DO DIÁRIO DE NOTÍCIAS (DE PORTUGAL)

Estamos em 2020 e desde o ano passado acumulam-se as efemérides ligadas aos 75 anos do fim da Segunda Guerra Mundial. Já se celebrou o Dia D, também a libertação de Auschwitz pelo Exército Vermelho, em maio será a vez de se celebrar a derrota de Hiltler. E em agosto também há que recordar as bombas sobre Hiroxima e Nagasáqui que terminaram com o conflito na frente asiática.

Em termos comparativos, os 75 anos da tomada de Monte Castelo são quase um pormenor, e os próprios historiadores brasileiros são pragmáticos, reconhecendo o heroísmo das tropas mas não alinhando na ideia de que se tratou de uma batalha fundamental, como pretendia certa propaganda dos tempos da ditadura militar. O verdadeiro valor de Monte Castelo e de Montese é servirem para relembrar o compromisso do Brasil com o mundo ocidental, e mesmo que o presidente Getúlio Vargas tivesse entre os seus próximos alguns germanófilos, e o seu Estado Novo tivesse inspiração fascista, a declaração de guerra à Alemanha chegou em 1942, sofrendo o país a retaliação dos submarinos nazis. Também na Primeira Guerra Mundial, o Brasil esteve ao lado de americanos, britânicos e franceses contra as potências centrais.

Há um ano, Donald Trump levantou a possibilidade de o Brasil vir a integrar a NATO, fazendo vista grossa a que a sigla se refira a uma aliança de países do Atlântico Norte, quando o Brasil é uma potência do Atlântico Sul. Depois das palavras, o presidente americano passou aos atos e conferiu ao Brasil em agosto o estatuto de aliado extra-NATO, o que facilita o acesso a armamento e tecnologia militar. Na América Latina, só a Argentina estava até agora nesse restrito grupo de 16 países, que inclui Japão, Coreia do Sul e Austrália. Colosso regional, sem verdadeiros inimigos nas fronteiras, o Brasil gasta relativamente pouco em defesa (28 mil milhões de dólares anuais, ao nível da Itália) e tem por tradição emprestar os seus militares à ONU, tendo-se estes destacado no Haiti e na República Democrática do Congo.

A ideia de uma aliança estratégica entre os Estados Unidos e o Brasil é antiga. O abade Correia da Serra, embaixador português amigo de Thomas Jefferson e de James Madison, defendeu-a com insistência quando a corte de D. João VI estava no Rio de Janeiro. E se a parceria nunca se concretizou, sobretudo porque James Monroe não sofria do mesmo encantamento que Jefferson e Madison pela sabedoria do abade, os Estados Unidos apressaram-se a reconhecer em 1824 a independência brasileira, uma monarquia, quando tinham tido, tantos anos, dúvidas com as repúblicas de língua espanhola. Monroe, aliás, reconheceu o novo país poucos meses depois do discurso que deu origem à famosa doutrina da América para os americanos. E Silvestre Rebelo, o embaixador enviado a Washington pelo imperador D. Pedro I, fez alusão a esse discurso para justificar o estabelecimento de relações diplomáticas.

Não é, assim, novidade nenhuma esta proximidade entre a América de Trump e o Brasil de Jair Bolsonaro. Entre elogios mútuos, os dois presidentes também já tiveram desentendimentos vários, com Trump a não facilitar nas questões da concorrência económica, mas com os parceiros europeus e o Japão faz o mesmo. A ligação estreita é, pois, mesmo uma velha tradição, foi forte durante a Guerra Fria (tirando a questão da não proliferação nuclear), e mesmo no tempo das presidências de Lula da Silva e de Dilma Rousseff manteve-se sem grandes sobressaltos talvez por na Casa Branca estar Barack Obama.

Voltemos a Monte Castelo e à bravura brasileira. Em homenagem àqueles bravos pracinhas, não há título melhor para esta crônica do que o dia em que os soldados brasileiros deram uma surra nos nazistas.

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