ARTIGO (Ponto de vista)

Histeria e realidade do Coronavírus

Joaci Góes

Ao eminente médico e querido amigo Francisco Hora!

É fora de dúvida que nunca houve na história da humanidade um acontecimento que unificasse as preocupações gerais em torno da segurança comum quanto a recente aparição do Coronavírus, não obstante sua comprovada baixa letalidade, em comparação com vários outros males que afetam a saúde e a vida das pessoas. Em grande medida, o temor reinante deriva dos ecos emocionais produzidos pelo flagelo da Peste Negra que, na Idade Média, dizimou um terço da população europeia, nos seis anos compreendidos entre os longínquos 1347 e 1353.

A doença tinha a pulga como hospedeira da bactéria Yersinia Pestis, causadora do mal que nasceu na Mongólia e se propagou mundo afora através dos barcos que faziam o comércio entre a Ásia e a Europa. Genoveses que guerreavam os mongóis, na península da Crimeia, no ano de 1346, foram o meio de transporte daquela pandemia macabra que passou a encarnar a expressão máxima dos males que podem afetar a vida humana.

É verdade que outras ocorrências ameaçaram de extinção o homo sapiens, a ponto de haver quem sustente que em determinado momento do estágio inicial de nossa espécie, quando ainda restrita ao Continente Africano, o contingente humano baixou para magros cinco mil, entre machos e fêmeas, daí se espraiando para compor os sete bilhões de pretensiosos filhos de Deus que povoam o Planeta.
Como Ele dá o frio conforme o cobertor, para nos contrapormos à notável velocidade de propagação dos vírus, na atualidade, graças às facilidades das comunicações físicas interpessoais, proporcionadas pelos meios de comunicação, dispomos de um aparato científico que, se disponível na Idade Média, sequer teria permitido o registro histórico da peste que ocasionou a maior hecatombe da História.

Ainda que se encontre a meio caminho o conjunto das medidas, adotadas pelas diferentes nações, para vencer a presente ameaça à segurança humana, é inegável que está em adiantado e animador estágio sua orquestração científica, de um modo que não tira o sono de quem não acredita em chifres na cabeça de cavalos. A experiência da própria China, a nação mais populosa, onde nasceu o Coronavírus, nos fornece essa tranquilidade estatística, mesmo que os percentuais de letalidade, reconhecidamente maiores entre os mais velhos, sejam bem menores do que outros males cronicamente atuantes, sem que a humanidade quebre suas rotinas por medo de seu contágio. No caso do Coronavírus, já se pode inferir, sem medo de erro, que os males decorrentes das medidas gerais para sua contenção serão muito mais graves do que as ofensas de que será capaz, em razão da redução do PIB mundial que vai afetar a qualidade de vida, a saúde e a longevidade de um grande número de pessoas, sobretudo as mais carentes e em países subdesenvolvidos, do Brasil para baixo.
De tão majoritária e forte, a pressão coletiva sobre os que não se deixam levar pelo pânico é paralisante. Eu mesmo, vou adiar a realização da caminhada para Compostela, programada para começar neste fim de mês, para quando só Deus sabe, em razão do invencível boicote familiar da mulher, filhos e netos. Octogenário que sou, o Caminho para Compostela seria um itinerário dotado de charme excepcional para o derradeiro momento.

Enquanto a centenária Academia de Letras da Bahia mantém sua sessão de abertura dos trabalhos do corrente ano para hoje à noite, registramos, com júbilo, que os numerosos e qualificados integrantes da Caravana Edivaldo Boaventura que neste sábado, dia 14, visita a casa onde nasceu Castro Alves, brindarão, em uníssono, a glória do maior poeta de todos os tempos.

É verdade que há nordestinos, desempregados uns, subempregados outros, dependurados nas encostas uns terceiros, subnutridos, chagásicos, tuberculosos, leprosos, todos sem acesso a saneamento básico, felizes da vida por ser Deus brasileiro, tomando como prova o caráter refratário do Coronavírus a temperaturas altas! “Ah! Estamos seguros”, dizem eles, com um sorriso desdentado de alegre, eleita e resignada beatitude.
Têm razão Goethe, Dostoievski e Octávio Paz, cada um no seu momento e a seu modo, ao concluírem que “as realidades imaginárias compelem mais a conduta humana do que as realidades reais”.

Joaci Góes é escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia. Artigo pubicado ma TB, nesta quinta-feira, 12.