DO EL PAÍS

Homenageado na 23ª Mostra de Tiradentes ao lado da filha, Camila Pitanga, ator marco do Cinema Novo fala sobre ancestralidade, família e o poder da cultura. “Foi ela que me deu meu passaporte cidadão”, diz ele

 Joana Oliveira
Antônio Pitanga e Camila Pitanga, homenageados da 23ª Mostra Tiradentes.
Antônio Pitanga e Camila Pitanga, homenageados da 23ª Mostra Tiradentes.2020 Leo Lara / Foto Leo Lara/Universo Produçã

Ela olha para ele e escuta-o com a mesma atenção e encantamento de uma criança, como se fosse a primeira vez, apesar de seus 42 anos. Camila Pitanga reverencia o pai, Antônio, de 80 anos, de quem herdou o nome e a paixão pela arte e pela cultura, a cada gesto e palavra. Pai, filha e cinema. Ambos são os homenageados da 23ª Mostra Tiradentes, que acontece na cidade mineira de 24 de janeiro a 1º de fevereiro, com a missão de apontar os caminhos que o cinema brasileiro deve trilhar. Pela primeira vez, a mostra reverencia uma família, e uma família emblemática: ela, uma das atrizes mais populares do país, transitando entre novela e cinema, sendo uma das primeiras protagonistas negras na televisão. Ele, o ator mais importante do Cinema Novo e cocriador do cinema moderno brasileiro. Ambos são retrato do Brasil artístico, diverso e negro. “Tiradentes não está homenageando só um homem. Estão homenageando um quilombo”, resume Antônio Pitanga.

Ele, pequeno diante dos 1,75 de altura dela, agiganta-se ao falar, de modo enérgico e contagiante. É, afinal, um grande contador de histórias. Ela cala e escuta. Quando fala, é para mencionar a grandeza do pai. “Esse homem enorme me nutriu de muitos olhares sobre a vida, me fez entender que a gente não pode ficar olhando o mundo só pelo nosso umbigo e que temos que pensar nossa existência em uma dimensão mais coletiva. A cultura e a arte têm essa vocação de ampliar os olhares, de estranhar, de cultivar novas perspectivas”, diz Camila Pitanga.

Mais do que o DNA (apesar de ambos compartilharem o mesmo sorriso vibrante), quiçá o que mais os una seja esse amor pelo fazer artístico. “Eu vim do nada, mas no nada havia cultura”, conta Antônio ao relembrar sua infância em Salvador, como filho de uma família pobre. “Peralta e brigão”, como ele se descreve, tinha tudo para ser mais um capitão da areia, como os personagens de Jorge Amado, mas a mãe resolveu colocá-lo em uma escola católica. “Eu aprendi todos os ofícios, fui sapateiro, alfaiate, carpinteiro, linotipista… Mas queria uma profissão que me desse cidadania. E foi a cultura que me deu meu passaporte cidadão”, afirma.

Foi espiando pelas frestas de um clube de teatro de Salvador, “onde preto não entrava”, que Antônio conheceu nomes como Luiz Paulino dos Santos e Glauber Rocha. Com eles, viria a tornar-se um marco do Cinema Novo, em filmes como Bahia de Todos os Santos e Barravento. Com movimentos que destoavam do ritmo marcado dos atores da época, Pitanga tornou-se um ícone desse cinema. Com a mesma energia, participou dos movimentos de contracultura e resistência à ditadura. E quando muitos se exilaram na Europa, ele fez outro caminho.

“Percorri durante dois anos a África para saber que negro é esse. De que África eu tinha vindo? Eu mergulhei, fui esquecido, fui achado. Me achei no norte da África”, diz o homem que se define como “um baiano muito ousado”. “Eu não era no Cinema Novo só mais um preto, eu era parte do grupo, sem precisar fazer nenhuma reivindicação. Eu fazia parte das cabeças pensantes”, lembra.

Há três anos, Camila também fez sua própria busca pelo pai. Codirigiu, com Beto Brant, Pitanga, documentário que conta a trajetória do ator. Ancestralidade é palavra-chave na conversa com pai e filha. “Revi quem é o homem, o artista, e me pensei como artista no mundo. Foram muitas janelas que se abriram para mim e que ainda estão se revelando. Mas o que mais fica é a história de um homem preto vencedor. Tem muitos outros que precisam ser contados para a gente se pensar, sendo preto e sendo não preto”, conta a atriz e diretora.

Para Camila, Antônio evoca também a lembrança de que é possível “resistir com alegria” aos desafios do Brasil atual, cujo Governo carece de políticas efetivas de cultura. “Ele e os de sua geração souberam dançar e vibrar o que tinham de melhor para mudar a chave. Acho que isso é inspirador. Como diz Caetano Veloso, é preciso estar atento e forte”, diz ela.

Antônio e Camila viveram pai e filha na ficção em 1995 na novela A próxima vítima, de Silvio de Abreu, na Rede Globo, a primeira com um núcleo familiar negro de classe média. O enredo foi escrito a pedido de Antônio Pitanga. “Silvio levou três anos para escrever uma família negra. Em sua ingenuidade, ele me disse: ‘demorei a entender que era o mesmo que escrever para uma família branca’. Levou três anos para cair essa ficha”, conta.

Camila, que estreou como atriz na infância, diz que se surpreendeu ao ver que os nomes negros da dramaturgia ainda eram os mesmos da geração do seu pai e, na maioria das vezes, nos papéis considerados negros: os de trabalhadores domésticos, escravos ou bandidos. “É importante sair dessa ideia do negro escravizado, vítima da história, e colocar pessoas que se pensam na história. Que é o que a gente vê hoje em Amor de Mãe, onde temos Jéssica Ellen fazendo uma professora, dizendo coisas que, mesmo na ficção, são da nossa realidade”, comenta. Nesse sentido, eu acho que o Brasil amadureceu. Quando a gente pensa na revolução que as cotas raciais representam… O movimento negro não é de hoje, mas me sinto fortalecida ao ver uma geração de menos de 30 anos com uma clareza do que significa no mundo, isso é um barravento que não volta mais”, comemora.

Legado no cinema

Camila Pitanga eternizou-se na televisão com papéis como o da prostituta Bebel, de Paraíso Tropical, mas também em filmes como Caramuru ou Eu Receberia as Piores Notícias dos teus Lindos Lábios. Perguntada sobre o legado do pai e os feudos do cinema nacional ?no Brasil, o fazer cinematográfico concentra-se nas mãos de poucas famílias abastadas, como os Moreira Salles ou os Torre-Waddington—, ela diz que não se vê nesse lugar. “Eu me vejo irmã de Taís [Araújo], Lázaro [Ramos], Jéssica [Ellen]… Não me reconheço nesse lugar de herdeiro. Meu pai e eu temos essa coisa de nos pensar no coletivo, em fazer trocas com outros grupos de criadores. Me vejo no contrário desse lugar de feudo, como formiga, como operária da cultura”.

Camila, que ficou famosa aos 16 anos, conta que usa os holofotes especialmente para produzir em coletivo. “Sabe que [a fama] foi bem desconfortável? Eu não tinha uma estrada, não tinha uma formação, então a minha luta da vida inteira, quando escolhi participar de várias produções teatrais, inclusive como produtora, empreendendo as minhas ideias, foi justamente para não ficar só nesse lugar da superfície, em uma visibilidade sem consistência. Hoje, ser famosa é aproveitar esse foco para não ficar sozinha. Porque ser famosa e ficar encastelada em um lugar não tem graça nenhuma.”

Foi com essa mesma mentalidade que Antônio sentiu, pela primeira vez, a necessidade de ir para trás das câmeras, quando dirigiu Na Boca do Mundo (1979), exibido na mostra de realizadores de Cannes. “Eu queria mostrar que nós, pretos, podemos dirigir. A gente tem que escrever, temos que ir para trás das câmeras e contar nossa história, sem esperar que um branco faça isso”, reivindica.

Antônio prepara-se para rodar este ano, no Recôncavo Baiano, Malês, filme que conta o levante dos negros muçulmanos escravizados em Salvador, em 1835, que lutaram pela abolição e pela liberdade de culto e que foram combatidos pelas forças do Brasil Regência. “Essa revolução não foi uma revolução mata-branco, era uma estratégia de guerra. Contar essa história de negros que detinham o conhecimento da engenharia, da física, da dança, da matemática e da música é importante. Era o Brasil começando a desatar o nó dos colonizadores”, diz.

Para Camila, essa é a oportunidade de contar mais uma história de negros vencedores. “A história oficial é a dos negros vitimados, não é a história dos negros insurgentes, com sabedoria, resistência, luta e proposição. Malês é muito emblemático porque fala de grito e desobediência. É para ontem essa história ser contada”.

O projeto do filme nasceu ainda no grupo do Cinema Novo ao que pertenciam Antônio e Glauber Rocha, mas o registro de um dos maiores levantes do país ainda é pouco conhecido. “Se cultura fosse um projeto de Governo, já teríamos feito esse filme e ele teria sido distribuído em todas as escolas, gratuitamente, estaria nas praças públicas”.

Antônio Pitanga lamenta que o número de realizadores negros no cinema nacional e na cultura brasileira, em geral, ainda seja um pequeno percentual do total. “A conta não fecha! Na minha época, em um país de 60 milhões de pessoas, tinha eu, Ruth de Souza, Grande Otelo… Hoje, com 209 milhões no Brasil, quantos diretores negros temos? Quantos poetas? A conta não fecha!”, insiste.

Ele garante que já viveu todas as décadas às quais tem direito, mas pretende continuar. “Não esmorecerei, enquanto essa conta não fechar, eu não vou morrer.” Os Pitanga, mais do que nunca, seguem atentos e fortes.

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