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Postado em 16-02-2020
Arquivado em (Artigos) por vitor em 16-02-2020 00:15
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CRÔNICA

                                  Um papa chamado Luiz Inácio

                                  Janio Ferreira Soares

Começo a escrever este texto na manhã de quinta-feira, ainda sem saber detalhes do encontro entre o papa Francisco e Lula, marcado para hoje no Vaticano. Mesmo assim, entendo que este fato têm todos os ingredientes para mudar o rumo da igreja católica e levar nosso Fernando Meirelles a rodar a sequência de Dois Papas, uma vez que, no tête-à-tête do atual ocupante da cadeira de São Pedro com aquele que afirma não existir viva alma mais honesta que a dele, pode ter acontecido sua tão esperada mea-culpa, fato determinante para futuras glorificações.

Assim, viajo nas beiradas de uma hóstia não consagrada e imagino como seria o enredo dessa provável obra-prima que, fosse uma literatura de cordel escrita por um gaiato, poderia receber o título de: “A Peleja do Sapo Barbudo Com o Hermano Chico Milongueiro”. Simbora.

À semelhança do primeiro, o filme começaria com um flashback mostrando sua infância no agreste pernambucano, a ida pra São Paulo num pau de arara e a dor da perda do mindinho numa prensa mecânica, até chegar naquela gigantesca greve que reuniu milhares de trabalhadores em São Bernardo dos Campos em 1979, ocasião em que ele (ainda com o jeitão de quem jamais trocaria os destilados das canas plantadas em Vitória de Santo Antão (PE) pelas uvas Pinot Noir cultivadas na Borgonha) despontou para o mundo ao discursar para 200 mil metalúrgicos.

Em seguida, imagens mostrariam sua ascensão até chegar à presidência, com destaque para sua mudança no visual, que evoluiu do desenho do rosto de Lech Walesa impresso numa surrada malha Sulfabril sobre sua pança, até o trote do nobre cavaleiro da Ralph Lauren prestes a acertar seu mamilo esquerdo com uma tacada de responsa.

As cenas seguintes viriam acompanhadas pelo som que precede denúncias, com fotos desbotadas de Cerveró, Dirceu, Palocci e Bittar dentro de um pedalinho em forma do pato da Fiesp, afundando lentamente no lago de um sítio em Atibaia. Na sequência, milhares de manifestantes com roupas amarelas e vermelhas invadem as ruas do país, enquanto nuvens aceleradas apressam a passagem do tempo.

Agora, já numa sala da Polícia Federal em Curitiba, o corpo que abriga a alma gêmea de Irmã Dulce lê uma carta enviada pelo papa Francisco, lhe dizendo para não desanimar nem deixar de confiar em Deus, que em breve chegará um sinal.

Meses depois, Lula nota que o Cohiba no cinzeiro solta uma fumaça branca e densa, semelhante à da chaminé do Vaticano quando anuncia um novo papa. Entre assustado e convencido, ele se benze e grita em direção aos seus discípulos em vigília: “chupa, Moro!”.

Antes do The End, vejo a foto do papa Francisco abençoando-o após o encontro e constato que, num mundo onde Habemus Bolsonaro, nada mais natural do que um papa chamado Luiz Inácio.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio Sã Francisco

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