ARTIGO

 

A esquerda democrática

Joaci Góes

Para a corajosa e eficiente deputada Fabíola Mansur!

Nada tão parecido com um conservador do que um esquerdista no poder. Eis a lição que a realidade dos povos nos ensina, sem exceções, decorrente do invencível conflito entre as ilusões quiméricas e a dura lei dos fatos. Em macro escala, a brutal matança de pessoas para a imposição do comunismo na Rússia de Lênin e de Stalin, e na China de Mao Tsé-Tung, algo estimado entre sessenta e cem milhões de vidas sacrificadas, é um labéu que foi longamente mascarado pela tentativa de extinção do povo judeu operada pela sanha de Hitler, que, estatisticamente, figura como o terceiro maior genocida de todos os tempos. Desgraçadamente, os três maiores, aqui mencionados, por ordem das vítimas fatais que executaram, atuaram no Século XX.

Até a implosão da União Soviética, que desmoronou sobre si mesma, como um velho edifício posto abaixo para que em seu lugar surja melhor projeto, o fim dos impérios foi sempre antecedido por um longo processo decadencial, que durava decênios ou mesmo séculos. A total ausência de espírito crítico, de função politicamente catártica, em razão do silêncio imposto aos dissidentes, transformou a União Soviética numa panela de pressão que veio a explodir, ruindo, estrepitosamente, sobre seus frágeis fundamentos. O resto é o que se viu: as diferentes unidades nacionais, debruçadas sobre os valores de suas origens, ganharem autonomia e elevarem, de modo sensível, a qualidade de vida de seus povos, contribuindo para enriquecer o mosaico das experiências humanas exitosas.

Com a China deu-se algo bem distinto. Acostumada ao isolamento geográfico e cultural, percebeu que através do comunismo não restauraria o elevado IDH que lhe conferiu liderança ao longo de dois mil anos, nos últimos vinte e cinco séculos. Bem ao contrário, o holocausto patrocinado por Mao não dava sinais de mudar o curso suicida da nação, na direção da miséria, razão pela qual, sem abrir mão do autoritarismo, que é uma marca permanente em sua história, abandonou os cânones socialistas em favor da adoção dos princípios fundamentais do fascismo que veio a adotar em sua plenitude, passando à frente com as mais elevadas taxas de crescimento econômico, tomando a palma ao Japão que liderou durante os quarenta anos pós Segunda Guerra Mundial. Que grande ironia: o fascismo, inimigo jurado dos comunistas, veio salvar da derrocada a mais populosa nação do Planeta e a mais antiga civilização entre as que lideram o mundo contemporâneo!

Da velha esquerda, só ficaram Cuba, a Coreia do Norte, testa de ferro do governo chinês, financiado para fazer o trabalho sujo que Pequim não quer fazer, e a mendicante Venezuela, palco da maior tragédia social da atualidade. No Brasil, a ultrapassada esquerda que agoniza, se consolidou sob a orientação de Hugo Chávez e seu sucessor, Nicolás Maduro, ambos mentores dos governos Lula X Dilma que empurraram o Brasil, despenhadeiro abaixo. O País, para desespero das cassandras de plantão, se recupera acima das melhores expectativas, como se pode ver pelas expressivas conquistas realizadas em diferentes e importantes domínios, graças à compreensão de que a tarefa de produzir cabe ao setor privado, ficando o Estado com a responsabilidade de implantar a infraestrutura física e social que eventualmente não interesse ao setor privado e, sobretudo, que opere como uma grande agência reguladora, vigilante para assegurar aos segmentos mais pobres da sociedade, um piso mínimo de cidadania decente, acesso a saúde, saneamento básico e a educação de alta qualidade. Este o papel de uma esquerda democrática, digna desse nome.

Concluída a indispensável reforma da Previdência, no plano nacional, outras já se encontram no forno para aprovação no ano em curso. Agora é chegada a vez de estados e municípios se ajustarem aos seus limites orçamentários. Na Bahia, sob veementes protestos de segmentos aliados, o Governo Rui Costa, na contramão do populismo suicida de seu partido, o PT, aprovou a Reforma Previdenciária estadual, interrompendo a marcha da falência certa das contas públicas. O Governador está de parabéns, pelo senso de realidade. O Governo Bolsonaro não teria feito melhor.

Joaci Góes é escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia, onde o artigo foi originalmente publicado nesta quinta-feira,6.