade. Como lá só se fala no Covid-19, volto ao meu antídoto rural e me lembro da canção “O Dia em Que a Terra Parou”, atualíssima profecia de Raul, cujos versos já previam que o trabalhador não iria trabalhar, pois sabia que o patrão não estava lá, que os fiéis não sairiam pra rezar, pois sabiam que o padre não estava no altar, e que os pacientes não iriam se tratar, pois sabiam que o doutor não tinha ido clinicar.

Mudo o disco e, nesses tempos onde um vírus ameaça o mundo, o jeito é discordar de Tom Jobim e dizer que, talvez seja possível, sim, ser feliz sozinho. O resto é mar, é rio e é esse afinadíssimo coaxar que continua ecoando pelas poças do caminho.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

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