CadernoB

RODRIGO FONSECA

Reapresentado às novas gerações no papel do vilão Ozymandias, na série “Watchmen”, da HBO, Jeremy Irons, ganhador do Oscar em 1991, por “O Reverso da Fortuna”, fez um pleito em prol da dimensão de transbordamento do cinema em sua passagem pela abertura do Festival de Berlim, na manhã desta quinta-feira (20). No posto de presidente do júri da briga pelo Urso de Ouro de 2020, o ator inglês de 71 anos falou sobre “filmes com coração”.

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Jeremy Irons na pele do vilão Ozymandias, na série Watchmen, da HBO (Foto: Antonello Montesi)

“Sabe a sensação de acender um cigarro em um ambiente e ver o cheiro se espalhar, imprimindo o cheiro na percepção alheia? É assim que um bom filme reverbera pela nossa memória. Há filmes que permanecem, porque eles têm uma magia que consegue tocar as pessoas. É como se fosse uma miríade, uma experiência única. O que a gente espera encontrar aqui, em nosso trabalho de imersão, nos próximos dez dias, é encontrar um ou dois filmes que tenham essa magia”, disse Irons, visto recentemente no papel de Alfred Pennyworth, o mordomo do Bruce Wayne em “Batman vs. Superman”. “Eu lembro de ter levado meu filho para ver ‘Luzes da Cidade’ quando ele era ainda pequeno e lembro de ter rido sem parar, de passar mal, tendo um prazer singular. Existem filmes que, apesar do tempo, ficam com a gente”.

No júri de Irons estão a atriz francesa Bérénice Bejo; a produtora alemã Bettina Brokemper; a diretora palestina Annemarie Jacir; o dramaturgo e cineasta americano Kenneth Lonergan; o ator italiano Luca Marinelli; e o cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, ainda em cartaz no Rio com “Bacurau”, codirigido por Juliano Dornelles. A pedido do JB, o cineasta comentou a morte de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, ocorrida na quarta. “Perdemos um dos pilares do cinema de gênero no Brasil”.

A tarefa de Irons e seus companheiros é atribuir sete prêmios (o Urso, Prêmio Especial do Júri, Contribuição Artística, Direção, Roteiro, Atriz e Ator) e uma láurea especial, o Troféu do 70º aniversário. Num papo com o Jornal do Brasil, ele comentou que a responsabilidade política que assumiu na vida é “aproveitar a arte para dar visibilidade a lutas éticas importantes, que carecem de atenção, como as causas ecológicas, a luta contra o aquecimento global, o pleito pelos direitos humanos”.

A partir desta sexta, começa a briga pelos Ursos em Berlim, sob os auspícios de Irons. Logo na largada da corrida por prêmios, que conta com 18 concorrentes, está o argentino “El Prófugo”, de Natalia Meta. É um thriller sobre uma dubladora assombrada por fantasmas. Já para o sábado, a grande expectativa da Berlinale é a projeção, em concurso, de “O Sal das Lágrimas” (“Le Sel Des Larmes”), do artesão francês Philippe Garrel, na ativa desde 1968. A trama aborda um triângulo amoroso de um jovem com duas moças que tomam seu coração de assalto. No domingo é dia de a capital alemã conferir o concorrente do Brasil ao Urso dourado: “Todos os Mortos”, de Caetano Gotardo e Marco Dutra. Nele, a jovem Iná (Mawusi Tulani) é a testemunha da reconfiguração moral de seu país, no fim do sécul XIX, após a abolição, vendo seus patrões reaprenderem seu lugar na sociedade.

Neste domingo, às 23h, o ganhador do Urso de Ouro de 2019, “Sinônimos” (“Synonymes”), do diretor israelense Nadav Lapid, será exibido no Canal Brasil. Objeto de culto na Alemanha, por sua engenharia narrativa requintada, o filme é o retrato de um imigrante israelense que busca um lar em Paris, às custas do apagamento de seu passado, de suas raízes, de sua língua. Yoav (Tom Mercier, numa atuação estonteante) é um jovem que chega à França cheio de sonhos e de aversões ao país que deixou para trás. Mas trocar uma nacionalidade pela outra é uma tarefa carregada de um ônus existencialista: ele tem que ir à embaixada muitas vezes, não consegue se livrar de sua língua natal e se vê cercado de sombras xenófobas. É o preço do pertencimento. “Abrir mão de sua língua materna é um sacrifício, que começa com o gaguejar de novas expressões, vai para o sussurro de novos verbetes. Isso, na tela, na imagem, dá para a linguagem verbal uma dimensão cinemática, que eu expresso a partir de enquadramentos, de movimentos de câmera”, explicou Lapid ao JB, em entrevista por email. “Na nossa língua natal, tudo sai automaticamente. Nas línguas que nós adotamos, cada palavra é pensada, para se adequar às imagens que desejamos transmitir. O cinema é uma língua, com códigos próprios. Quando eu expresso Israel nessa língua, a das imagens em movimento, alternos momentos de quietude com trechos barulhentos, de muita fala. Às vezes, personagens como Yoav falam como metralhadoras e, às vezes, refugiam-se no silêncio absoluto. É o processo da linguagem”.

A Berlinale 2020 chega ao fim no dia 1º de março.

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