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09
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PARABÉNS, JOCA!

Do Bahia em Pauta a João Carlos Teixeira Gomes: o artigo de Edmilson Caminha sobre “Geração Mapa”, o livro de Joca, pela Caramurê. Com todas as honras e louvores devidos ao Pena de Aço do jornalismo da Bahia, que neste 9 de março festeja mais um aniversário de nascimento. Viva!!! ( Vitor Hugo Soares, editor do Bahia em Pauta.

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Edmilson Caminha

ARTIGO

A GERAÇÃO QUE DEU UM MAPA À CULTURA DA BAHIA

Edmílson Caminha

 

Se me pedissem escolher os dez maiores intelectuais brasileiros contemporâneos, um dos primeiros seria o baiano João Carlos Teixeira Gomes. Jornalista, professor, poeta, ensaísta, biógrafo, cronista, contista, romancista, João Carlos é dos poucos a pensar com a própria cabeça, diferentemente da legião que se conforma com dizer o já dito e escrever o já escrito. Obras como Camões contestador e outros ensaios (1979), Gregório de Matos, o Boca de Brasa: um estudo de plágio e criação intertextual (1985) e A tempestade engarrafada (1995) estão, sem favor nenhum, entre as mais importantes do gênero já publicadas no Brasil, em todos os tempos. A elas junta-se, agora, Geração Mapa (Salvador : Caramurê, 2019), sobre o movimento que agitaria a cultura baiana no fim da década de 1950.

No Colégio Estadual (também conhecido por Central) da Bahia, estudantes vão além das aulas e das provas e lançam revista a que dão o nome de Mapa, título de poema do modernista mineiro Murilo Mendes. Um dos versos, “Viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente”, era repetido em alta voz pelo inquieto aluno Glauber Rocha, depois cineasta internacionalmente consagrado, como expressão maior do Cinema Novo. Com ele, no grupo, João Carlos Teixeira Gomes, Fernando da Rocha Peres, Paulo Gil Soares, Calasans Neto, Sante Scaldaferri e vários outros, a quem mais tarde se acrescentariam João Ubaldo Ribeiro, Sônia Coutinho e David Salles, promessas que logo se cumpririam na literatura, na imprensa e nas artes plásticas.

Atenta ao que se passava fora daquela provinciana Salvador, sabia a turma da existência dos “Jograis de São Paulo”, atores como Armando Bógus, Rubens de Falco, Ítalo Rossi e Ruy Affonso, que davam recitais de poesia em teatros, espaços públicos e até boates. Glauber organiza, então, “As Jogralescas”, para encenar, com recursos da dramaturgia, poemas de Drummond, Bandeira, Vinicius, João Cabral e outros grandes do nosso modernismo. Foram três espetáculos em 1956 e dois em 1957 – o penúltimo, realizado no auditório do colégio, entraria para a história da cultura baiana, pela surpreendente reação que provocou. Dias depois da apresentação, o jornal A Tarde trazia extensa matéria sobre a Jogralesca, promovida por “jovens mal orientados” que, com as mentes “trabalhadas pelas ideias materialistas que dominam o mundo moderno, desprezam tradições” e “vão até o ponto de escarnecer os sentimentos religiosos daqueles que continuam fiéis às suas crenças”. Escreve João Carlos Teixeira Gomes:

Em seguida, o jornal estampava um longo Memorial, encabeçado pela professora Dalva Matos, católica fanática, e com numerosas assinaturas de professores da congregação do colégio (a maioria absoluta dos quais não estivera presente à encenação), exigindo do diretor do Central, professor Moura Bastos, uma “providência edificante” que “contribua para restaurar entre a mocidade o respeito devido às causas nobres e elevadas”. Em certo trecho, patéticos e ridículos, os signatários indagavam: “Aonde querem chegar os nossos jovens?”

A repercussão foi tamanha que suscitou manifesto de apoio aos estudantes da Bahia, com a assinatura de intelectuais paulistas já importantes: Lygia Fagundes Telles, Marcos Rey, Paulo Dantas, José Geraldo Vieira, Bráulio Pedrosa, Mário Donato, Sábato Magaldi, Ricardo Ramos, Décio de Almeida Prado e outros mais.

Oportuno lembrar esses espantosos acontecimentos que, 67 anos depois, parecem-nos assustadoramente atuais, quando governantes brasileiros regridem à inquisição da idade média para desprezar a cultura, proibir obras literárias, ofender artistas e negar o conhecimento científico, a provar que a ignorância é mesmo audaciosa, como certa vez declarou Mão Santa, o folclórico político piauiense. Tempos que nos levam a atualizar o que disse o escritor Ivan Lessa, e melancolicamente reconhecer que, a cada 67 anos, o Brasil esquece o que ocorreu nos últimos 67 anos…

A pretexto de registrar o que ficou da geração a que pertence, João Carlos Teixeira Gomes oferece ao leitor o que bem se poderia chamar História Concisa da Literatura Baiana, como, em 1970, já o fizera Alfredo Bosi, com relação à brasileira. E dá aos escritores da província o valor que têm no conjunto maior das letras nacionais:

A literatura brasileira vai começar, sim, na primeira metade do século XVII, que, significativamente, assinalará um momento de relevo da literatura baiana. Temos então o surgimento de duas figuras de gênio – Gregório de Matos e Guerra e Antônio Vieira – secundadas por um poeta de notável talento, mas até hoje prejudicado na sua avaliação pelos preconceitos contra o Barroco, cultivados durante longos anos pela nossa historiografia literária: Manuel Botelho de Oliveira.

 

Autor da Música do Parnaso, que escreveu em latim, português, espanhol e italiano, é dele o poema “Oitavas à Rosa”, com dois belíssimos versos em louvor da mulher amada: “Não queiras, não, perder em teu desgosto / Do dezembro da idade o abril do rosto”.

Brilhante professor que engrandeceu o curso de Letras da Universidade Federal da Bahia, o escritor como que volta às salas de aula, ao discorrer, com originalidade, sobre as criativas soluções poéticas de que fez uso o condoreiro Castro Alves:

Em O Navio Negreiro, por exemplo, há um trecho em que o poeta quer dar ao leitor a possibilidade de “visualizar” o interior da nau tumbeira para comovê-lo pela contemplação direta da desgraça. Mas como fazê-lo? De que maneira trazer o leitor “por cima” da nau, se no mesmo nível do barco – dentro do mar, portanto – nada se poderia ver? É aí que lhe ocorre a ideia genial, concretizada com igual mestria no plano do poema. Toma ele de uma ave – o albatroz – em pleno voo e, tal como se fosse uma câmera cinematográfica que verrumasse o porão do navio, faz com que o leitor veja a cena degradante através dos olhos do albatroz.

E apresenta os versos que ilustram o comentário:

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!

Desce mais… inda mais… Não pode olhar humano

Como o teu mergulhar no brigue voador!

Mas que vejo eu aí… Que quadro de amarguras!

Que funéreo cantar!… Que tétricas figuras!…

Que cena infame e vil… Meu Deus! meu Deus! que horror!

 

Donde se pode concluir que, fosse diretor de cinema como o conterrâneo Glauber, Castro Alves lançaria mão de um drone para filmar as entranhas monstruosas do navio negreiro…

Ao falar sobre o romântico Junqueira Freire, reproduz passagem que comove pela riqueza humana de que se reveste:

Não, não é louco. O espírito somente

É que quebrou-lhe um elo da matéria.

Pensa melhor que vós, pensa mais livre

Aproxima-se mais à essência etérea.

Agora está mais livre. Algum atilho

Soltou-se-lhe do nó da inteligência;

Quebrou-se o anel dessa prisão de carne

Entrou agora em sua própria essência.

 

E vê no poeta baiano, da primeira metade do século XIX, um precursor do movimento que, cem anos depois, viria a defender o fim dos manicômios e da segregação social de pessoas com intercorrências psíquicas:

A negação da loucura como enfermidade é uma tese grata a certas correntes da psiquiatria moderna. Junqueira Freire antecipou-se de certo modo a elas. Viu a loucura não como uma conflagração do indivíduo consigo mesmo ou com o mundo circundante, mas sim como um reencontro com as suas verdades mais íntimas e pessoais. Pensar assim no século XIX é uma concepção diversa da que se nutria em relação ao problema, encarado com pavor.

 

Palavras que me lembram um excelente livro, Loucos Egrégios (1979), de Juan Antonio Vallejo-Nagera, em que o psiquiatra e escritor espanhol vai de Caravaggio a Van Gogh, de Farinelli, Il Divino Castrato, a Nijinski, para mostrar como são tênues as fronteiras entre a genialidade e a loucura. Coincidência: li-o recomendado pelo ensaísta da Geração Mapa, quando nos conhecemos em Fortaleza, no início da década de 1980.

São, pois, 40 anos de uma amizade que me honra e enobrece, como testemunha da grandeza humana, da força moral e da vastidão do saber de João Carlos Teixeira Gomes, participante da geração que fez história na Bahia e com tanto mérito a representa na cultura brasileira.

Edmilson Caminha é escritor, jornalista, professor de literatura brasileira e de língua portuguesa

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