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Postado em 28-01-2020
Arquivado em (Artigos) por vitor em 28-01-2020 00:24
O ex-presidente Lula, em um encontro com apoiadores em Belo Horizonte (Minas Gerais), na sexta-feira, 24 de janeiro.
O ex-presidente Lula, em um encontro com apoiadores em Belo Horizonte (Minas Gerais), na sexta-feira, 24 de janeiro.Ricardo Stuckert

 Naiara Galarraga Gortázar

Não disse nada. Não era preciso. A expressão de Nanci Ramos Menezes, de 64 anos, dizia tudo. Seu rosto era de profunda decepção. Quando escutou que o ex-presidente Lula, 74 anos, não viria, que cancelava sua presença no ato em que era esperado há duas horas, teve um instante de incredulidade. Mas sim, estava confirmado. Lula deu o cano no último minuto em 250 pessoas reunidas pelo Movimento dos Atingidos por Barragens, um veterano movimento popular, em Betim (Minas Gerais), na última sexta-feira de fortes tempestades. O político estaria na cidade, a 27 quilômetros de Brumadinho, na véspera do primeiro aniversário do mais grave desastre industrial do Brasil, que no sábado lembrava as 270 pessoas devoradas por uma maré de lodo em uma mina.

Era uma ocasião para que Lula se reencontrasse, pela primeira vez desde que foi solto há dois meses, com seus seguidores de Minas Gerais, de conseguir ao mesmo tempo um espaço na televisão e no debate nacional. Até que chegou o aviso: sua equipe de segurança o desaconselhou a viajar a Betim pelas intensas chuvas, que já mataram 44 pessoas em Minas Gerais, os desabamentos de terras e os avisos de proteção civil.

Enquanto um Brasil letárgico aproveita o verão pré-Carnaval, Lula se dedica a reorganizar o Partido dos Trabalhadores, que fundou há quase 40 anos, e sua vida. Viúvo, tem namorada, planos de se casar e procura uma nova casa. Disciplinado, começa o dia com caminhadas e musculação e tenta não estender as jornadas de trabalho. “Está vendo amigos, governadores de centro-esquerda”, diz seu porta-voz. Além disso, presidiu um congresso continuísta do PT, foi aplaudido em atos político-festivos e jogou uma partidinha de futebol com Chico Buarque e militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

Procura seu lugar na política brasileira após 19 meses preso por corrupção e duas condenações que o impedem de ser candidato. “Ele deve fortalecer a esquerda, precisa falar com as bases”, disse Ramos Menezes sobre Lula quando ainda era esperado como grande protagonista.

Não é fácil para o petista encontrar seu lugar porque Bolsonaro e os seus, com uma enxurrada de decisões controversas e declarações explosivas, não deixam espaço para quase ninguém no discurso político. O único que consegue aparecer de vez em quando nas manchetes é o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Como aconteceu nos EUA quando Donald Trump chegou com suas ações disruptivas à Presidência, a imprensa brasileira está com a língua de fora tentando cobrir o bolsonarismo, que domina os canais informativos clássicos e as redes.

Um exemplo: as 24 horas anteriores ao ato de Lula começaram com um comentário racista. Bolsonaro disse que, “cada vez mais, os índios são seres humanos como nós”. Também ameaçou diminuir a importância do ministério dirigido por seu ministro mais popular, Sergio Moro. O ex-juiz se calou publicamente, mas fez saber através de terceiros que se aquilo se consumasse ele renunciaria e abriu uma conta no Instagram que em pouco tempo tinha mais de meio milhão de seguidores. Bolsonaro desmentiu rapidamente na Índia, onde fora em visita oficial. Não, o ministério de Moro fica como está. Enquanto isso, a veterana dama das novelas Regina Duarte completa seu sétimo dia pensando se aceita o convite presidencial para ser ministra da Cultura em substituição ao plagiador de Joseph Goebbels. Parece lógico que os brasileiros adorem os memes.

A doutora em ciência política Flavia Bozza Martins afirma que Lula agora pode calibrar melhor como estão os ânimos na opinião pública e na política institucional. “Talvez ele não visse com clareza em sua cela na Polícia Federal que a opinião pública está desconectada”. Uma das dificuldades que enfrenta é que somente militantes vão aos atos e “a falta de espaço na imprensa tradicional impede Lula de chegar como gostaria aos ouvidos do cidadão comum”.

Ele também tem uma relação difícil com a imprensa tradicional, incluindo a onipresente Rede Globo. O ex-presidente declarou que gostaria de dar uma entrevista ao vivo, mas “nenhum veículo do grupo Globo pediu para entrevistá-lo”, de acordo com o porta-voz de Lula, que logo ao recuperar a liberdade só falou com a imprensa estrangeira —incluindo o EL PAÍS— e alguns blogs brasileiros. Neste domingo, em entrevista ao UOL, Lula voltou a fustigar a Globo. “O que a Globo está fazendo com o Intercept, era capaz que o nazismo não fizesse”, disse, em referência à cobertura da emissora sobre as mensagens privadas sobre a Lava Jato e ignorando reportagens que a TV a respeito. “Tem crítica que ele faz que é correta”, quando perguntado sobre o tratamento de Bolsonaro com a imprensa.

O cenário político, com eleições municipais em outubro, é outro desafio. “Apesar de figuras importantes do PT terem declarado que é um momento crucial à democracia brasileira e que é preciso se aliar a outras forças para deter o crescimento da direita, (o partido) tem uma grande dificuldade para dar um passo atrás e renunciar à hegemonia e ao amplo protagonismo em nome de uma candidatura eleitoralmente mais viável”, diz a cientista política da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Pela corrupção, uma parte do Brasil odeia com todas as forças o partido, Lula e até o vermelho que os simboliza.

Na sexta-feira em um hotel de Belo Horizonte, o operário que fez história ao presidir o Brasil se reuniu com os dirigentes do PT em Minas Gerais. Sua mensagem foi clara: nas eleições municipais é preciso apresentar todas as candidaturas própria possíveis. Afirmou que “precisamos da garra do começo, a garra dos anos oitenta” diante da “criminalização do PT”, diz Andréa Cangussú, 37 anos, secretária petista de Mulheres de Minas. Fala em Betim, após Leonardo Boff, de 82 anos, pai da Teologia da Libertação, e os afetados pelas barragens acabarem suas intervenções. O show de uma banda e a entrega de lanche amenizam a espera de Lula.

Ele “está voltando ao seu papel de articulador político com os grupos locais do PT. Trabalha em um processo dialético com o partido. Escuta, fala, argumenta… Não impõe, mas sua opinião conta bastante, é uma voz com experiência política que tem muito peso”, diz seu porta-voz. Tem sugerido sempre que pode, como no UOL, que o caminho do PT é voltar tentar ganhar terreno entre a população de renda média e baixa que é evangélica.

Condenado a 25 anos por corrupção, tem vários processos pendentes. “Existem muitas ramificações legais, de modo que Lula pode voltar à prisão e seus julgamentos podem ser anulados”, alerta a cientista política. Por isso acha que o maior partido do Brasil – e o maior grupo parlamentar – faz uma aposta muito arriscada ao insistir no nome de Lula. Acrescenta que se a ideia fosse apostar por um novo líder, já deveria estar sendo construído. Mas não há nenhum indício. A figura de Lula eclipsa seu partido e a esquerda brasileira. Oliver Stuenkel, colunista do EL PAÍS e professor da Fundação Getulio Vargas, concorda: “Cada dia que passa é um dia perdido para construir uma nova liderança”.

Lula foi premiado na Espanha na sexta-feira, 43º aniversário da matança de Atocha, pela fundação que lembra os advogados assassinados pelos ativistas de extrema direita, em 1977. Agradeceu à comenda em vídeo. Enquanto isso, um dos assassinos confessos, o radical Carlos Garcia Juliá, espera sua iminente extradição do Brasil. Lula gostaria que a primeira viagem ao exterior nessa nova etapa fosse à França para receber o título de cidadão honorário de Paris concedido pela prefeita socialista Anne Hidalgo enquanto estava preso.

Ao aceitar que não veria seu líder em Betim, a pedagoga Ramos Menezes disse: “Precisamos animar o povo porque ficará frustrado”. Espera que a campanha das eleições municipais lhe dê uma nova oportunidade de escutar ao vivo seu admirado Lula.

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