Do Jornal do Brasil

 

RODRIGO FONSECA

Embora o filme oficial de abertura do 70º Festival de Berlim, agendado para ser exibido nesta quinta-feira, seja “My Salinger Year”, do canadense Philippe Falardeau, a atração que mais (e melhor) instiga o público internacional concentrado no evento alemão é o novo documentário do chinês Jia Zhangke, cujo nome é sinônimo de excelência. “Swimming Out Till the Sea Turns Blue” (“Yi zhi you dao hai shui bian lan”) entrou na programação armada pela dupla Mariette Rissenbeek e Carlo Chatrian em projeção hors-concours (assim como o drama de Falardeau, com Sigourney Weaver) abordando a disseminação da literatura em áreas rurais da China, num contraste entre a arte da palavra e a arte de viver no campo. O nome de Jia – ganhador do Leão de Ouro de Veneza em 2006 por “Em busca da vida” – abre muitas portas, sobretudo falando sobre a dimensão milenar da leitura como analgésico. Sua projeção para a imprensa ocorre na manhã desde 20 de fevereiro: o menu das diferentes seções da Berlinale vai até 1º de março.

Macaque in the trees
Cena de Swimming (Foto: Divulgação)

“Faz tempo que eu crio a partir de andanças, de peregrinações. No fim dos anos 1990, eu saí pela China com uma camerazinha na mão de olho nas celebrações e nas expectativas acerca da virada do milênio. Observei e registrei as formas mais variadas e espontâneas de se lidar com a passagem do tempo, com o cotidiano. A ebulição do dia a dia faz sombra sobre os costumes do dia a dia”, contou Jia ao JB em entrevista no Festival de San Sebastián, onde reviu sua obra em relação à geopolítica de seu país. “Revendo as imagens que fiz, à época, descobri muita coisa, sobre a China e sobre mim, entre elas a sensação de que o Tempo está passando, pro país, pra mim, pro mundo, pras nossas convicções. Estou ficando mais velho, o que me dá mais distanciamento em torno do meu próprio processo e dos meus anseios. Agora cuido de um festival, em Pingyao, e tenho mais atenção qo que chega aos meus olhos. Talvez essa virada tenha me aproximado mais de histórias conectadas a emoções. E há o desejo de mapear o mundo onde gravito”.

Macaque in the trees
O diretor Jia Zhangke, de Swimming (Foto: Divulgação)

Em 2014, Jia teve sua vida documentada pelo carioca Walter Salles em “Um homem de Fenyang”, lançado comercialmente no ano seguinte. Era um filme que faz uma reflexão sobre a natureza híbrida, entre fato e fábula, de suas narrativas. E esse hibridismo parece ser o fio condutor de sua cartografia dos afetos na província de Shanxi a partir da criação de uma feira literária que une autores como Jia Pingwa, Yu Hua e Liang Hong. “Criar é saber ouvir. Seja calcada no fato, seja calcado na fábula, toda narrativa que faço é um documento sobre a China e sobre o Tempo. Retrabalho na ficção situações que eu observo nas ruas. Se eu não tivesse essa verve documental, meus diálogos, nos roteiros que escrevo, teriam muita precariedade. Existem muitas formas de se viver. E existe a busca por um caminho do meio, entre a pós-modernidade e a tradição, entre a ancestralidade e a tecnologia”, disse o diretor de cults como “Um toque de pecado” (2013). “Registrar, fotografar, documentar… isso é uma forma política de reação. Reage-se pela curiosidade”.

“Volevo nascondermi”, de Giorgio Diritti, vai abrir a competição da Berlinale 2020, que tem o ator inglês Jeremy Irons na presidência do júri, que conta com o diretor pernambucano Kleber Mendonça Filgo (“Bacurau”) entre seus avaliadores. A já tradicional sessão de homenagem do festival deste ano vai celebrar os desempenhos antológicos da atriz inglesa Helen Mirren. Ela foi oscarizada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, em 2007, por “A Rainha”. Aos 74 anos, ela vai receber o Urso de Ouro honorário no dia 27 de fevereiro, garantindo holofotes da mídia internacional à sua carreira.

Macaque in the trees
Poster Cena de Swimming, de Jia Zhangke (Foto: Divulgação)

Filmes em competição

“First Cow”, de Kelly Reichardt (EUA)

“Berlin Alexanderplatz”, de Burhan Qurbani (Alemanha)

“Schwesterlein” (“My Little Sister”), de Stéphanie Chuat e Véronique Reymond (Suíça)

“Siberia”, de Abel Ferrara (EUA)

“Le Sel des Larmes”, de Philippe Garrel (França)

“The roads not taken”, de Sally Potter (Reino Unido)

“Undine”, de Christian Petzold (Alemanha)

“The Woman Who Ran”, de Hong Sangsoo (Coreia do Sul)

“El prófugo”, de Natalia Meta (Argentina)

“Favolacce (Bad Tales)”, de Damiano & Fabio D‘Innocenzo (Itália)

“Effacer l’historique”, de Benoît Delépine e Gustave Kervern (França)

“Todos os mortos”, de Marco Dutra e Caetano Gotardo (Brasil)

“DAU. Natasha”, de Ilya Khrzhanovskiy e Jekaterina Oertel (Ucrânia)

“Sheytan vojud nadarad” (“There Is No Evil”), de Mohammad Rasoulof (Irã)

“Irradiés” (“Irridiated”), de Rithy Pahn (Camboja)

“Never rarely sometimes always”, de Eliza Hittman (EUA)

“Rizi (Days)”, de Tsai Ming-liang (Taiwan)

“Volevo nascondermi”, de Giorgio Diritti (Itália)

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Produções com o Brasil no DNA no menu da Berlinale

“Todos os mortos”, de Caetano Gotardo e Marco Dutra (Competitiva)

“Rã”, de Ana Flavia Cavalcanti e Julia Zakia (Geração)

“Alice Júnior”, de Gil Baroni (Geração)

“Irmã”, de Luciana Mazeto e Vinícius Lopes (Geração)

“Meu nome é Bagdá”, de Caru Alves de Souza (Geração)

“Cidade Pássaro”, de Matias Mariani (Panorama)

“O Reflexo do Lago”, de Fernando Segtowick (Panorama)

“Vento Seco”, de Daniel Nolasco (Panorama)

“Un crimen común”, de Francisco Márquez (Panorama)

“Nardjes A.”, de Karim Aïnouz (Panorama)

“Chico ventana también quisiera tener un submarino”, de Alex Piperno (Fórum)

“Luz nos trópicos”, de Paula Gaitán (Fórum)

“Vil, má”, de Gustavo Vinagre (Fórum)

“Apiyemiyekî?”, de Ana Vaz (Fórum Expandido)

“Desalma”, de Carlos Manga Jr. (Berlinale Series – Market)

“Onde Está Meu Coração”, de Luísa Lima (Berlinale Series – Market)

“Jogos Dirigidos”, de Jonathas de Andrade (Fórum Expandido)

“(Outros) Fundamentos”, de Aline Motta (Fórum Expandido)

“Vaga Carne”, de Grace Passô e Ricardo Alves Jr. (Fórum Expandido)

“Letter from a Guarani Women in Search of the Land Without Evil”, de Patricia Ferreira Pará Yxapy (Fórum Expandido)

“Los Conductos”, de Camilo Restrepo (Encontros)

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