Resultado de imagem para Rodrigo Maia campeão de voos da FAB
Maia: o campeão disparado no uso de aviões da Força Aérea Brasileira.

ARTIGO DA SEMANA

Lições de Ulysses que Rodrigo Maia precisa aprender

Vitor Hugo Soares

Enquanto os aviões da Força Aérea Brasileira seguem cruzando os céus do país, e de muitos lugares do mundo, o  presidente da Câmara, Rodrigo Maia, oscilante e vago como os caminhos de seu partido, DEM, retornou ao comando da Câmara Federal, em Brasília, na abertura dos trabalhos do Poder Legislativo, neste ano eleitoral de 2020, que promete ser dividido entre o dever,–  de aprovar leis e reformas cruciais no Congresso ,– e a campanha, necessidade do político – cabalar votos para prefeitos e vereadores e dar sobrevida e novo alento ao Democratas e aliados Brasil afora. Além de turbinar o próprio espaço de parlamentar pelo Rio de Janeiro, e seus indisfarçáveis sonhos e ambição de alcançar posiç&ati lde;o ai nda mais relevante entre os donos do poder nacional.

Por enquanto, pelo que se constata, Maia prefere gastar combustível, pneus e poltronas dos aviões da FAB – e o trabalho dos pilotos e tripulações das aeronaves – movidos com dinheiro público, em vôos locais e internacionais. Dados do levantamento recém divulgados revelam que o presidente de um dos pilares do Poder Legislativo é campeão no uso de aviões da FAB em suas viagens, boa parte delas para casa, no Rio. O parlamentar do DEM, que já havia sido o mais “bicão” em 2018, elevou em 25 % sua frequência em 2019, superando as viagens somadas dos dois ministros do Governo Bolsonaro que mais viajaram pela FAB: Osmar Terra (Cidadania) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores). Ano passado, Maia fez 251 viagens contra 113 de Terra e 104 de Araújo. E começa 2020 com gana: em janeiro, mês de recesso parlamentar, ele fez 16 vôos. A que e a quem serve Maia em tantas viagens?

Em 2020, último período no comando da Câmara, parece ter chegado a hora de Maia gastar mais sola de sapato e, ao mesmo tempo, dedicar um pouco mais de atenção à memória histórica, à trajetória de obediência a princípios na vida política e humana, à obra e principalmente à arte de pensar de Ulysses Guimarães, seu legendário antecessor na presidência da Câmara em anos loucos do País.
“Não servirás a dois senhores”. Este é o Oitavo Mandamento do Decálogo do Estadista, um dos mais relevantes legados intelectuais deixados pelo notável e saudoso homem público. Em seu enunciado, Ulysses ensina: “A política não divide o tempo a ocupação e as preocupações com nenhuma outra atividade. É incompatível a simultaneidade do político e médico, político e advogado, político e industrial (empresário ou homem de negócio qualquer, acrescenta o jornalista). O político do ramo é um obsecado, o samba de uma nota só, e leva a política até para a cama, para a mesa, para os domingos e feriados… Quando Jesus convocava discípulos para o serviço da salva&cc edil;ão da humanidade, impunha como condição que abandonassem Pai, Mãe, Mulher e Filhos. É o duro evangelho do “Não servirás a dois senhores”. Precisa desenhar esta metáfora tão candente?

Lição de mestre, a ser seguida pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e também pelo do Senado, Davi Alcolumbre, outro habituée dos aviões da FAB que, no primeiro dia que seria de trabalho, na Casa que dirige, requisitou uma aeronave e, as custas dos contribuites foi participar da festança de aniversário de sua Macapá, pedindo votos para parente e aliados, pavimentando a continuidade de seu mando no Senado. Saudades de Ulysses Guimarães!.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitors.h@uol,com.br

“Aparências”, Belchior: Incluída na primorosa trilha musical de Amor de Mãe,  empolgante novela da baiana Emanoela Dias, a composição de Belchior e Gilvan Oliveira – expressivo “fado brasileiro”- vai aqui na marcante interpretação do saudoso artista cearense  imortalizada no álbum Belchior Acústico. Bravo para a novela e para a canção.

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

 

fev
08
 

DO EL PAÍS

Embaixador espanhol recebe o ministro e o presidente do Supremo na embaixada de Brasília horas após Carlos García Juliá chegar à prisão em Madri

O embaixador espanhol, Fernando García Casas, fala diante de Sergio Moro nesta sexta-feira, na Embaixada da Espanha em Brasília.
O embaixador espanhol, Fernando García Casas, fala diante de Sergio Moro nesta sexta-feira, na Embaixada da Espanha em Brasília.Andressa Anholete / EFE

A extradição do Brasil à Espanha de um dos ultradireitistas que realizaram a matança de Atocha em 1977 demonstra que “A Justiça pode tardar, mas não falha”, declarou o antigo juiz e agora ministro da Justiça, Sergio Moro, em um ato organizado pela Espanha para agradecer às autoridades brasileiras por sua indispensável colaboração nesse caso, que chocou a Transição democrática e se transformou em símbolo. Horas depois de Carlos García Juliá entrar em uma prisão madrilenha, o embaixador espanhol, Fernando García Casas, recebeu em Brasília o ministro Moro, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), José Antonio Dias Toffoli, e o diretor geral da Polícia Federal, Mauricio Valeixo. A entrega significa “o fim de um episódio sombrio na história da Espanha”, nas palavras do diplomata.

Os presentes na reunião, que chamaram García Juliá de terrorista, destacaram a estreita colaboração entre os dois países ao longo de todo o processo para que García Juliá cumpra o resto de sua sentença. A entrega ocorre, além disso, com um presidente de ultradireita no Brasil e um Governo de esquerda na Espanha à frente de uma coalizão.

A prolongada fuga começou a chegar ao seu fim em 2018 quando as digitais de um venezuelano residente legal no Brasil coincidiram com as que a polícia espanhola tinha arquivadas quando García Juliá assassinou cinco pessoas em um escritório de advocacia de Madri. Fugiu em 1994, pouco depois de ir trabalhar no Paraguai com permissão judicial.

O pistoleiro ultradireitista há anos utilizava a identidade do venezuelano Genaro Antonio Materán. Comparadas as digitais, começou a investigação para confirmar se aquele suposto venezuelano que ganhava a vida como motorista de Uber era o espanhol fugitivo. Após essa confirmação se iniciou o procedimento para obter as autorizações necessárias no Brasil para prendê-lo. Tarefas que levaram meses. García Juliá foi preso em dezembro de 2018, às vésperas do 40° aniversário da Constituição espanhola, como lembrou o embaixador García Casas.

Para o presidente do Supremo brasileiro, a ocasião desta sexta-feira na embaixada espanhola serviu para “comemorar a democracia e a justiça em um mundo globalizado”. Toffoli frisou que “o terrorismo não constrói, e sim destrói. O que constrói é o pluralismo, a diferença”.

A defesa do pistoleiro de Atocha tentou atrasar o maior tempo possível sua extradição, cuja tramitação durou 13 meses. Durante esse tempo, García Juliá ficou preso em São Paulo, em uma ala para réus à espera de extradição. O Supremo aprovou a entrega em agosto, mas o detento recorreu e somente em janeiro todas as apelações se esgotaram. Só restava a assinatura do presidente. Jair Bolsonaro decidiu delegar a seu ministro da Justiça, contou o embaixador espanhol. Moro assinou a extradição em 14 de janeiro. Faltava somente acertar os detalhes logísticos.

Pouco antes das três horas da tarde de quinta-feira, García Juliá saiu da delegacia do aeroporto internacional de São Paulo escoltado por policiais espanhóis da Interpol para embarcar em um voo comercial que o levou de volta à Espanha para prestar contas à Justiça. Ainda precisa cumprir o resto de sua sentença.

fev
08

Do Jorna

O consumo de energia elétrica do Brasil recuou 4,3% em janeiro na comparação com mesmo mês do ano passado, somando 64,96 gigawatts (GW) médios no período, com alguns setores industriais registrando diminuições expressivas, disse nesta quinta-feira a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).

No ambiente regulado, em que os consumidores são atendidos por distribuidoras, o índice apresentou retração de 5,7%, enquanto no mercado livre, no qual empresas negociam diretamente com geradoras e comercializadoras, a queda foi de 0,5%.

Na divisão por segmentos industriais, o setor de extração de minerais metálicos foi o que apresentou maior queda no consumo, com recuo de 22,3%, seguido por madeira, papel e celulose (-6,3%) e químicos (-5,5%), disse a CCEE.

Analistas citaram um clima mais ameno em janeiro, o que impacta no consumo de energia pelos equipamentos de ar condicionado, e questões econômicas para explicar o recuo.

“A queda no consumo de energia… nos surpreendeu, mas corrobora o fato de que a economia não está crescendo como era esperado”, disse o sócio-diretor da consultoria Thymos, Alexandre Viana.

“Uma hipótese que talvez explique o cenário de queda no consumo é o impacto do crescimento da geração distribuída (GD) sobre o consumo do mercado regulado, o qual sofreu queda mais expressiva (5,7%)”, acrescentou ele.

O consultor citou ainda valores altos das tarifas e a bandeira tarifária amarela em janeiro, que representa uma taxa extra a cada 100 kWh consumido, o que teria feito o consumidor economizar o uso de energia elétrica.

Paulo Toledo, sócio-diretor da comercializadora Ecom Energia, disse acreditar que a queda no consumo se explica principalmente pelo clima mais ameno, em meio a uma recuperação econômica não tão pujante como esperado.

A geração de eletricidade em janeiro, enquanto isso, recuou 3,9% no ano a ano, registrando cerca de 68,41 GW médios, acrescentou a entidade, pontuando fortes aumentos nas gerações a gás natural (+104,7%) e carvão mineral (+306,3%) no período, com maior acionamento do parque termelétrico. (Reuters)

Por Gabriel Palma e Gabriel Luiz, TV Globo

Moro em recepção em agradecimento pela colaboração do Brasil e Espanha no âmbito da Justiça e Segurança Pública, nesta sexta (6) — Foto: Isaac Amorim/MJSP Moro em recepção em agradecimento pela colaboração do Brasil e Espanha no âmbito da Justiça e Segurança Pública, nesta sexta (6) — Foto: Isaac Amorim/MJSP

Moro em recepção em agradecimento pela colaboração do Brasil e Espanha no âmbito da Justiça e Segurança Pública, nesta sexta (6) — Foto: Isaac Amorim/MJSP

 

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, afirmou nesta sexta-feira (7) que o emprego das Forças Armadas, na Garantia da Lei e da Ordem (GLO), para reforçar a segurança na área externa da Penitenciária Federal de Brasília é uma “medida preventiva”. Ao ser questionado se houve alguma tentativa de fuga, ele afirmou que o objetivo é evitar esse tipo de situação.

“O governo tá sempre adiante dos criminosos e a ideia ali é prevenir qualquer espécie de tentativa de um eventual resgate.”

O decreto que reforça a segurança na área da penitenciária foi publicado no Diário Oficial desta sexta-feira, assinado por Moro e pelo presidente Jair Bolsonaro. Em março de 2019, a penitenciária federal de Brasília recebeu detentos como Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, condenado a 330 anos (veja mais abaixo).

O governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB) disse que não foi informado “sobre o que está acontecendo”. No entanto, disse que acredita se tratar de uma fuga que teria sido organizada por uma facção criminosa que age dentro e fora das penitenciárias.

“Como que você edita um decreto dessa envergadura, quase que declarando um estado de emergência policial em relação ao presídio, e eu não tenho conhecimento de nada? Como eu vou dar segurança pra população do DF?”

A Penitenciária Federal de Brasília

 

Militares do Exército chegam à área externa da Penitenciária Federal de Brasília — Foto: TV Globo/Reprodução Militares do Exército chegam à área externa da Penitenciária Federal de Brasília — Foto: TV Globo/Reprodução

Militares do Exército chegam à área externa da Penitenciária Federal de Brasília — Foto: TV Globo/Reprodução

Conforme o decreto publicado no Diário Oficial, os militares poderão fazer a segurança da Penitenciária Federal desta sexta-feira até o dia 6 de maio. A unidade é considerada de segurança máxima, ao contrário do Complexo Penitenciário da Papuda, que fica ao lado, e registrou a fuga de três detentos em janeiro.

Ambas as unidades carcerárias compartilham uma mesma pista de acesso (veja abaixo).

 

Localização da Penitenciária Federal e do Complexo Penitenciário da Papuda, no Distrito Federal — Foto: Google Maps/Reprodução Localização da Penitenciária Federal e do Complexo Penitenciário da Papuda, no Distrito Federal — Foto: Google Maps/Reprodução

Localização da Penitenciária Federal e do Complexo Penitenciário da Papuda, no Distrito Federal — Foto: Google Maps/Reprodução

Há pouco menos de um ano, quando a penitenciária começou a receber detentos de outros estados, como parte de uma operação conjunta dos órgãos de segurança pública do governo federal, o governador do DF disse “repudiar” a medida, defendendo que os detidos “precisam de isolamento”.

 

Nesta sexta, após o reforço da segurança, Ibaneis reafirmou o posicionamento.

“O problema não é o presídio federal. O presídio é seguro. O problema é o que está do lado de fora.”

Ibaneis é contra a manutenção de presos de facções criminosas na capital. “Eles estão reforçando a segurança porque o PCC está aqui e estão querendo retirar o Marcola. Estão errados mais uma vez. Estão colocando em risco a população do DF”, disse o governador.

 

Ibaneis chega para primeira sessão do ano na CLDF — Foto: Afonso Ferreira/G1 Ibaneis chega para primeira sessão do ano na CLDF — Foto: Afonso Ferreira/G1

Ibaneis chega para primeira sessão do ano na CLDF — Foto: Afonso Ferreira/G1

O ministro Sérgio Moro foi questionado pela imprensa sobre o posicionamento de Ibaneis nesta manhã, durante evento na Embaixada da Espanha, em Brasília. Moro afirmou que a população deve ficar “extremamente tranquila” e que os governos federal e local estão cooperando.

“Nós cooperamos, temos todos elogios à segurança pública do Distrito Federal. Não existe qualquer problema em relação a isso. O que existe aqui é uma atuação cooperativa entre as forças de segurança”, afirmou.

Mas ao comentar a transferência de integrantes de facções para outros estados, o ministro admitiu o risco de tentativa de fuga. No entanto, disse que “não existe nada concreto”.

“Sempre há intenção de escapar, mas não existe nada concreto. Estamos apenas tomando medidas preventivas.”

Repercussão

A seccional da Ordem dos Advogados do Brasil no Distrito Federal (OAB-DF) divulgou uma nota afirmando ter “preocupação” sobre o reforço da segurança.

 

“Nossa instituição [OAB-DF] defende, há cerca de um ano, que presídio desta natureza não pode estar localizado em um perímetro no qual estão as cúpulas de todos os poderes do país e todas as representações internacionais.”

O comunicado da OAB cita ainda que “o crime organizado se transferiu para a Capital e a segurança pública da nossa cidade está sendo afetada”. Diz também que se preocupa com “recentes episódios ocorridos em relação ao PCC”.

Em janeiro deste ano, o Ministério da Justiça e Segurança Pública determinou o bloqueio da fronteira entre Brasil e Paraguai no trecho que corresponde a Mato Grosso do Sul. O bloqueio foi motivado pela fuga de 76 integrantes de uma facção que estavam na Penitenciária Regional de Pedro Juan Caballero, no Paraguai.

fev
08
Posted on 08-02-2020
Filed Under (Artigos) by vitor on 08-02-2020


 

Sponholz, NO  Jornal da Manhã (PR)

 

DO SITE O ANTAGONISTA

Moro: ‘Não queremos outro Battisti’

 
Sergio Moro comentou hoje (7) em sua conta oficial no Twitter a extradição de Carlos García Juliá, condenado em Madri a 193 anos de prisão pelo assassinato a tiros de cinco pessoas em 1977.

O crime do qual Juliá, ligado a um grupo terrorista de extrema direita, participou ficou conhecido na Espanha como o “massacre da rua Atocha”.

“A extradição pelo Brasil do terrorista do Massacre de Atocha foi manchete nos jornais espanhóis. A política do governo do PR @jairbolsonaro é de não dar abrigo ou refúgio a criminosos de qualquer tipo. Não queremos outro Battisti. É uma questão de Justiça, simples assim”, escreveu o ministro da Justiça.

Cesare Battisti, queridinho dos petistas condenado à prisão perpétua na Itália por quatro assassinatos na década de 70, teve a extradição negada por decisão de Lula no apagar das luzes de seu governo. Só foi encaminhado à Justiça italiana em janeiro do ano passado, depois de fugir para a Bolívia e ser capturado lá.

fev
08
 

DO EL PAÍS

Governo do PSL apoiado pela tríade “bíblia, boi e bala” manda recolher livros “inadequados”. Medida, depois revertida, não é um fenômeno isolado na política local

Rubem Alves, Mário de Andrade, Machado de Assis, Franz Kafka, Euclides da Cunha. Esses autores clássicos voltaram aos holofotes ao figurarem em uma lista de 43 livros considerados “inadequados às crianças e adolescentes” a serem recolhidos das escolas, por orientação do Governo de Rondônia. A informação, em princípio chamada de fake news pelo secretário de Educação do Estado, Suamy Vivecananda Lacerda Abreu, acabou corroborada por um áudio atribuído à gerente de Educação Básica de Rondônia, Rosane Seitz Magalhães. Na mensagem do WhatsApp, ela diz que o recolhimento foi “um pedido do nosso secretário”.

A notícia de que Rondônia planejava estabelecer um índex de livros proibidos viralizou e não foram poucas as críticas ao Governo do ultradireitista Marcos Rocha, um ex-coronel da Polícia Militar que se filiou ao PSL, então partido de Jair Bolsonaro, e chegou ao poder na onda conservadora das eleições de 2018. Ao EL PAÍS, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Antonio Dias Toffoli, classificou a iniciativa de “inacreditável”. “Se um caso desse chegar ao Supremo, cai na mesma hora. É absolutamente inacreditável que no século XXI alguém tente censurar livros como esses”, afirmou o magistrado nesta sexta-feira em Brasília. A Academia Brasileira de Letras (ABL), por sua vez, chamou a ação de “deplorável”, uma vez que desrespeita a Constituição de 1988. “É um despautério imaginar, em pleno século XXI, a retomada de um índice de livros proibidos”, afirmou a ABL em nota.

Mas a tentativa de censura não surpreendeu quem acompanha as peculiaridades do Estado, que funciona como uma espécie de farol para tendências conservadoras. No Estado do Norte prospera um Governo regido pela tríade “bíblia, boi e bala”, influenciado pela forte concentração de militares na região fronteiriça e o maior percentual de evangélicos do país (cerca de 34%). “Rondônia é extremamente conservadora e funciona como um grande laboratório de experiências da modernidade, seja na sua visão particular de liberalismo, seja na imposição de um certo olhar sobre a nação e o nacionalismo, ou mesmo sobre questões de gênero”, explica Estevão Fernandes, professor do Departamento de Ciências Sociais da Fundação Universidade Federal de Rondônia (UNIR).

Falta de transparência

O EL PAÍS tentou conversar com educadores locais a respeito do ensaio de veto a livros clássicos, mas muitos preferiram não se manifestar por medo de retaliação. “Este é um lugar em que se mata jornalista no meio da rua”, disse um professor, em referência ao assassinato do comunicador Ueliton Brizon, presidente do Partido Humanista da Solidariedade (PHS) em Cacoal, morto a tiros em janeiro de 2018.

Em nota, a Secretaria de Estado da Educação de Rondônia esclareceu que recebeu uma denúncia de bibliotecas das escolas estaduais sobre a suposta existência de livros paradidáticos com conteúdos inapropriados para alunos do ensino médio. A equipe técnica afirma que analisou as informações, mas não levou a adiante qualquer ação, por considerar a acusação inapropriada. “São obras de autores consagrados mundialmente e cumprem um papel importante para uma construção social”, afirma a nota.

O áudio vazado de Rosane Magalhães, porém, traz outra versão. “Se estiverem na CRE [Coordenação Regional de Educação] ainda esses livros, não mande para a escola (…) pegue os técnicos, pegue esses livros que estou mandando aqui na lista, coloque numa caixa, lacre e envie para mim aqui a gerência de Educação Básica (…) O núcleo do livro didático fica do lado, eu vou passar para eles porque a editora vai providenciar a troca”, afirmou a gerente na mensagem compartilhada no WhatsApp.

O EL PAÍS perguntou à assessoria de imprensa do Estado quais livros substituiriam o lote considerado inadequado, como mencionado no áudio, mas não obteve resposta. “O recolhimento de obras, de forma indistinta, sem prévio debate com a sociedade, já demonstra o desprezo pelo diálogo e a incapacidade de respeitar a diversidade”, afirma Vinicius Miguel, advogado e professor universitário da UNIR, que concorreu ao Governo do Estado pela Rede, em 2019.

Após a repercussão, o Estado decretou sigilo sobre os documentos da Secretaria de Educação. “A inserção de sigilo na documentação não pode ser interpretada como um mero erro. É um exemplo claro do ódio à transparência e de uma tentativa de ocultamento da prática de censura”, afirma Miguel.

Raízes do conservadorismo

Essa não é a primeira vez que o Estado ganha o noticiário nacional com controvérsias sobre a educação. Em 2017, um grupo de 150 pais do município de Ji-Paraná, o segundo mais populoso do Estado, acionou o Ministério Público para tentar proibir um livro de ciência da 8ª série, que tinha fotos de pênis no capítulo reservado ao corpo masculino. No mesmo ano, a Prefeitura de Ariquemes mandou “suprimir” dos livros didáticos páginas que falassem de diversidade sexual.

A impulso do conservadorismo na região, no entanto, não é um fenômeno que pode ser explicado apenas com a polarização das eleições presidenciais. “Porto Velho tem uma série de obras abandonadas da época do PAC [Programa de Aceleração do Crescimento do Governo Dilma Rousseff]. Muitos viadutos começaram a ser construídos em 2007 e estão sendo terminados agora. O bolsonarismo apenas agregou pessoas que queriam mudança e compartilhavam os mesmos valores”, explica Fernandes. “A floresta ainda é vista como um obstáculo ao desenvolvimento. Aqui o crescimento se dá apesar da floresta e dos indígenas”, explica Fernandes, citando como exemplo a audiência pública realizada na região em 2019 para discutir o projeto de lei para permitir garimpo em terra indígena, para a qual os indígenas não foram convidados.

Colaborou Luciana Oliveira.

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