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Postado em 05-03-2020
Arquivado em (Artigos) por vitor em 05-03-2020 00:14

DO EL PAÍS

Atriz chega a secretaria especial no mesmo dia em que Governo exonera dirigentes do setor

O presidente Jair Bolsonaro dá posse à secretária especial da Cultura do Ministério do Turismo, Regina Duarte
O presidente Jair Bolsonaro dá posse à secretária especial da Cultura do Ministério do Turismo, Regina DuarteAntonio Cruz (Agência Brasil)
 Joana Oliveira

Chegou ao fim o noivado entre a atriz Regina Duarte e o presidente Jair Bolsonaro. Depois de um mês e meio de negociações, em que Duarte viajou a Brasília para conhecer a estrutura da pasta, ela tomou posse nesta quarta-feira como secretária especial da Cultura, com a missão de encerrar a rotatividade da pasta e o desafio de erguer uma bandeira branca na conturbada relação do Governo com a classe artística. “Meu propósito aqui é a pacificação e o diálogo permanente com o setor cultural”, disse ela durante a cerimônia de posse. Poucas horas antes, depois de já ter exonerado servidores ligados ao escritor Olavo de Carvalho, virou alvo de olavistas nas redes, que se manifestaram colocando a hashtag #foraregina como o assunto mais comentado no Twitter. Na segunda-feira, 2, Carvalho já havia questionado publicamente a atriz sobre como seria sua atuação à frente da Cultura e afirmou que a nomeação dela só foi possível com seu aval. Nesta quarta, no evento, ela afirmou: “O convite [de Bolsonaro] falava em carta branca, não vou esquecer”.

Nesta quarta-feira, o Governo publicou 12 exonerações de servidores em cargos de chefia na Secretária Especial da Cultura, entre eles o agora ex-presidente da Fundação Nacional de Artes (Funarte), Dante Mantovani, que, em vídeo, disse que o rock leva “ao aborto e ao satanismo”. Próximo à atriz e presidente do órgão na gestão Dilma Rousseff (PT), o produtor Humberto Braga é cotado para voltar ao Governo e ocupar o cargo de Mantovani. A atriz também convidou o ator Carlos Vereza, outro ferrenho apoiador de Bolsonaro, para ser o número dois da Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto, que administra a TV Escola.

Outros exonerados pela nova administração também pertencentes à ala olavista incluem Ricardo Freire Vasconcellos, diretor do Departamento do Sistema Nacional de Cultura; Paulo César do Amaral, presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram); Reynaldo Campanatti, secretário de Economia Criativa; Camilo Calandreli, secretário de Fomento e Incentivo à Cultura; Ednagela dos Santos Barroso dos Santos, diretora do Departamento de Promoção da Diversidade Cultural; Maurício Noblat Waissman, coordenador-geral da Política Nacional de Cultura Viva; Raquel Cristina Brugnera, chefe de gabinete da Secretaria da Economia Criativa; Gislaine Targa Neves Simoncelli, chefe de gabinete da Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura; Leônidas José de Oliveira, diretor-executivo da Fundação Nacional de Artes (Funarte); Marcos Villaça, secretário de Direitos Autorais e Propriedade Intelectual e Rodrigo Junqueira, secretário de Difusão e Infraestrutura Cultural.

Apoiadores de Olavo de Carvalho comentam nas redes sociais que essas exonerações são um indício de que Regina Duarte estaria alinhada com a esquerda política e acusam-na de ser “psolista”, “esquerdista” e “petista”.

A deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP) defendeu a nova secretária da Cultura no Twitter: “Respeitem Regina Duarte!”, escreveu, acrescentando que “desse jeito, quem vai derrubar o presidente é a turma que diz que o apoia”.

“Não conseguem ver que uma pessoa séria como Regina Duarte já está apanhando dos malucos da esquerda? Querem que ela aguente também os doidos da direita? Aliás, ela também apanha dos arrependidos de Bolsonaro. Não dá!”, escreveu Paschoal em outro tuíte.

Cerimônia de posse

Prestigiada por alguns representantes da classe artística e diversos políticos, Regina Duarte discursou na cerimônia de posse em prol da democratização e descentralização territorial da cultura, “para que toda a população possa desfrutar da nossa magnífica produção cultural”. A cultura, afirmou, “não é privilégio dos grandes centros”.

A secretaria também fez uma sutil referência ao corte de Orçamento no setor: “Acredito que é possível fazer muita cultura, arte mesmo, com os recursos que temos. Acredito também que se possa fazer mais com mais. Vamos passar o chapéu, se a vontade é de fazer mais, de fazer grande, e os recursos são escassos”, disse.

O presidente, ao dar as boas-vindas a Duarte, afirmou que, “ao longo da última década, a cultura foi cooptada pela política e usada para interesses políticos partidários” e que essa não era “a cultura que deveria ser desenvolvida com dinheiro público no Brasil”.

“O que muitos têm na cabeça é que sou uma pessoa que está longe de amar a cultura”, disse Bolsonaro ao afirmar que a nova secretária terá “liberdade para escolher seu time”, apesar de alertá-la de que ele poderá vetar nomes. “Obviamente, eu exerço o poder de veto em alguns nomes. Já o fiz em todos os ministérios, até para proteger a autoridade. Isso não é perseguir ninguém. É colocar o ministério e as secretarias na direção que foi tomada pelo chefe do Executivo e que foi acolhida naquele longo tempo de pré-campanha”, disse.

Segundo o presidente, Duarte é uma pessoa que “pode valorizar a Lei Rouanet, tão mal utilizada no passado”. Para o presidente, essa lei “deve atender artistas em início de carreira ou aqueles que precisam de ajuda para se consolidar no mercado”. O presidente reconheceu que Duarte passará por um “momento probatório”, mas que tem seu apoio. “Você não esta vendo um brucutu ao seu lado, você está vendo um amigo”, disse a ela, rindo.

Duarte, apoiadora de Bolsonaro desde as eleições, foi convidada pelo presidente para assumir a pasta no dia 17 de janeiro, depois da demissão do dramaturgo Roberto Alvim, afastado por parafrasear em um vídeo o ministro nazista Joseph Goebbels. Duarte disse o “sim” duas semanas depois e, no final de fevereiro, assinou a rescisão do contrato de mais de 50 anos com a Rede Globo. Agora, ela é a terceira pessoa a comandar a Secretaria de Cultura desde o início do Governo Bolsonaro —José Paulo Soares Martins foi secretário-adjunto da pasta e secretário de Fomento e Incentivo à Cultura durante dois meses, de forma interina, antes de Alvim—.

Duarte, considerada um ícone da teledramaturgia brasileira, já se mostrou como defensora da indústria audiovisual no país —como quando usou seu perfil no Instagram para publicar cartazes de filmes nacionais em protesto pela retirada dos mesmos do site daAgência Nacional do Cinema (Ancine)—, mas terá também que lidar com temas como economia criativa, direitos autorais, preservação do patrimônio histórico e democratização do acesso a teatros e museus, entre outros. Ela comandará uma estrutura vinculada ao Ministério do Turismo.

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