Espanha na vitrine

José Varela Ortega deve ter trabalhado na documentação de seu extraordinário livro España: Un Relato de Grandeza y Odio (“Espanha: uma história de grandeza e ódio”, publicado na Espanha pela Espasa) durante muitos anos e não há dúvida de que continuará trabalhando nele, em cada uma de suas reedições ?já está na segunda?, porque esse ensaio é uma dessas tentativas impossíveis que, muito de vez em quando, certos autores excepcionais impõem a si mesmos, e das quais resultam, também às vezes, realizações admiráveis, como os ensaios históricos da famosa polêmica entre Américo Castro (España en su Historia) e Sánchez Albornoz (España: Un Enigma Histórico). Seu livro está nesse nível intelectual e, em seu campo específico, não há nenhum que se compare a ele.

Convém, antes de tudo, dizer que esse ensaio tem muito pouco a ver com o livro de Elvira Roca Barea, Imperiofobia y Leyenda Negra (“imperiofobia e lenda negra”), uma pesquisa interessante que comentei nesta mesma coluna e que estuda, como indica seu título, as falsidades, os exageros e as fantasias absurdas que, para diminuir o prestígio da Espanha, seus inimigos espalharam. O de José Varela Ortega é muito mais ambicioso e pretende nada menos que historiar tudo ?sim, tudo? aquilo que disseram a favor da Espanha ou contra ela seus amigos, adversários e, entre eles, é claro, não só os estrangeiros, mas também os próprios espanhóis. E a verdade é que, embora seu objetivo fosse inatingível, temos a impressão, lendo esse grosso volume, de que esteve a ponto de alcançá-lo. Sua busca não se limita a livros e jornais, mas também a filmes, tanto ficções como documentários, pinturas, gravuras, fotografias, quadrinhos e até memes e fofocas orais.

Embora possa parecer mentira, esse livro está muito longe de ser um simples catálogo, e se lê com um interesse constante, por sua amenidade e sua ironia, que Varela Ortega deve ter herdado de seus professores ingleses, pois se formou na Grã-Bretanha, com a qual, mantendo uma neutralidade total sobre aquilo que conta, lima as arestas das mentiras excessivas ou dos elogios desmedidos, zomba das tolices e idiotices, e detalha com simpatia as coisas inteligentes e criativas que já disseram sobre a Espanha tanto seus impugnadores como seus defensores.

Uma conclusão evidente é que, em cada período histórico em que gozaram de liberdade ?não foram muitos em sua trajetória—, os espanhóis se incluem mais entre aqueles que foram críticos ferozes de seu país do que entre aqueles que o defenderam e o valorizaram. Isso não é uma crítica, mas um elogio, porque o que mantém uma sociedade viva e a faz progredir não são o ditirambo e a adulação, e sim o espírito pugnaz e a atitude indômita, ou seja, o questionamento constante de suas instituições e de seus costumes por seus intelectuais e líderes políticos. A Espanha é o único caso, na história, de um império que em plena conquista da América reúne, por exigência de seus críticos, principalmente religiosos, uma grande assembleia em Salamanca para determinar se a conquista era justa ou injusta e se os indígenas —eram filhos de Deus e tinham alma?— estavam sendo bem tratados. Na Inglaterra ou na Holanda, alguém como o indomável dominicano Bartolomé de las Casas e seus ataques ferinos à ocupação da América pelos conquistadores teria sido enforcado, é óbvio. E o Século de Ouro, quando a Espanha alcança uma superioridade intelectual sobre o restante da Europa, antes que comece a decadência, é uma época de crítica profunda, saudável no caso de um Cervantes, e distorcida e amarga no do desafortunado Quevedo, por exemplo.

O caso da geração de 1898 e suas ramificações é muito interessante e está descrito esplendidamente no livro de Varela Ortega. A perda da última colônia —Cuba—, na derrota na guerra com os Estados Unidos, leva seus membros a descobrir seu próprio país. Com olhos críticos, sim, mas também compreensivos e generosos, e abrindo-se para a Europa e o mundo, dos quais seu congêneres estiveram afastados por muito tempo. E é através desse contato com o próprio país e suas melhores tradições que escritores como Azorín, Valle-Inclán, Unamuno, Pérez de Ayala, para não falar do principal cruzador de fronteiras, Ortega y Gasset, vão se conectar com o resto do planeta. A Espanha volta a ser, do ponto de vista intelectual, um país europeu e não apenas consumidor, mas também produtor de ideias e realizações artísticas, literárias e filosóficas. O país fica na moda e muitos estrangeiros o visitam ou se estabelecem nele, atraídos pela “cor local” —o flamenco, as ruínas, os touros—, e alguns deles deixam testemunhos tão estimulantes como os do Gerald Brenan e George Borrow.

Merecem menção à parte as notas de rodapé de España: Un Relato de Grandeza y Odio. São abundantes e às vezes muito longas, mas nunca excessivas, e são lidas como pequenos ensaios independentes. Servem para Varela Ortega constituir uma história separada, menos importante que a principal, mas sempre esclarecedora, e frequentemente divertida pelos traços de humor e de erudição pitoresca que revelam. Essas notas de rodapé me lembraram as que acompanham o esplêndido ensaio de María Rosa Lida de Malkiel sobre A Celestina. “Cada nota é um verdadeiro artigo!”, exclamou meu amigo Sergio Beser, com quem li ao mesmo tempo essa impressionante realização de argúcia crítica e erudição, quando fomos professores na Inglaterra dos anos 1970.

As conclusões que podemos tirar desse ensaio são perfeitamente previsíveis: sobre a Espanha e os espanhóis foi dito tudo que se pode dizer, principalmente o excessivo: o país é triste e alegre, seus habitantes são loquazes ou lacônicos, apaixonados ou austeros, místicos e sensuais, violentos e pacíficos, cruéis e generosos, como se, conforme a idiossincrasia e os valores de cada época, a Espanha e os espanhóis os encarnassem sempre, embora sejam incompatíveis entre si. Não se poderia dizer o mesmo de todos os países? Sem dúvida. Porque, simplesmente, a unidade buscada por aquelas fórmulas não existe e nunca existiu, exceto nas fantasias dos ideólogos. Um país é um formigueiro onde, abaixo da superfície que poderia parecer uniforme e idêntica, irrompem as diferenças. E muito mais em nossa época, que fez com que desaparecessem todas as tribos, ou seja, aquele período histórico no qual o indivíduo ainda não existia e o ser humano era apenas parte da comunidade. É verdade que as distintas línguas, assim como as crenças religiosas e os usos e costumes, foram diferenciando as sociedades, mas um dos grandes méritos do livro de José Varela Ortega é demonstrado em um caso concreto e específico. A visão da Espanha revela muito mais a subjetividade de quem a elogia ou a critica do que a realidade diversa e múltipla que ela é, um país antigo, o mais longevo império europeu, que, através de múltiplas vicissitudes, foi se ampliando e formando um gigantesco conglomerado de seres diversos, unidos pelo idioma e pela história, onde, se for visto sem preconceito, cabe o mundo inteiro em sua fantástica diversidade. O livro de José Varela Ortega será um desses ensaios memoráveis que continuarão sendo lidos quando tudo isso for evidente, se os preconceitos nacionalistas —quem diria que ressuscitariam— permitirem e não nos cegarem outra vez.

“No me platiques Mas”, Luis Miguel e Nat King Cole:(Duas versões): preciosidade e sucesso musical do bolero no mundo inteiro e nas mais diferentes vozes e intérpretes da música romântica, a começar pela clássica e original gravação de Pedro Infante, nos anos 50, mais famoso nome da música mexicana da época com acompanhamento de Mariachi. Um sucesso planetário e cinematográfico. Aqui vai a canção em duas de suas melhores versões: a mais moderna, de Luis Miguel, e a mais clássica e belíssima, na voz e charme inigualáveis de Cole. Confira.

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DO EL PAÍS

TV Globo abraça discursos contraditórios e surfa na audiência do Brasil polarizado. Polícia Civil do Rio intima participante do ‘reality’ por denúncia de assédio

Os participantes do BBB, Petrix e Hadson.
Os participantes do BBB, Petrix e Hadson.TV Globo / Reprodução
 Beatriz Jucá
 

O horário nobre da emissora com maior audiência no Brasil —a TV Globo— está recheado de narrativas sobre o machismo. Começa com a exibição de uma novela cujo enredo está centrado na maternidade e na busca de uma mãe por um filho vendido pelo próprio marido. Amor de Mãe aborda questões de gênero em vários núcleos e parece estar sempre buscando exaltar o protagonismo feminino. Logo depois da novela, a programação segue com um reality show que historicamente levanta casos de machismo. Nas duas primeiras semanas do Big Brother Brasil 20, houve de denúncias de assédio até comentários depreciativos sobre o corpo das mulheres. Na tarde desta segunda-feira, a Polícia Civil do Rio de Janeiro intimou o participante Petrix Barbosa por denúncia de assédio a colegas de confinamento. Nos últimos dias, o machismo ainda ganhou uma característica pouco usual nas edições anteriores do reality: virou estratégia escancarada de jogo de alguns brothers. Embora a novela e o BBB tenham naturezas diferentes, eles trazem à torna a imagem de um Brasil polarizado também nos debates de gênero e mostram como a TV Globo vem dialogando, e surfando na audiência gerada, com ambos os discursos.

Petrix Barbosa entrou no Big Brother a convite da produção. Em uma das primeiras festas, o premiado atleta de ginástica artística tocou os seios da colega de confinamento, Bianca Andrade, depois de tentar estalar suas costas para relaxá-la. O ato motivou muitas críticas nas redes sociais. No Twitter, usuários argumentavam que ela não havia consentido o toque e que nem poderia fazê-lo porque estava bêbada. A direção do programa então chamou a sister ao confessionário para perguntar se em algum momento ela se sentiu desconfortável. Bianca negou. Essa cena foi transmitida como uma tentativa de dar transparência a uma questão recorrente nas últimas edições, inclusive sem a distorção de voz característica dos momentos em que o diretor Boninho se comunica com os confinados. A voz da direção dizia que seguiria atenta, provavelmente uma resposta mais direcionada à exigência do público do que para tranquilizar a participante.

Mas dias depois Petrix seguiu com atitudes que são, no mínimo, bastante invasivas. Sem camisa e vestindo apenas uma calça, aproximou suas partes intímas da cabeça de outra colega, Flayslane, durante uma festa. Mais uma vez, o público das redes sociais não o perdoou. A resposta do programa, porém, veio com menos transparência que na primeira vez. Petrix foi convocado ao confessionário, mas a conversa com a produção nunca foi ao ar. O que se viu foi o atleta procurar as duas companheiras para perguntar, incrédulo, se havia passado do ponto alguma vez. Ambas responderam que sim.

Ao público, o apresentador Tiago Leifert apenas explicou o motivo da convocação, sem citar nem mesmo os muitos pedidos de expulsão feitos pelos usuários do Twitter, que mantiveram a hashtag #PetrixExpulso por horas nos trending topics. A demanda dos internautas tinha motivação dupla: as acusações de assédio e o ato visto por muitos como desleal, quando o ginasta atropelou um outro participante para vencer uma prova. Se a TV Globo pareceu titubear diante do comportamento, a resposta enérgica veio da Polícia Civil do Rio de Janeiro, que deu o prazo de até sexta-feira para que Petrix Barbosa deixe a casa e se explique. “Nenhum assédio será tolerado”, disse a delegada Juliana Emerique, da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher de Jacarepaguá.

Esta não é a primeira vez que as autoridades policiais atuam por conta de assédio e machismo no programa. Um dos casos emblemáticos aconteceu há dois anos, diante das frequentes discussões (com direito a beliscões, apertões e terror psicológico) entre os participantes Marcos Harter e Emily Araújo. Na ocasião, a emissora foi criticada por ter demorado 24 horas para expulsar Marcos. A justificativa dada à época foi de que a produção esperava o resultado da perícia policial. Hoje, o público segue questionando a direção do programa pelas posturas nos casos de machismo.

O machismo como estratégia de jogo

Situações assim são comuns nas edições. Ao longo dos anos, a manifestação do machismo estrutural, que permeia a narrativa do programa de forma mais sutil, se fez presente. São muitos os homens que entram no programa achando que têm mais chances de vencer pelo simples fato de serem homens (como Gustavo, da edição do ano passado, que bateu no peito para defender uma suposta superioridade masculina). O que é inédito neste ano é o machismo ser usado escancaradamente como estratégia de jogo.

Foi esse o grande motivo de uma discussão que envolveu praticamente toda a casa durante a madrugada desta segunda-feira. Marcela, uma participante que tem dito reiteradas vezes que tentará proteger as mulheres no jogo, contou às demais companheiras do plano dos rapazes para seduzir as participantes comprometidas e assim queimá-las com o público. A estratégia machista foi verbalizada por Hadson, que a negou veementemente quando foi desmascarado. Na confusão, Felipe Prior explicou que Hadson havia dito aquilo à Marcela apenas para testar se ela contaria aos demais. Quando o programa exibiu o VT dessa conversa há alguns dias, o apresentador Tiago Leifert disse ao público que a estratégia não era verdadeira. Mas vídeos com conversas entre os participantes Lucas e Petrix mostram que ela não é assim tão descabida. Seja como for, o “teste” parte de um conceito extremamente machista.

No almoço oferecido a ele por Paulo Skaf na sede da Fiesp, Jair Bolsonaro disse que Rodrigo Maia será o protagonista das reformas tributária e administrativa, relata o Valor.

“Ontem estive por longos minutos com o Rodrigo Maia. Conversamos mais um pouco sobre as reformas administrativa e tributária que estão para chegar e ele, como presidente de um dos Poderes, tem se mantido mais do que simpático, ele quer ser protagonista dessa questão”, afirmou o presidente.

Bolsonaro também prometeu à plateia de empresários livrá-los do “peso do Estado”.

“No tocante a números, à economia, o Brasil não está dando certo, o Brasil já deu certo. Nós vamos agora aproveitar o êxito e ir mais fundo nas reformas, de modo que cada vez mais os senhores se vejam livres do peso do Estado.”

Do Jornal do Brasil

 

O país dos cientistas

HÉLIO COSTA

Os escravos chamavam o filho do senhor de engenho de “doutorzinho”. Os mais pobres ainda se referem ao mais rico como “Doutor”. Qualquer portador de um diploma universitário é “Doutor” para os menos esclarecidos.

Agora, com a conivência da mídia, quem cursou ciências políticas é um cientista e passa a se apresentar e assinar seus textos como “cientista político”.

Enquanto isto os verdadeiros cientistas que nos laboratórios estão realmente fazendo um trabalho científico são chamados modestamente de pesquisadores.

Incomoda a quem viveu o ambiente universitário nos Estados Unidos ou na Europa, ver quem se formou em ciências políticas ser chamado de cientista político. Na verdade, nos países do primeiro mundo estes bacharelandos são apenas “analistas” políticos. O prenome cientista é reservado, nos Estados Unidos, na França, na Inglaterra, no Japão, na China e na Rússia, para os verdadeiros cientistas, com teses reconhecidas em todo o mundo, ou seja, os assemelhados de Einstein, Newton, Pasteur, Sabin, Von Braun e tantos outros.

E não podemos esquecer o que o mestre Ariano Suassuna deixou bem claro: “se você chama o Ximbinha de gênio da música, de que vai chamar o Beethoven?”.

Muitos dos que poderiam ser chamados de cientistas políticos, Summa Cum Laude, eram poucos e já se foram: Ulysses Guimarães, pela liderança entre pares; Santiago Dantas, pela cultura; Antônio Carlos Magalhães, pelo comando político; Tancredo Neves, pela união nacional; Afonso Arinos, pela retidão política; Carlos Lacerda pela oratória.

Por outro lado, não é justo que os que se graduaram em ciências médicas, ciências sociais, ciências biológicas, ciências contábeis e tantas outras ciências não tenham também o direito de serem chamados de cientistas.

Ciência de verdade, reconhecida em todo o mundo, não é prioridade no Brasil. Quem quiser ser cientista de verdade tem de ir embora, como fez a brasileira Lia Medeiros que participou da equipe que registrou a primeira imagem de um “buraco negro”. Miguel Nicolelis, que pesquisa a integração do cérebro e maquinas na Universidade Duke, nos USA, ou o Marcelo Gleiser, do Dartmouth College, USA, ganhador do prestigiado prêmio Templeton.

O orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) para 2020 diz tudo. O governo federal vai gastar meros R$800 milhões de reais em recursos não reembolsáveis que serão destinados principalmente à compra de equipamentos e manutenção de infraestrutura laboratorial nas universidades e institutos para a pesquisa científica.

Mas, é bem provável que, se fizermos as contas, o Brasil é o país dos cientistas.

Hélio Costa é ex-Senador da República, ex-ministro de Estado.

Do Jornal do Brasil

 

O Reino Unido estabeleceu neste domingo um sarrafo alto para futuras negociações com a União Europeia, dizendo que vai estabelecer sua própria agenda em vez de se submeter às regras do bloco.

Depois de deixar oficialmente a União Europeia na sexta-feira, o Reino Unido deve negociar suas relações comerciais futuras com o bloco, que terão efeito quando o período de transição acabar, no fim deste ano.

Macaque in the trees
Boris Johnson discursa em Rocester, no Reino Unido (Foto: REUTERS/Andrew Yates)

O governo do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, foi rápido em enviar a Bruxelas uma mensagem antes do início das negociações comerciais, em março. O Brexit, para ele, significa que a soberania vem antes da economia.

A União Europeia tem dito aos britânicos que o nível de acesso do país ao seu lucrativo mercado único dependerá de quanto Londres está disposta a aderir às regras do bloco quanto a padrões ambientais, regulações trabalhistas e ajuda estatal. Mas, apesar dos apelos de muitos empresários para que o governo assegure o livre comércio, ministros têm dito a empresas que elas devem se ajustar a um novo futuro em que a nação não mais acatará as regras da UE.

Fontes próximas a Johnson dizem que ele considerou a larga vitória nas eleições do ano passado como um aval para a sua política de autonomia britânica colocada acima dos interesses comerciais. E ele deve realçar isso em um discurso na segunda-feira.

“Estamos tomando de volta o controle sobre nossas leis, para que não tenhamos de estar alinhados à UE, alinhamento legislativo com as regras deles”, disse o ministro das Relações Exteriores, Dominic Raab, à Sky News. “Mas queremos cooperar e esperamos que a União Europeia siga com seu compromisso para um acordo de livre comércio ao estilo canadense.”

O objetivo do premiê é chegar a um acordo de isenção de tarifas para bens de consumo, ao estilo do acordo que o bloco possui com o Canadá.

No sábado, uma fonte do governo disse que se a UE não oferecer um acordo como o do Canadá, Londres tentará um pacto menos amplo, ao estilo do que possui com a Austrália. “Só há dois possíveis resultados da negociação: um acordo de livre comércio como o do Canadá ou um outro menos amplo como o da Austrália. Estamos contentes em negociar os dois”, disse a fonte.

A UE afirma que não aceitará um acordo com um poderoso vizinho sem garantias de competição justa. Alguns líderes europeus temem que Johnson tente prejudicar os negócios do bloco ao afrouxar padrões regulatórios, algo que ele prometeu não fazer.

“Se o Reino Unido quiser estabelecer ao lado da União Europeia uma espécie de Cingapura do Tâmisa, seremos contra”, disse o ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian.(Reuters)

fev
04
Posted on 04-02-2020
Filed Under (Artigos) by vitor on 04-02-2020



 

Sid, no portal de humor

 

fev
04

Banco Central revê de 2,5% para 1,2% o aumento do PIB, o pior resultado econômico em dez anos no Chile

Manifestantes erguem uma barricada em Santiago, durante um protesto de rua em 31 de outubro, uma sexta-feira.
Manifestantes erguem uma barricada em Santiago, durante um protesto de rua em 31 de outubro, uma sexta-feira.AFP

As revoltas sociais prejudicaram o crescimento da economia chilena em 2019. O Banco Central só vai apresentar os dados oficiais em março, mas se estima que a expansão do PIB em 2019 será de 1,2%, a metade do projetado antes da explosão social, quando se esperava um crescimento anual de cerca de 2,5%. O desempenho de 2019 será o pior da economia chilena desde 2009, ano em que a Grande Recessão deixou o país em situação difícil.

Nesta segunda-feira, o Banco Central informou que o Índice Mensal de Atividade Econômica (Imacec) subiu 1,1% em dezembro em relação ao mesmo mês do ano anterior, surpreendendo positivamente o mercado. Isso se explica, sobretudo, pela expansão do setor de mineração. Mas o dinamismo observado no último mês do ano não foi suficiente para neutralizar o impacto negativo. Em outubro, o Imacec caiu 3,4% em relação ao mesmo mês de 2018 e em novembro, 3,3%.

O diretor da área econômica da Fundação Chile 21, Eugenio Rivera, destaca que “a melhoria substancial de dezembro em relação aos meses anteriores se explica por uma situação social menos complicada e uma clara diminuição dos protestos e manifestações”. Para Rivera, “o Chile começa a sair do buraco em que esteve entre outubro e novembro, embora o problema atual sejam as expectativas”. O economista explica que entre os agentes econômicos e, principalmente, entre os empresários há um alto nível de pessimismo e o que acontecer em março será fundamental: “Em geral, a economia depende em grande parte da política, mas nunca tanto como atualmente.”

Rivera se refere à incerteza em torno de março. Nesse mês começa o ano letivo, as famílias precisam fazer pagamentos anuais importantes ?como o da taxa de licença de veículo?, é comemorado o Dia Internacional da Mulher, que em 2020 será especialmente ativo, e o Governo de Sebastián Piñera celebra metade de seu mandato (2018-2022).

As autoridades preveem que em março poderão ressurgir não só os protestos, mas a violência, um mês antes do plebiscito de 26 de abril, quando os cidadãos decidirão se querem mudar a Constituição vigente desde a ditadura e o mecanismo para sua eventual substituição. “Há uma questão política central que afeta a economia: pode-se dizer que o presidente Piñera está bastante apagado, mas na oposição não há liderança que possa enfrentar os grupos violentos que consideram que as mudanças nunca serão suficientes porque o que procuram é desafiar a institucionalidade”, avalia o economista.

O efeito da explosão foi significativo no âmbito da economia real, onde todos os indicadores apontam queda, principalmente do investimento. Entre os setores que mais sofreram estão o comércio, o turismo e os serviços. Para o economista Sergio Urzúa, professor da Universidade de Maryland e pesquisador da Clapes-UC, ficou bastante claro que o choque econômico esteve concentrado nos dois primeiros meses da crise social e que em dezembro “a economia funcionou, embora com a máquina pela metade”. O dado sombrio e negativo é que o Chile cresceu 1,2% em 2019 ?muito ruim em relação ao que o país estava acostumado? e provavelmente o que observamos nos últimos 100 dias se traduzirá em um desempenho medíocre no longo prazo. É o grande risco que o Chile tem: como dinamizar sua economia no futuro, livrando-se da recessão técnica?”, se pergunta Urzúa.

A grande questão para os economistas é o que acontecerá em 2020 e nos próximos anos com o país que nas últimas três décadas foi o aluno mais adiantado da América Latina. O Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu para 0,9% a previsão de expansão do PIB do Chile em 2020, o que é explicado tanto pela violência que o país enfrentou a partir de outubro como pela incerteza política, segundo Urzúa. “O processo da Constituinte que o Chile iniciou representa um importante grau de incerteza para os agentes econômicos, por isso é essencial que seja conduzido de maneira inteligente e sensata. E há uma questão fundamental: a violência parece não ter fim e é complexo conduzir um processo constituinte nestas condições”, afirma o pesquisador acadêmico.

No entanto, as consequências das revoltas para os ativos financeiros do Chile foram moderadas. O país sofreu uma depreciação da taxa de câmbio em torno de 7% nas primeiras semanas dos protestos, mas não houve um descontrole. As taxas de juros, por outro lado, permaneceram em níveis semelhantes aos de antes da crise e o risco-país cresceu relativamente pouco.

O Chile é um dos países com melhor acesso aos mercados internacionais na América Latina e, apesar dos altos níveis de violência dos últimos 100 dias, a visão que se tem do exterior permanece relativamente positiva. Mas o cenário está aberto: um relatório recente da Bloomberg indica que o Chile poderia deixar de ser o primeiro país entre as economias seguras da América Latina, uma reputação conquistada com esforço.

Apesar dos prognósticos, o desemprego não mostrou aumentos significativos após a explosão social e permanece na faixa de 7%, embora o trabalho informal tenha disparado no país. Com menos crescimento e maiores demandas sociais ?das quais muitas foram atendidas?, o Chile terá um déficit fiscal maior este ano. Depois de 17 meses de discussão, acaba de ser aprovada uma reforma tributária para financiar parte da agenda acordada entre o Governo e a oposição.

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