ARTIGO

Ponto de vista

O Papa e Fernandinho Beira-Mar

Joaci Góes

Aos bons amigos Cida e Carlos Eduardo Barral!

Em tempos de pesquisas que medem tudo, as opiniões que nelas não se apoiem podem oscilar entre pouca e nenhuma credibilidade. Tal pode ser o destino de nosso parecer segundo o qual diminuiu no Brasil o prestígio do Vaticano, em razão da atitude do Papa Francisco de receber, com pompa e circunstância, um criminoso comum, Lula, travestido de conselheiro papal para temas de solidariedade humana. Do que tenho notícia, só a bênção concedida pelo Papa PIO XII aos canhões de Mussolini, durante a Segunda Grande Guerra, acarretou tamanho abalo na crença da infalibilidade do Santo Padre.

A Igreja Católica é a mais antiga e sofisticada estrutura de poder. Não é razoável, portanto, supor que o Vaticano não tenha conhecimento de que Lula é um criminoso comum, a quem se tem dado acesso à mais completa defesa, em cada um dos processos que responde e que devem resultar, segundo especialistas, em penas que podem chegar a um século de encarceramento. Permeando os crimes que responde, avulta o maior assalto aos cofres públicos brasileiros de que se tem conhecimento na história da corrupção mundial. E como bem disse o Ministro aposentado da Suprema Corte, Carlos Ayres Britto, quem rouba dinheiro público de país subdesenvolvido comete crime de genocídio, em razão do número elevado de pessoas que sucumbem aos ataques de privações de toda ordem.

Basta lembrar que, no Brasil, metade, da população é carente de saneamento básico de qualidade, na contramão do que recomenda a OMS que aponta esse elemento infra estrutural como o mais importante requisito para a saúde dos povos. Nada menos do que 88% das mortes provocadas por diarreia decorrem de más condições sanitárias. Como resultado final, pode baixar para 54 anos a média de vida dessas populações, vitimadas por empréstimos a fundo perdido, comandados por

Lula da Silva, para países bolivarianos. Roubo e incompetência associados para empurrar o Brasil ladeira abaixo. Não é crível que a sofisticada assessoria do Vaticano ignore essas coisas, fato que suscita especulações da maior gravidade, como a de que o simpático e popular Sumo Pontífice pudesse estar afetado na higidez de suas faculdades cognitivas. É verdade que fotos e vídeos dele ao lado de chefes de estado sanguinários e reconhecidamente avessos à democracia já vêm de longe, contribuindo para que passe a figurar, paradoxal e simultaneamente, como o mais popular e o mais questionado Papa de todos os tempos.

É verdade que, dos cimos de sua infalibilidade, o Santo Padre possa ter razões que escapem ao bestunto do comum dos mortais, sem falar na observância do preceito bíblico que manda condenar o pecado, amando o pecador. O perigo está no precedente que cria, estimulando marginais de toda ordem, de que o mundo está cheio, invocar o princípio da equidade para buscar, num festivo encontro com o Papa, a melhoria de sua imagem pública. Como reagirá o Sumo Pontifex a essa previsível enxurrada de pedidos de audiência?

Uma comparação objetiva entre a criminalidade de Lula e a de Fernandinho Beira-Mar, ou de outro chefe qualquer do crime organizado, conduzirá à conclusão de que Lula é um criminoso muito mais perigoso e lesivo à sociedade do que esses famigerados bandidos primários, incapazes de cooptar parcelas expressivas da opinião pública. Quando e se vier a ocorrer o pedido de qualquer deles, aqui simbolizados em Fernandinho Beira-Mar, estarei na linha de frente para defender o atendimento do pleito, em obediência ao mais elementar princípio da isonomia, no campo do Direito e da Caridade.

A inutilidade do colóquio entre as duas personalidades antípodas, no plano da dignidade, se expressa no preciso diagnóstico atribuído ao Presidente Trump: “O Papa não fará o Lula ser mais respeitado. Mas o Lula fará o Papa perder o respeito”.
Nada mais verdadeiro.

Joaci Góes é escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia. Artigo publicado na edição de 20/2 da TB