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Postado em 01-03-2020
Arquivado em (Artigos) por vitor em 01-03-2020 00:09
 

DO EL PAÍS

Diretor foi alvo de protestos e farpas de feministas e artistas depois das últimas acusações de estupro atribuídas a ele, na cerimônia de premiação mais polêmica da história do cinema francês

As atrizes Noémie Merlant (no centro) e Adèle Haenel (à direita) deixam a cerimônia após o anúncio do prêmio a Polanski, nesta sexta-feira. Em vídeo, protesto contra Roman Polanski na entrada do César. Foto: GETTY | Vídeo: REUTERS

Por um momento, parecia que o gás lacrimogêneo chegaria ao tapete vermelho. Realmente esteve perto, mas na hora em que as grandes estrelas começaram a chegara para a 45ª cerimônia do César, principal prêmio do cinema francês, ele já havia se dissipado. Quem não se dispersou foram as centenas de feministas que protestavam contra o cineasta Roman Polanski na noite da sexta-feira nos arredores da Sala Pleyel, em Paris. Tampouco se dissipou a indignação — nem dentro nem fora do auditório da cerimônia— que cercou toda essa premiação, dado o número recorde de indicações do novo filme do realizador franco-polonês, J’Accuse – O Oficial e o Espião, apesar das novas acusações de estupro atribuídas a ele, o que levou críticos e manifestantes a qualificarem a festa parisiense anual como “o César da vergonha”.

“Há 12 momentos em que teremos um problema nesta noite”, antecipou, no início da cerimônia, a apresentadora da festa, a humorista Florence Forestier, em referência às 12 estatuetas a que o filme de Polanski concorria. Acabou levando só três, embora dois deles tenham sido dados pessoalmente ao diretor, que estava ausente: melhor direção e melhor roteiro adaptado.

“Bem-vindos à última, digo, à 45ª cerimônia do César”, continuou, entre risos e sorrisos do público, alguns deles bastante tensos. A atriz Sandrine Kiberlain, que comandava a cerimônia, corrigiu-a discretamente ao qualificar esta como “a última cerimônia do César de uma época, e o princípio de outra”, após um ano “simbólico da palavra liberada destas vozes valentes que se elevaram e que farão que nunca mais se sofra o intolerável”, em referência às denúncias feitas por atrizes como Adèle Haenel, que se tornou um dos rostos do #MeToo francês ao acusar o cineasta Christophe Ruggia de ter abusado sexualmente dela quando era adolescente. O fato de não levar o César de melhor atriz, finalmente concedido a Anaïs Demoustier (Alice e o Prefeito), fez que se perdesse provavelmente um dos discursos mais políticos da noite. Às vésperas da cerimônia, Haenel disse ao The New York Times que “premiar Polanski é cuspir na cara de todas as vítimas. Ou seja: ‘Não é tão grave estuprar as mulheres’”. A atriz deixou o auditório após o anúncio do prêmio de melhor diretor a Polanski. Não foi a única: ao menos uma dezena de convidados recusou-se nesse momento a continuar acompanhando a cerimônia mais controvertida da história do César. A apresentadora da festa se negou, segundo jornalistas, a sair na foto final e, na sua conta do Instagram, declarou-se “enojada”.

Mesmo assim, Forestier não errou em suas previsões. Nem sequer o anúncio do realizador franco-polonês de que não iria à cerimônia —secundado horas depois por toda a equipe de J’Accuse, uma recriação do caso Dreyfuss— acalmou os ânimos. A tensão era evidente na plateia, repleta de artistas que nas últimas semanas manifestaram abertamente sua irritação com a Academia do Cinema da França, mas que afinal não aproveitaram os discursos da cerimônia para denunciá-la. Em todo caso, não era só por Polanski. Este, afinal, é apenas um sintoma do que consideram ser um problema muito mais amplo do cinema francês: a opacidade na gestão e a falta de paridade e de diversidade entre os membros e dirigentes da Academia que os rege, o que estaria levando a situações como a chuva de indicações a Polanski, ou a que, em seus 45 anos de história, só uma mulher, Tonie Marshall, tenha recebido o César na prestigiosa categoria de melhor direção. E isso foi há 20 anos. Poderia ter mudado a história esta noite se tivesse ganhado Céline Sciamma por Retrato de uma Jovem em Chamas, mas será preciso esperar pelo menos mais uma edição.

Numa tentativa de apaziguar o descontentamento, a academia, cuja direção se demitiu coletivamente há menos de duas semanas por sua incapacidade de frear a crise, fazia alguns gestos às vésperas da cerimônia. Além de ter uma mulher como apresentadora principal, também anunciou a nomeação interina, até a aprovação de novos estatutos mais igualitários nos próximos meses, de outra mulher para dirigir a Academia do César, a produtora Margaret Menegoz. Como cereja do bolo, outra mulher, a atriz Sandrine Kiberlain, presidiu a cerimônia.

Nem Forestier nem Kiberlain ocultaram a dificuldade em apresentar uma cerimônia cercada de tanta pressão e mal-estar, e com o nome de Polanski —que evitaram citar, referindo-se a ele como Popol, entre outros— e os abusos sexuais no cinema rondando toda a cerimônia. Nos minutos iniciais, Forestier já lançou os “elefantes” da cerimônia: fez brincadeiras sutis, mas suficientemente evidentes, sobre a diversidade (ou sua ausência), sobre a falta de mulheres indicadas, falou dos “predadores, perdão, produtores” no mundo do cinema e “assediou” sexualmente um dos bailarinos antes de mandá-lo para trás do cenário com a promessa de “lhe preparar alguns contratos”.

O principal prêmio da noite, o César de melhor filme, foi para seu grande rival, Os Miseráveis, de Ladj Ly —o duro retrato da violência na banlieue parisiense—, e que também recebeu o maior número de estatuetas, quatro (com o prêmio do público, ator-revelação e montagem). Na rua, as manifestantes voltavam a clamar contra “o César da vergonha”.

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