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ACM Neto (DEM): folião “pipoca” no Furdunço-2020…

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… e Rui Costa (PT): cabo-de-guerra contra Bolsonaro.

 ARTIGO DA SEMANA

 

Depois do Furdunço na Bahia governadores atiram e Bolsonaro revida

 

Vitor Hugo Soares

A roda do tempo completa seu giro e, mais uma vez, estamos em plena folia. É como na letra do frevo baiano “Deus e o Diabo”, dos Anos 70. Misto de festa de rua com política, crítica social, comportamento e polêmicas de todo lado e para todo gosto:  “Você tenha ou não tenha medo/Nego, nega, o Carnaval chegou/Mais cedo ou mais tarde acabo/De cabo a rabo com essa transação de pavor/O Carnaval é invenção do Diabo/Que Deus abençoou/Deus e o Diabo no Rio de Janeiro/Cidade de São Salvador”.  Parece até que esse frevo foi feito ontem, para incendiar o carnaval da política e do poder em 2020, entre Rio, Bahia e Brasília.

Segue a bagaceira, depois da passagem do Furdunço – a mais  completa expressão do que restou do modelo e do espírito pan ideológico da grande festa de participação popular na Cidade da Bahia dos “anos loucos” no Brasil – na tarde e noite de domingo, 16, até a madrugada de segunda-feira . Destaque para o prefeito da capital, ACM Neto, presidente nacional do DEM, fantsdisdo de folião “pipoca”, na passagem de mini trios, cantores e blocos. “Quem pode, pode, quem não pode se sacode e corre pra Praça da Sé”, dizem outros versos do antigo hino da folia da terra hoje governada por Rui Costa (PT) , que estica a corda de um dos blocos no espantoso cabo-de-guerra em curso no país. O outro lado é esticado pelo presidente Bolsonaro, que deita e rola. “Passado, Presente e Furdunço”,  assinala a manchete doCorreio da Bahia.Na mosca! 

A segunda-feira, 17, amanheceu do jeito que o diabo gosta. A propósito de fazer a defesa do “pacto federativo”, 20 governadores – entre os quais o do Rio, Witzel , o tucano João Dória, de São Paulo, e o inefável Flávio Dino (PC do B) do Piauí – decidem restaurar um estilo político que se imaginava já morto e sepultado: produziram uma carta, com críticas às declarações do presidente da República, sobre a morte do ex – capitão do Bope-Rio (tropa de elite da Polícia Militar fluminense, que virou chefe de milícia), em cerco mal sucedido feito por 70 integrantes de tropa de elite da PM baiana. A carta condena falas nas quais estaria o chefe da Nação “confrontando os governadores” e “se antecipando a investigações policiais para atribuir graves fatos à conduta das polícias e seus governadores”.

Dia 18, em entrevista na qual agradeceu a solidariedade dos colegas, o petista Rui Costa , seguiu no passo, sem baixar o tom diante do adversário instalado em Brasília. Na conversa com jornalistas, para falar sobre ajuda do seu governo ao carnaval soteropolitano, voltou a bater na tecla da morte de Adriano. Defendeu a atuação da sua polícia, avaliando que os agentes estavam diante de um fugitivo disposto a revidar a ação: “Eles agiram dentro da lei. Qualquer cidadão que não tem nada a temer faria o quê? Iria se apresentar. O que ele estava fazendo seguidamente era fugir da ordem policial. Fugiu da primeira vez e tentou fugir da segunda, desferindo tiros contra os policiais.”…
O poder federal contesta. Bolsonaro e os que o cercam insistem na acusação de que o ocorrido em Esplanada não passa de uma operação de “queima de arquivos”. E cobra da polícia e do governo da Bahia, esclarecimentos mais científicos, objetivos e cabais sobre o caso. Quinta-feira, 20, no Rio, o corpo de Adriano da Nóbrega passou por nova perícia no Instituto Médico Legal. Agora a folia toma conta de vez do País. O resto a conferir depois da Quarta-Feira de Cinzas. 
Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail:vitors.h@uol.com.br

 “Sinfonia do Rio de Janeiro de São Sebastião”, Francis Hime:  O tempo passa e ele fica! Bom proveito!

Feliz e tranquilo carnaval para todo mundo que é de folia e paz!!!

BOM DIA!!!

(Gilson Nogueira)

Tasso: “A missão principal é ocupar todos os espaços deixados pela Polícia Militar”

 

O senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) afirmou que o Exército chega ao Ceará com o único objetivo de “tomar conta da segurança na cidade e região metropolitana de Fortaleza e no estado”.

“A missão principal deles hoje aqui é ocupar todos os espaços eventualmente deixados pela Polícia Militar. Eles não vieram aqui para conflito. Não desejam e não é a intenção ter qualquer tipo de confusão. O foco é dar segurança total à população da nossa cidade.”

Jereissati também disse que o general Fernando José Soares da Cunha Mattos, responsável pela operação, garantiu que os militares não entrarão nos quartéis para retirar os policiais amotinados.

“O foco e a preocupação da GLO é dar tranquilidade. A negociação no batalhão é coisa paralela.”

DO DIÁRIO DE NOTÍCIAS (DE PORTUGAL)

Estamos em 2020 e desde o ano passado acumulam-se as efemérides ligadas aos 75 anos do fim da Segunda Guerra Mundial. Já se celebrou o Dia D, também a libertação de Auschwitz pelo Exército Vermelho, em maio será a vez de se celebrar a derrota de Hiltler. E em agosto também há que recordar as bombas sobre Hiroxima e Nagasáqui que terminaram com o conflito na frente asiática.

Em termos comparativos, os 75 anos da tomada de Monte Castelo são quase um pormenor, e os próprios historiadores brasileiros são pragmáticos, reconhecendo o heroísmo das tropas mas não alinhando na ideia de que se tratou de uma batalha fundamental, como pretendia certa propaganda dos tempos da ditadura militar. O verdadeiro valor de Monte Castelo e de Montese é servirem para relembrar o compromisso do Brasil com o mundo ocidental, e mesmo que o presidente Getúlio Vargas tivesse entre os seus próximos alguns germanófilos, e o seu Estado Novo tivesse inspiração fascista, a declaração de guerra à Alemanha chegou em 1942, sofrendo o país a retaliação dos submarinos nazis. Também na Primeira Guerra Mundial, o Brasil esteve ao lado de americanos, britânicos e franceses contra as potências centrais.

Há um ano, Donald Trump levantou a possibilidade de o Brasil vir a integrar a NATO, fazendo vista grossa a que a sigla se refira a uma aliança de países do Atlântico Norte, quando o Brasil é uma potência do Atlântico Sul. Depois das palavras, o presidente americano passou aos atos e conferiu ao Brasil em agosto o estatuto de aliado extra-NATO, o que facilita o acesso a armamento e tecnologia militar. Na América Latina, só a Argentina estava até agora nesse restrito grupo de 16 países, que inclui Japão, Coreia do Sul e Austrália. Colosso regional, sem verdadeiros inimigos nas fronteiras, o Brasil gasta relativamente pouco em defesa (28 mil milhões de dólares anuais, ao nível da Itália) e tem por tradição emprestar os seus militares à ONU, tendo-se estes destacado no Haiti e na República Democrática do Congo.

A ideia de uma aliança estratégica entre os Estados Unidos e o Brasil é antiga. O abade Correia da Serra, embaixador português amigo de Thomas Jefferson e de James Madison, defendeu-a com insistência quando a corte de D. João VI estava no Rio de Janeiro. E se a parceria nunca se concretizou, sobretudo porque James Monroe não sofria do mesmo encantamento que Jefferson e Madison pela sabedoria do abade, os Estados Unidos apressaram-se a reconhecer em 1824 a independência brasileira, uma monarquia, quando tinham tido, tantos anos, dúvidas com as repúblicas de língua espanhola. Monroe, aliás, reconheceu o novo país poucos meses depois do discurso que deu origem à famosa doutrina da América para os americanos. E Silvestre Rebelo, o embaixador enviado a Washington pelo imperador D. Pedro I, fez alusão a esse discurso para justificar o estabelecimento de relações diplomáticas.

Não é, assim, novidade nenhuma esta proximidade entre a América de Trump e o Brasil de Jair Bolsonaro. Entre elogios mútuos, os dois presidentes também já tiveram desentendimentos vários, com Trump a não facilitar nas questões da concorrência económica, mas com os parceiros europeus e o Japão faz o mesmo. A ligação estreita é, pois, mesmo uma velha tradição, foi forte durante a Guerra Fria (tirando a questão da não proliferação nuclear), e mesmo no tempo das presidências de Lula da Silva e de Dilma Rousseff manteve-se sem grandes sobressaltos talvez por na Casa Branca estar Barack Obama.

Voltemos a Monte Castelo e à bravura brasileira. Em homenagem àqueles bravos pracinhas, não há título melhor para esta crônica do que o dia em que os soldados brasileiros deram uma surra nos nazistas.

CadernoB

RODRIGO FONSECA

Reapresentado às novas gerações no papel do vilão Ozymandias, na série “Watchmen”, da HBO, Jeremy Irons, ganhador do Oscar em 1991, por “O Reverso da Fortuna”, fez um pleito em prol da dimensão de transbordamento do cinema em sua passagem pela abertura do Festival de Berlim, na manhã desta quinta-feira (20). No posto de presidente do júri da briga pelo Urso de Ouro de 2020, o ator inglês de 71 anos falou sobre “filmes com coração”.

Macaque in the trees
Jeremy Irons na pele do vilão Ozymandias, na série Watchmen, da HBO (Foto: Antonello Montesi)

“Sabe a sensação de acender um cigarro em um ambiente e ver o cheiro se espalhar, imprimindo o cheiro na percepção alheia? É assim que um bom filme reverbera pela nossa memória. Há filmes que permanecem, porque eles têm uma magia que consegue tocar as pessoas. É como se fosse uma miríade, uma experiência única. O que a gente espera encontrar aqui, em nosso trabalho de imersão, nos próximos dez dias, é encontrar um ou dois filmes que tenham essa magia”, disse Irons, visto recentemente no papel de Alfred Pennyworth, o mordomo do Bruce Wayne em “Batman vs. Superman”. “Eu lembro de ter levado meu filho para ver ‘Luzes da Cidade’ quando ele era ainda pequeno e lembro de ter rido sem parar, de passar mal, tendo um prazer singular. Existem filmes que, apesar do tempo, ficam com a gente”.

No júri de Irons estão a atriz francesa Bérénice Bejo; a produtora alemã Bettina Brokemper; a diretora palestina Annemarie Jacir; o dramaturgo e cineasta americano Kenneth Lonergan; o ator italiano Luca Marinelli; e o cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, ainda em cartaz no Rio com “Bacurau”, codirigido por Juliano Dornelles. A pedido do JB, o cineasta comentou a morte de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, ocorrida na quarta. “Perdemos um dos pilares do cinema de gênero no Brasil”.

A tarefa de Irons e seus companheiros é atribuir sete prêmios (o Urso, Prêmio Especial do Júri, Contribuição Artística, Direção, Roteiro, Atriz e Ator) e uma láurea especial, o Troféu do 70º aniversário. Num papo com o Jornal do Brasil, ele comentou que a responsabilidade política que assumiu na vida é “aproveitar a arte para dar visibilidade a lutas éticas importantes, que carecem de atenção, como as causas ecológicas, a luta contra o aquecimento global, o pleito pelos direitos humanos”.

A partir desta sexta, começa a briga pelos Ursos em Berlim, sob os auspícios de Irons. Logo na largada da corrida por prêmios, que conta com 18 concorrentes, está o argentino “El Prófugo”, de Natalia Meta. É um thriller sobre uma dubladora assombrada por fantasmas. Já para o sábado, a grande expectativa da Berlinale é a projeção, em concurso, de “O Sal das Lágrimas” (“Le Sel Des Larmes”), do artesão francês Philippe Garrel, na ativa desde 1968. A trama aborda um triângulo amoroso de um jovem com duas moças que tomam seu coração de assalto. No domingo é dia de a capital alemã conferir o concorrente do Brasil ao Urso dourado: “Todos os Mortos”, de Caetano Gotardo e Marco Dutra. Nele, a jovem Iná (Mawusi Tulani) é a testemunha da reconfiguração moral de seu país, no fim do sécul XIX, após a abolição, vendo seus patrões reaprenderem seu lugar na sociedade.

Neste domingo, às 23h, o ganhador do Urso de Ouro de 2019, “Sinônimos” (“Synonymes”), do diretor israelense Nadav Lapid, será exibido no Canal Brasil. Objeto de culto na Alemanha, por sua engenharia narrativa requintada, o filme é o retrato de um imigrante israelense que busca um lar em Paris, às custas do apagamento de seu passado, de suas raízes, de sua língua. Yoav (Tom Mercier, numa atuação estonteante) é um jovem que chega à França cheio de sonhos e de aversões ao país que deixou para trás. Mas trocar uma nacionalidade pela outra é uma tarefa carregada de um ônus existencialista: ele tem que ir à embaixada muitas vezes, não consegue se livrar de sua língua natal e se vê cercado de sombras xenófobas. É o preço do pertencimento. “Abrir mão de sua língua materna é um sacrifício, que começa com o gaguejar de novas expressões, vai para o sussurro de novos verbetes. Isso, na tela, na imagem, dá para a linguagem verbal uma dimensão cinemática, que eu expresso a partir de enquadramentos, de movimentos de câmera”, explicou Lapid ao JB, em entrevista por email. “Na nossa língua natal, tudo sai automaticamente. Nas línguas que nós adotamos, cada palavra é pensada, para se adequar às imagens que desejamos transmitir. O cinema é uma língua, com códigos próprios. Quando eu expresso Israel nessa língua, a das imagens em movimento, alternos momentos de quietude com trechos barulhentos, de muita fala. Às vezes, personagens como Yoav falam como metralhadoras e, às vezes, refugiam-se no silêncio absoluto. É o processo da linguagem”.

A Berlinale 2020 chega ao fim no dia 1º de março.

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Posted on 22-02-2020
Filed Under (Artigos) by vitor on 22-02-2020



 

Sinfrônio, NO

 

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DO EL PAÍS

Evitar o ciúme (e não estragar o Carnaval)

Trecho do livro ‘Ética do amor livre’, da editora Elefante, mapeia a emoção e adverte: “A monogamia não é a cura para o ciúme”

 Dossie Easton|Janet W. Hardy
EFE/MARCELO SAYÃO
EFE/MARCELO SAYÃOMARCELO SAYÃO / EFE

Para muitos, o maior obstáculo para o amor livre é a emoção a que chamamos ciúme. Ciúme nos faz sentir péssimos, a ponto de grande parte da humanidade percorrer longas distâncias para evitá-lo. Nós, no entanto, acreditamos que a maioria das pessoas não questiona de maneira alguma a invencibilidade destrutiva do ciúme e atribui a ele muito mais poder do que merece. Depois de muitos anos desfrutando de liberdade afetiva e sendo bem-sucedidas em lidar com esse sentimento, tendemos a esquecer que vivemos numa sociedade que costuma aceitar o divórcio e, em casos mais extremos, até o assassinato do parceiro sexualmente curioso que cometeu o crime inconcebível de nos deixar com ciúme.

Gostaríamos de salientar que monogamia não é a cura para o ciúme. Todos já passamos pela experiência de ter sentido ciúme incontrolável, seja do trabalho que mantém o parceiro distante ou distraído, da decisão do amante de navegar pela Internet em vez de viajar pelo nosso corpo, ou do futebol de segunda (terça, quarta, quinta, sexta, sábado, domingo) à noite. Ciúme não é exclusividade de quem escolhe estar com muitos parceiros — é um sentimento com o qual todos temos que lidar.

Muitos acreditam que a territorialidade sexual faz parte natural da evolução individual e social. Teorias mais recentes sugerem que esse conceito surgiu há uns 8.000 anos, quando nossos ancestrais passaram de caçadores e coletores nômades a agricultores camponeses sedentários, dando muito mais importância ao controle de longo prazo da terra, da família e de todos os meios de produção. Se você acredita que o ciúme é natural e não uma construção social, fica fácil usá-lo como justificativa para enlouquecer a si mesmo e aos outros, e deixar de ser um ser humano são, responsável e ético.

Para as autoras, não importa se o ciúme deriva da natureza, da criação ou de ambos. Sabemos por experiência própria que podemos transformá-lo.

Nunca vamos cansar de nos perguntar. O que é ciúme para você? Será que o ciúme realmente existe e é o que pensamos ser? Quando escolhemos confrontá-lo, ao invés de fugir dele, vemos com mais clareza o que o ciúme significa para cada um de nós. Ciúme não é um sentimento único. Pode surgir como dor ou raiva, ódio ou autodepreciação. É uma palavra abrangente que inclui uma ampla gama de emoções que sentimos quando nossos parceiros se conectam sexualmente com outra pessoa.

Ciúme pode ser uma expressão de insegurança, medo de rejeição, receio de abandono, de sentir-se excluído, inadequado, horrível, de não ser uma pessoa boa o suficiente. Seu ciúme pode estar baseado em territorialidade, competitividade ou algum outro sentimento que está gritando para ser ouvido sob o tumulto causado na sua cabeça. Às vezes, pode aparecer como uma fúria escandalosamente cega — e, por ser cega, é muito complicado se dar conta do que está acontecendo.

Muitos encontram dentro de si tipos de ciúmes que são, na verdade, bem fáceis de lidar — dúvidas insistentes, nervosismo em relação ao desempenho sexual ou à própria imagem corporal. Outros são sugados por um turbilhão de medo ou dor, difícil até mesmo de ser encarado, muito menos de ser identificado com outros sentimentos como medo de abandono, perda ou rejeição. Por que às vezes nos sentimos assim?

O ciúme é muitas vezes a máscara usada pelo conflito interno mais difícil que você tem no momento, um conflito que grita para ser resolvido e que você nem se dá conta que existe. Por estar arraigado lá no fundo, é incrivelmente difícil identificar quando surge no horizonte: nós nos torcemos, contorcemos e retorcemos tentando não o sentir. É nesses momentos que nossas emoções têm mais possibilidade de causar dor — quando você acredita que precisa evitá-las a qualquer custo.

Uma maneira de não sentir um sentimento é projetá-lo em seu parceiro. Projeção é uma defesa psicológica pela qual se tenta remover de si um sentimento doloroso projetando-o em outra pessoa, como se ela fosse uma tela para seus medos e fantasias, e não um ser humano. Pode ser que essa seja a única definição real de ciúme: é a experiência de projetar os sentimentos desconfortáveis no parceiro.

Mas temos boas notícias. Se você se identifica com algum ponto dessa descrição, uma parte de você decidiu que é forte o suficiente para reconhecer a emoção implícita no ciúme. Use seu ciúme como uma placa que diz: “Trabalhe esse sentimento!”. Você pode se beneficiar dessa oportunidade se fizer o trabalho que está à sua frente: cicatrize velhas feridas, abra novas possibilidades, conquiste saúde, liberte-se do medo… e, em algum momento, quase como um bônus surpresa, você também conseguirá alcançar sua liberdade sexual.

Às vezes, o que identificamos como ciúme é, na verdade, outra coisa. Pense nos detalhes de como funciona com você. O que mais incomoda? Será que você não quer que seu parceiro faça certas coisas com outra pessoa, ou será que quer que ele as faça com você? Ciúme pode ser, na verdade, inveja, e inveja é fácil de solucionar: por que não conversar com seu amante e fazer as coisas das quais está sentindo falta?

Ciúme pode estar enraizado em sentimentos de tristeza e perda, que podem ser mais difíceis de interpretar. Na nossa cultura, aprendemos que, quando nosso parceiro faz sexo com outra pessoa, perdemos algo. Não queremos parecer idiotas, mas essa lógica nos confunde. Quando nossos parceiros chegam em casa depois de um encontro erótico, muitas vezes estão animados, excitados e têm novas ideias que gostariam de experimentar em casa. Nós não conseguimos enxergar nenhuma perda numa situação dessas.

Será que essa sensação de perda que você sente não é a perda de um ideal, de uma imagem que você mantém em sua cabeça sobre o que é um relacionamento perfeito? Lembre-se de que todos os relacionamentos mudam com o tempo: as necessidades e os desejos das pessoas mudam de acordo com a idade e as circunstâncias, e os relacionamentos de longo prazo mais bem-sucedidos são os que têm flexibilidade suficiente para se redefinirem com o passar dos anos.

De vez em quando, nosso desconforto significa que percebemos num nível intuitivo que nosso parceiro está se afastando de nós. Isso acontece. Pensar que em todo lugar há pessoas supostamente monogâmicas que muitas vezes deixam um parceiro para se unir a outro alguém não serve de muito consolo quando acontece com você.

Vimos um amigo passar por uma tristeza e um sentimento de perda profundos quando percebeu que o amante de sua parceira estava tentando fugir com ela. Neste caso, a dor colocou em evidência a desonestidade e a manipulação por parte da terceira pessoa, e proporcionou à parceira força para se separar do amante externo e encontrar outros amantes que tivessem mais respeito por seu relacionamento primário. Por outro lado, essa história poderia facilmente ter culminado em término.

O ciúme também pode estar associado a sentimentos de competitividade e de querer ser o número um. Há uma razão pela qual não há olimpíadas de sexo: conquistas sexuais não são mensuráveis. Não podemos nos classificar num tipo de escala hierárquica do mais ao menos desejável, ou de quem fode melhor. Se você descobre algo que gostaria de acrescentar ao seu repertório, certamente pode aprender a fazê-lo sem desperdiçar tempo destruindo a si mesmo por não ter sabido disso antes.

O medo de ser sexualmente incompetente pode se acumular junto a feridas muito profundas e secretas. Mas garantimos que, no final das contas, quando você conseguir estabelecer o estilo de vida dos seus sonhos, terá familiaridade com tantas maneiras de expressar sua sexualidade que não precisará mais se perguntar como sua sexualidade se compara à de outra pessoa: você saberá por experiência própria. Grandes amantes não nascem, se criam. Você pode aprender com seus amantes, os amantes de seus amantes e os amantes dos amantes de seus amantes a ser a potência sexual que gostaria de ser.

***

Capítulo ‘Mapas para atravessar o ciúme’ do livro ‘Ética do amor livre’, da editora Elefante. A tradução é de Christiane Kokubo.

Sobre as autoras:

Dossie Easton é uma terapeuta especializada em sexualidades alternativas, relacionamentos não tradicionais e tratamento para sobreviventes de trauma num consultório particular em São Francisco, na Califórnia. Foi em 1969, quando sua filha era recém-nascida, que ela se comprometeu com um estilo de vida sexualmente aberto. Realizou sua primeira oficina sobre como desaprender a ter ciúmes em 1973. Passou cerca de metade de sua vida adulta solteira, ou quase isso, com amantes, famílias de pessoas com quem dividia um teto e outras pessoas de seu círculo íntimo. Hoje vive nas montanhas ao norte de São Francisco.

Janet W. Hardy foi uma jovem promíscua durante a faculdade, mas depois, por mais de uma década, ensaiou um casamento tradicional heterossexual e monogâmico. Desde o fim desse casamento, a monogamia deixou de ser uma opção. Mesmo que a maioria das pessoas a considerem bissexual, ela se vê como alguém que transgride gêneros e não consegue entender como a orientação sexual deve funcionar se algumas vezes se é homem, outras vezes, mulher. É casada com uma pessoa que é biologicamente homem mas cujo gênero é tão flexível quanto o dela, o que é menos complicado do que parece. Ela ganha a vida como escritora, editora e professora, e vive em Eugene, Oregon.

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