“De Mal pra pior”, Nara Leão e Paulinho da Viola: uma rara e imortal composição de Pixinguinha e duas interpretações preciosas. A primeira, de Nara, que além da doçura de sua voz empresta todo charme da Bossa nova ao seu canto. A segunda, com toda nobreza popular de Paulinho, que dispensa comentário. É ouvir e aplaudir.

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

 

 

 

 

 

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28
Posted on 28-01-2020
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DO EL PAÍS

Tão conhecido na China, Austrália e Espanha como nos Estados Unidos, seu legado foi muito além do esporte, de seu jogo e de seus recordes

Kobe Bryant no dia em que se retirou das quadras em 2016.
Kobe Bryant no dia em que se retirou das quadras em 2016.Harry How (Getty)
 

A morte, e ainda mais se é tão prematura como foi a de Kobe Bryant (41 anos e 156 dias), confere uma nova perspectiva sobre a dimensão de toda uma vida. E especialmente se é uma estrela da NBA, uma lenda do basquete, um dos primeiros astros do esporte globalizado, tão conhecido na China, Austrália e Espanha como nos Estados Unidos.

O destino quis que a tragédia acontecesse um dia depois de LeBron James o superar na terceira colocação da classificação de maiores pontuadores. Um detalhe menor, até mesmo previsível, mas revelador da grandeza do homem apelidado de Mamba Negra e tão acertadamente definido por Jeanie Buss, a proprietária dos Lakers. “Obrigado por sua mentalidade, por sua capacidade de trabalho, por agir sem medo de nada, por elevar o nível de seus colegas de time e de toda a Liga. Pedimos luta e você nos deu coração e nos mostrou como ganhar. Que enorme marca deixou. Seu legado vai além do basquete. Nunca mais os Lakers vestirão o número 8 e o 24 porque foram aposentados”, disse a ele em 19 de dezembro de 2017, o dia em que aposentaram não só uma, mas as duas camisetas que vestiu na equipe em que jogou durante toda a sua carreira, de 1996 a 2016.

Ele se aposentou em 13 de abril de 2016, com 37 anos, em uma partida memorável contra o Utah em que marcou 60 pontos. Era capaz disso e de muito mais, como a vez em que marcou 81 pontos em uma partida contra o Toronto, em 2006. Nada comparado à autêntica raiz de sua paixão pelo basquete, a competitividade elevada ao máximo. Era obsessivo. Para ele não havia nada impossível. Nem mesmo um mito do esporte como Michael Jordan o intimidava. Contou dessa forma seu primeiro duelo com o legendário astro dos Chicago Bulls.

Em um podcast com o treinador da Universidade de Connecticut, Geno Aurienmma, contou a maneira como enfrentou seu primeiro duelo com Michael Jordan: “Estava pensando em meu interior. ‘Não ligo. Vou destruir esse cara. Não ligo que tenho 18 anos, quero sangue’. E a primeira coisa que ele fez foi pegar a bola no canto, uma pequena finta, e escapuliu pela linha de fundo. Ele me deixou enfeitiçado. Lembro que ri sozinho por toda a quadra. Vi esse movimento milhares de vezes e não podia acreditar. E depois disso, disse a mim mesmo, ‘OK, vamos trabalhar’. Sempre que o enfrentava, era um desafio para mim como iria responder aos seus movimentos”.

Kobe não chegou a conquistar os seis anéis de Michael Jordan, mas terminou sua carreira com números invejáveis: cinco anéis, terceiro maior cestinha da história – superado somente por Abdul Jabbar, Karl Malone, e agora LeBron James –, 18 vezes All Star, duas vezes MVP das finais e uma vez MVP da temporada, em 2007-2008. Tudo sempre com os Lakers. E com a seleção dos Estados Unidos, duas medalhas de ouro, a das Olimpíadas de 2008 em Pequim e de 2012 em Londres, em que foi a alma da equipe que se redimiu de seu fracasso de 2004 em Atenas.

A influência de seu pai Joe Bryant em sua carreira foi enorme. Jogador dos Sixers, San Diego Clippers e Houston Rockets, quando Kobe tinha seis anos foi contratado pelo Rieti em uma etapa na Itália que durou sete anos. A família retornou aos Estados Unidos em 1991. Após se destacar como ala-armador e lateral e acabar o ensino médio, decidiu não passar pela universidade e entrou no ‘draft’ de 1996. Foi escolhido na 13º posição por Charlotte, que o trocou com os Lakers pelo sérvio Vlade Divac.

Chegou com Michael Jordan e se foi, vinte anos depois, deixando que Stephen Curry e LeBron James continuassem com a estirpe dos legendários. Anunciou que se aposentava em novembro de 2015, desesperado pelas lesões sérias que sofreu em sua última etapa, no tendão de Aquiles, no joelho e no ombro. As viagens dos Lakers se pareceram mais com uma turnê de uma estrela mundial do rock. Foi homenageado em cada uma das quadras nas quais foi tão odiado e vaiado durante tantos anos. No final aflorou um sentimento de gratidão e admiração para um jogador único, de uma competitividade extrema. “Percebi que havia conquistado tudo aquilo que havia sonhado”, disse Kobe. “Não era tão importante ser o melhor da história, e sim o rumo de minha carreira e a influência sobre a próxima geração”.

Com Kobe ao seu lado, todos sabiam que a exigência seria infinita. Seu amigo Pau Gasol sabia bem disso, colega de time desde sua contratação pelos Lakers em 2008, até sua saída em abril de 2014. O pivô espanhol, que soube da morte de Kobe em Girona, onde se recupera de uma lesão no pé, escreveu uma emotiva carta quando o ídolo dos Lakers se aposentou: “Em meu primeiro dia com os Lakers, encontrei a equipe no Ritz em Washington D.C. e quando era 1h30 da madrugada alguém bateu em minha porta. Foi assim que descobri que Kobe não dorme muito. Sentei na cama, acho, e ele se sentou na mesa ao lado da televisão. Deu as boas-vindas à equipe e me disse que era o momento. Era o momento de ganhar. Ele sentia que eu poderia levá-lo ao topo novamente e queria se certificar de que eu soubesse”.

E foi assim que começou o segundo triênio triunfal de Kobe, o que o levou a disputar três finais e ganhar duas em 2009 e 2010, para engrandecer como merecia a carreira daquele jovenzinho que, quando tinha 21 anos, começou a coleção de três anéis seguidos, sob a asa protetora de Shaquille O’Neal, Derek Fisher e sempre, à época e depois com Pau, dirigido do banco por Phil Jackson. Os dois anéis com Pau também foram uma espécie de desagravo com Shaquille O’Neal. Tiveram seus atritos, e o grandalhão, em suas bravatas, chegou a dizer que Kobe não seria capaz de voltar a ganhar. Ganhou, com Pau.

Sua relação também teve altos e baixos e Kobe não hesitou no momento de exigir seu amigo: “Sinto falta dele. Sinto falta de sua presença. Sinto falta de sua atitude. Poucos jogadores a têm. O ‘Cisne Branco’, o ‘Cisne Negro’, todas essas coisas não me incomodavam. Não me frustraram. Demonstrou que se importava comigo. Foi um amor duro. Ele me desafiava porque esperava mais de mim. Quando alguém te desafia quer dizer que se preocupa por você. Quando te ignoram é que você não importa. É aí que precisa se preocupar. Talvez eu seja mimado porque sei o que é sentir a vitória e adoro essa sensação. Muda meu humor. Me afeta. Acho que ganhando estenderei minha carreira e me motivará a fazer mais. Ter estado ao lado de Kobe teve um impacto em minha vida”.

No dia que aposentaram as camisetas nos Lakers, com sua esposa Vanessa e suas quatro filhas, Natalia Diamante, Gianna-Maria Onore, Bianka Bella e Capri, seu predecessor Magic Johnson lhe disse no centro da quadra do Staples Center. “Este país precisa da união que você trouxe aos Lakers durante 20 anos”.

jan
28
Posted on 28-01-2020
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O ex-presidente Lula, em um encontro com apoiadores em Belo Horizonte (Minas Gerais), na sexta-feira, 24 de janeiro.
O ex-presidente Lula, em um encontro com apoiadores em Belo Horizonte (Minas Gerais), na sexta-feira, 24 de janeiro.Ricardo Stuckert

 Naiara Galarraga Gortázar

Não disse nada. Não era preciso. A expressão de Nanci Ramos Menezes, de 64 anos, dizia tudo. Seu rosto era de profunda decepção. Quando escutou que o ex-presidente Lula, 74 anos, não viria, que cancelava sua presença no ato em que era esperado há duas horas, teve um instante de incredulidade. Mas sim, estava confirmado. Lula deu o cano no último minuto em 250 pessoas reunidas pelo Movimento dos Atingidos por Barragens, um veterano movimento popular, em Betim (Minas Gerais), na última sexta-feira de fortes tempestades. O político estaria na cidade, a 27 quilômetros de Brumadinho, na véspera do primeiro aniversário do mais grave desastre industrial do Brasil, que no sábado lembrava as 270 pessoas devoradas por uma maré de lodo em uma mina.

Era uma ocasião para que Lula se reencontrasse, pela primeira vez desde que foi solto há dois meses, com seus seguidores de Minas Gerais, de conseguir ao mesmo tempo um espaço na televisão e no debate nacional. Até que chegou o aviso: sua equipe de segurança o desaconselhou a viajar a Betim pelas intensas chuvas, que já mataram 44 pessoas em Minas Gerais, os desabamentos de terras e os avisos de proteção civil.

Enquanto um Brasil letárgico aproveita o verão pré-Carnaval, Lula se dedica a reorganizar o Partido dos Trabalhadores, que fundou há quase 40 anos, e sua vida. Viúvo, tem namorada, planos de se casar e procura uma nova casa. Disciplinado, começa o dia com caminhadas e musculação e tenta não estender as jornadas de trabalho. “Está vendo amigos, governadores de centro-esquerda”, diz seu porta-voz. Além disso, presidiu um congresso continuísta do PT, foi aplaudido em atos político-festivos e jogou uma partidinha de futebol com Chico Buarque e militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

Procura seu lugar na política brasileira após 19 meses preso por corrupção e duas condenações que o impedem de ser candidato. “Ele deve fortalecer a esquerda, precisa falar com as bases”, disse Ramos Menezes sobre Lula quando ainda era esperado como grande protagonista.

Não é fácil para o petista encontrar seu lugar porque Bolsonaro e os seus, com uma enxurrada de decisões controversas e declarações explosivas, não deixam espaço para quase ninguém no discurso político. O único que consegue aparecer de vez em quando nas manchetes é o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Como aconteceu nos EUA quando Donald Trump chegou com suas ações disruptivas à Presidência, a imprensa brasileira está com a língua de fora tentando cobrir o bolsonarismo, que domina os canais informativos clássicos e as redes.

Um exemplo: as 24 horas anteriores ao ato de Lula começaram com um comentário racista. Bolsonaro disse que, “cada vez mais, os índios são seres humanos como nós”. Também ameaçou diminuir a importância do ministério dirigido por seu ministro mais popular, Sergio Moro. O ex-juiz se calou publicamente, mas fez saber através de terceiros que se aquilo se consumasse ele renunciaria e abriu uma conta no Instagram que em pouco tempo tinha mais de meio milhão de seguidores. Bolsonaro desmentiu rapidamente na Índia, onde fora em visita oficial. Não, o ministério de Moro fica como está. Enquanto isso, a veterana dama das novelas Regina Duarte completa seu sétimo dia pensando se aceita o convite presidencial para ser ministra da Cultura em substituição ao plagiador de Joseph Goebbels. Parece lógico que os brasileiros adorem os memes.

A doutora em ciência política Flavia Bozza Martins afirma que Lula agora pode calibrar melhor como estão os ânimos na opinião pública e na política institucional. “Talvez ele não visse com clareza em sua cela na Polícia Federal que a opinião pública está desconectada”. Uma das dificuldades que enfrenta é que somente militantes vão aos atos e “a falta de espaço na imprensa tradicional impede Lula de chegar como gostaria aos ouvidos do cidadão comum”.

Ele também tem uma relação difícil com a imprensa tradicional, incluindo a onipresente Rede Globo. O ex-presidente declarou que gostaria de dar uma entrevista ao vivo, mas “nenhum veículo do grupo Globo pediu para entrevistá-lo”, de acordo com o porta-voz de Lula, que logo ao recuperar a liberdade só falou com a imprensa estrangeira —incluindo o EL PAÍS— e alguns blogs brasileiros. Neste domingo, em entrevista ao UOL, Lula voltou a fustigar a Globo. “O que a Globo está fazendo com o Intercept, era capaz que o nazismo não fizesse”, disse, em referência à cobertura da emissora sobre as mensagens privadas sobre a Lava Jato e ignorando reportagens que a TV a respeito. “Tem crítica que ele faz que é correta”, quando perguntado sobre o tratamento de Bolsonaro com a imprensa.

O cenário político, com eleições municipais em outubro, é outro desafio. “Apesar de figuras importantes do PT terem declarado que é um momento crucial à democracia brasileira e que é preciso se aliar a outras forças para deter o crescimento da direita, (o partido) tem uma grande dificuldade para dar um passo atrás e renunciar à hegemonia e ao amplo protagonismo em nome de uma candidatura eleitoralmente mais viável”, diz a cientista política da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Pela corrupção, uma parte do Brasil odeia com todas as forças o partido, Lula e até o vermelho que os simboliza.

Na sexta-feira em um hotel de Belo Horizonte, o operário que fez história ao presidir o Brasil se reuniu com os dirigentes do PT em Minas Gerais. Sua mensagem foi clara: nas eleições municipais é preciso apresentar todas as candidaturas própria possíveis. Afirmou que “precisamos da garra do começo, a garra dos anos oitenta” diante da “criminalização do PT”, diz Andréa Cangussú, 37 anos, secretária petista de Mulheres de Minas. Fala em Betim, após Leonardo Boff, de 82 anos, pai da Teologia da Libertação, e os afetados pelas barragens acabarem suas intervenções. O show de uma banda e a entrega de lanche amenizam a espera de Lula.

Ele “está voltando ao seu papel de articulador político com os grupos locais do PT. Trabalha em um processo dialético com o partido. Escuta, fala, argumenta… Não impõe, mas sua opinião conta bastante, é uma voz com experiência política que tem muito peso”, diz seu porta-voz. Tem sugerido sempre que pode, como no UOL, que o caminho do PT é voltar tentar ganhar terreno entre a população de renda média e baixa que é evangélica.

Condenado a 25 anos por corrupção, tem vários processos pendentes. “Existem muitas ramificações legais, de modo que Lula pode voltar à prisão e seus julgamentos podem ser anulados”, alerta a cientista política. Por isso acha que o maior partido do Brasil – e o maior grupo parlamentar – faz uma aposta muito arriscada ao insistir no nome de Lula. Acrescenta que se a ideia fosse apostar por um novo líder, já deveria estar sendo construído. Mas não há nenhum indício. A figura de Lula eclipsa seu partido e a esquerda brasileira. Oliver Stuenkel, colunista do EL PAÍS e professor da Fundação Getulio Vargas, concorda: “Cada dia que passa é um dia perdido para construir uma nova liderança”.

Lula foi premiado na Espanha na sexta-feira, 43º aniversário da matança de Atocha, pela fundação que lembra os advogados assassinados pelos ativistas de extrema direita, em 1977. Agradeceu à comenda em vídeo. Enquanto isso, um dos assassinos confessos, o radical Carlos Garcia Juliá, espera sua iminente extradição do Brasil. Lula gostaria que a primeira viagem ao exterior nessa nova etapa fosse à França para receber o título de cidadão honorário de Paris concedido pela prefeita socialista Anne Hidalgo enquanto estava preso.

Ao aceitar que não veria seu líder em Betim, a pedagoga Ramos Menezes disse: “Precisamos animar o povo porque ficará frustrado”. Espera que a campanha das eleições municipais lhe dê uma nova oportunidade de escutar ao vivo seu admirado Lula.

jan
28
Posted on 28-01-2020
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DO BLOG O ANTAGONISTA

Moro e a vertigem de Petra Costa

 

 

Sergio Moro foi perguntado, na entrevista ao Pânico, se havia assistido ao documentário “Democracia em Vertigem”, dirigido por Petra Costa e indicado ao Oscar.

“Acabei assistindo. Olha, acho que a cineasta é bastante honesta no começo, quando ela diz assim: ‘Eu sou petista, e o Lula é meu herói’. E o resto do filme segue essa toada”, disse Moro.

“Fui ver lá por curiosidade. Tem alguns fatos ali que não correspondem à realidade.”

Os hackers da Lava Jato (e seus cúmplices) também. Leia mai

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28
Posted on 28-01-2020
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Angola é por estes dias palco de uma revolução mais ou menos tranquila, porque tinha sido anunciada, desde que João Lourenço chegara ao poder e demonstrara, ao contrário do que por cá se dizia, que queria traçar o caminho da governança pelo seu próprio pé.

Tudo o que já deu várias teorias sociais de justiça é o que está a passar-se em Angola com  a reviravolta em relação a Isabel dos Santos, a filha sem imunidade do ex-presidente José Eduardo dos Santos, apanhada numa fuga de informação gigantesca sobre os seus negócios. Mas Angola é também um laboratório social a céu aberto, o que o escritor José Eduardo Agualusa, acabado de aterrar em Luanda, encontrou e analisa numa entrevista no DN.

“O medo mudou de lado”, diz ele. “Porque quem vive com medo, hoje – nestes dias muito mais -, são aquelas pessoas que participaram desse processo de corrupção. E isso é muito importante. É a partir daqui que se pode criar uma sociedade livre de corrupção. Em primeiro lugar é preciso que seja mais difícil ser corrupto, ou seja, que seja mais difícil ser corrupto do que ser contra a corrupção.”

Nem sempre o medo é bom conselheiro, mas é muito com ele que contam as comunidades para se controlarem, para se manterem vivas. A base do sistema de controlo do crime é o castigo, e o medo dele. A vigilância visa a punição de quem sai das linhas.

As coisas ao contrário era como elas estavam – e fizeram o mal que se conhece à sociedade angolana. Quem já viu os olhos de um menino com fome nas estradas do interior angolano sabe bem a dimensão desse mal. E se muitos “sabiam”… vale a pena determo-nos um pouco neste “sabiam”, que tem sido muito debatido por estes dias.

Não há lugares no panteão da história para os revolucionários que agora se revelam, apontando dedos que não querem que se voltem contra eles próprios. Mas é preciso dizer que nem todos têm, nem tinham, as mesmas responsabilidades, e nem todos têm, ou tinham, a mesma sabedoria, para dar um exemplo, do grau de diferentes gravidades das situações.

Ninguém duvida de que foi de algum gabinete que saiu a informação e os milhares de documentos.

Depois há a questão do poder. Entre saber, falar e conseguir agir, há uma gradação importante. Não desculpa, mas atenua penas. Agualusa também questiona, nesta entrevista, o que não se fez, e como a “teia de cumplicidades” permitiu que nem em Angola nem em Portugal houvesse um movimento que levasse a mudanças antecipadas – em parte pelas mesmas razões, mais uma vez em diferentes graus: sociedades civis fracas e pobres, dependência de dinheiro externo, hábitos arreigados e fragilidade da comunicação social.

O que não aconteceu nas ruas acabou por dar-se, ironicamente, através dos gabinetes – até porque ninguém duvida de que tenha sido de algum gabinete (privado ou público) que surgiram os milhares de documentos que acabaram nas mãos do ICIJ.

O processo de denúncia, como aconteceu, com documentos a chegarem às mãos de um grupo de jornalistas internacionais organizados num consórcio, tem vantagens e desvantagens: a união das fontes faz a força da denúncia, claro, mas retira ao jornalista o frisson da busca da informação. Muito há a analisar nesta nova e cada vez mais forte relação entre jornalista e denunciante, sobretudo no possível enviesamento de informações e no não questionar do interesse do que é divulgado.

Mas tudo isso são assuntos para outros calendários. Porque nada do que possa apontar-se a este caso anula o enorme salto em frente que é a descoberta desta teia de corrupção que, por ser muito simples, mais uma vez como diz Agualusa, expõe todas as fragilidades dos nossos sistemas – políticos, económicos, mediáticos – que permitem crimes desde que abafados pelo dinheiro de quem os faz. Não está em causa um país, uma pessoa, uma classe. Está em causa um sistema inteiro, e à escala mundial. E não há nada que verdadeiramente nos impeça de mudar.

jan
28
Posted on 28-01-2020
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 Amarildo, NA (ES)

 

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28
DO EL PAÍS

DO EL PAÍS

Ministra tem simpatia até de parte do eleitorado que se identifica com o PT . Especialistas e políticos debatem os pontos fortes e débeis do discurso da pastora evangélica, que lança campanha por abstinência sexual na pré-adolescência

Damares Alves participa de celebração pelo Dia Nacional de Valorização da Família, em 21 de outubro de 2019.
Damares Alves participa de celebração pelo Dia Nacional de Valorização da Família, em 21 de outubro de 2019.Marcelo Camargo / Agência Brasil

 Felipe Betim

Quarta-feira, dez horas da noite. Sob o olhar atento de seguranças, centenas de pessoas deixam o faraônico Templo de Salomão após mais um culto. Marcos Paulo, de 26 anos, está passando as férias com a família em São Paulo e não queria deixar de conhecer a sede mundial da Igreja Universal do Reino de Deus. “Sou cristão há menos de seis meses. Entrei na igreja através da minha família, porque percebi a mudança na vida dela. Eu estava num caminho meio perdido, não estava feliz”, conta o rapaz, oriundo do Mato Grosso do Sul e formado em Direito. “Ainda estou desempregado e estudando para concurso, mas Deus tem agido na minha vida”, completa. Por causa de seu contato com a Igreja Evangélica, conta que vem acompanhando o trabalho da pastora evangélica Damares Alves, atual ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do Governo Jair Bolsonaro. “Sou a favor das declarações dela, até porque ela é uma pessoa cristã, uma mulher de Deus, com uma visão do seio familiar Ela tem tudo para fazer o país caminhar”, argumenta.

Na mesma linha opina Giovana Oliveira, de 27 anos. Ainda que ache que Damares soa às vezes “um pouco brusca demais”, acredita que seu trabalho tem tudo para dar certo, sobretudo se o Governo passe os recursos necessários para abrir “espaços de apoio” para as pessoas. Ela esclarece que não se trata de clínicas médicas, mas sim de lugares onde a pastores evangélicos possam oferecer algum tipo de apoio psicológico ou acolhimento para aqueles que precisam. “Por exemplo, se uma mulher está se separando, ela não vai poder se apoiar no marido. Se alguém está com depressão, com problemas com álcool ou drogas, ela precisa de ajuda… E quem dá esse apoio é a Igreja”, explica.

Damares, “mãe, pastora evangélica, educadora e advogada”, como se apresenta para seus mais de 680.000 seguidores do Twitter, assumiu seu cargo no ano passado dizendo “o país é laico, mas que esta ministra é terrivelmente evangélica”. Desde então vem ocupando o noticiário com várias declarações que atraíram ultraje e aplausos e políticas conservadoras, a mais recente relacionada a uma campanha voltada para jovens pregando a abstinência sexual. É com essa abordagem que ela pretende enfrentar problemas importantes, como a gravidez na infância e o aumento das doenças sexualmente transmissíveis entre os jovens. “O argumento que eu estou buscando é: uma menina de 12 anos não está pronta para ser possuída. Se vocês me provarem, cientificamente, que o canal de vagina de uma menina de 12 anos está pronto para ser possuído todo dia por um homem, eu paro agora de falar”, argumentou ao jornal Folha de S. Paulo neste domingo. Em entrevista ao jornal Correio Braziliense, publicada também neste domingo, voltou a defender a política governamental: “Eu pergunto: que dano eu vou trazer para uma criança ao dizer para ela: ‘espera mais um ano’, ‘espera um pouquinho’?. Não vamos eliminar os outros métodos preventivos. Vamos continuar falando da camisinha; vamos continuar falando da pílula; vamos continuar falando dos outros métodos. O que a gente quer, aqui na lista de métodos (contraceptivos), é apresentar mais um. O não ficar agora. Esperar um pouco mais.”

Para Valéria Vilhena, fundadora do grupo Evangélicas pela Igualdade de Gênero, argumentos como o que deu na entrevista acima ecoam por para o senso comum, ainda que as soluções que propõe, em sua visão, tenham mais a ver com a agenda conservadora de setores majoritários da Igreja Evangélica do que as práticas recomendadas por especialisstas na matéria. “Olhando assim, quem é contrário a uma fala dessa? Ninguém. E é muito simples, dialoga muito bem com pessoas pouco escolarizadas, exatamente porque está fora do contexto”, explica. “Damares não leva em consideração dados e estudos e mostram que a maioria dos estupros ocorrem em meninas de até 13 anos. Quando falamos de gravidez precoce, não estamos falando de meninas que ainda são imaturas e que resolveram fazer sexo de maneira irresponsável. Estamos falando de meninas vulneráveis que sofrem estupro”, acrescenta. Vilhena opina que Damares é “uma figura perigosa” justamente porque “trata com deboche temas sérios”, como o da gravidez precoce.

O resultado das declarações, ideias e políticas de Damares ainda não são mensuráveis, mas vem agradando parte significativa do eleitorado. É o que diz a mais recente pesquisa Datafolha, de dezembro, na qual Damares é aprovada por 54% do total de evangélicos do país ?eles representam hoje pouco mais de 30% da população brasileira, atrás apenas dos católicos, que ainda são 50% do total. A pesquisa vai além e mostra a pastora evagélica como uma ministra bastante popular, atrás apenas do ex-juiz Sergio Moro, que ocupa da pasta da Justiça, e à frente de Paulo Guedes, ministro da Economia. Conhecida por 55% da população, a pastora marcou 43% de ótimo bom, 27% regular e 26% ruim/péssima. “Ela é muito forte no Governo e dificilmente cairia. Mesmo que não seja um ícone, reconhecida por toda a população, sua trajetória evangélica traz sensação de reconhecimento”, explica Jacqueline Teixeira, doutora em antropologia social e pesquisadora do Núcleo de Antropologia Urbana da USP.

Mais: à diferença dos demais ministros, e guardadas as margens de erro diferenciadas de cada recorte, sua popularidade se distribui mais equilibradamente. Também é forte nos setores populares onde o lulismo é tradicionalmente mais relevante após a passagem do PT pelo Governo. Damares possui o apoio de 39% daqueles que tem renda familiar mensal de mais que dez salários mínimos, 43% de dois a dez salários e 42% entre aqueles com menos de dois salários mínimos. Para efeito de comparação, Sergio Moro, que 53% de aprovação na média geral, sobe a 73% na faixa de renda de mais de 10 salários mínimos e desce a 46% na fatia mais pobre. A ministra também pontua bem entre todas as faixas etárias e até entre aqueles que simpatizam com o Partido dos Trabalhadores (PT): 29% dos eleitores petistas também simpatizam com a ministra.

“Nem todo mundo que vota no PT é do PT. São pessoas que gostam do PT, que reconhecem e se identificam com o PT e o que foi feito, mas… A gente não pode dizer que é de direita, mas essa coisa do costume é algo muito forte. As pessoas ficam cegas diante disso”, explica a deputada federal Benedita da Silva, do PT carioca e frequentadora da Assembleia de Deus. Para Benedita, que no PT é coordenadora nacional do núcleo evangélico, Damares “se coloca no lugar da família ideal, da família perfeita, que o Governo fala que está ameaçada pela esquerda”. Um tema sensível tendo em vista que a população brasileira é, de forma geral, conservadora, ainda segundo a parlamentar.

Em defesa da mulher e da família

A antropóloga Teixeira, que mergulhou em projetos relacionados com questões de gênero e direitos reprodutivos dentro da Igreja Universal, e que agora vem se debruçando sobre a gestão de Damares, destaca a trajetória de vida e política da atual ministra. Ao contrário de outras membros do Governo, ela possui experiência no legislativo e na máquina pública. Foi secretária de assistência social de São Carlos, no interior de São Paulo, e durante os últimos 20 anos foi assessora parlamentar de deputados da bancada evangélica. Fundou a Anajure, associação de juristas cristãos com forte influência em Brasília, e envolveu-se diretamente em discussões sobre violência contra a criança e contra mulher ?sobretudo após a aprovação da lei Maria da Penha, a qual apoiou. Por outro lado, colocou-se como ferrenha militante anti-aborto e ajudou a difundir a ideia de que a educação sob o PT ensinava a chamada “ideologia de gênero”.

Em suma, Damares, de 55 anos, sempre foi o canal direto entre projetos produzidos no seio da Igreja e as pautas que circulavam no Parlamento. “Além de tudo, ela é mulher e filha de um pastor da Igreja missionário. Ela viveu em oito Estados do Brasil, o que também ajuda a produzir essa sensação de capilarização, de ressonância”, explica Teixeira. “Tudo isso ajuda a configurar essa aliança da atual gestão com os evangélicos e a conferir certa confiança desses setores populares com relação ao Governo”, acrescenta. “Mas essa aliança ainda é instável”.

Além de ser uma das duas mulheres a ocupar o primeiro escalão do Governo Bolsonaro, Damares é um dos membros mais estridentes dessa gestão. “Muitas pessoas tem dito que ela é louca, mas temos que tomar cuidado. Nesse exercício de transformar políticas de igreja em políticas públicas, ela consegue se comunicar com segmentos da população”, argumenta Teixeira. O EL PAÍS solicitou uma entrevista com a ministra, mas não obteve resposta até o fechamento desta reportagem.

Damares é um ponto fora da curva, mesmo dentro da bancada evangélica na Câmara. O grupo é formado majoritariamente por homens brancos conservadores e ricos, enquanto que a população protestante no Brasil é formada majoritariamente por mulheres pobres e negras. Pesquisadores vêm apontando os evangélicos estão longe de ser um grupo homogêneo, com pensamento único, por isso o fato de Damares ser cristã e possuir uma trajetória política de décadas dificilmente explica por completo sua popularidade. De alguma forma, a ministra reflete as contradições e anseios desse contingente. Além de ser mulher, como a maior parte do país, foi vítima de violência sexual e doméstica quando criança. Não foge de abordar temas caros para setores progressistas, como o racismo e a causa indígena. Ao mesmo tempo que propõe a campanha pela abstinência sexual, irritando até pastores como Silas Malafaia, cita dados da Unicef sobre gravidez precoce ou estatísticas que mostram epidemias de doenças dexualmente transmissíveis, como a sífilis, e não se diz contra que a educação sexual seja abordada nas escolas ?ainda que, na prática, especialistas digam que o atual governo vem freando avanços nessa área, quando, por exemplo, expõe veto a material que trate de diversidade sexual e gênero.

“Querendo ou não, ela sempre trabalhou em assessorias voltadas para determinados direitos civis, diferentemente de outros membros do Governo. Então ela vai sempre ter uma posição minimamente mais humanizada ou moderadamente mais progressista que os demais, porque ela constituiu sua própria trajetória nessas discussões sobre direitos civis e humanos”, explica Teixeira. Além disso, Damares não raro diz ser uma mulher “empoderada”, que deu a volta por cima e que ocupa um cargo no primeiro escalão. “Essa dinâmica do empoderamento não está só com o feminismo e a esquerda. As igrejas, mesmo tendo que lidar com noção de submissão, precisa dar sentido, ressignificar essa palavra, mesmo você sendo uma mulher evangélica”, acrescenta a antropóloga.

Essa mesma mulher forte e empoderada é também a “mãe Damares” que reforça os valores da família tradicional diante de um mundo em constante mudança. Um medo dos recentes avanços que está relacionado, segundo Texeira, com as teologias “muito apocalípticas” que circulam e que “de alguma maneira estão remetendo a uma ideia final e de pensar em mecanismos de salvação, de políticas mais radicais”. Mas sua mensagem é também de cuidado e de acolhimento diante das dores cotidianas. “Na última campanha para a prefeitura do Rio, Marcelo Crivella [bispo licenciado da Igreja Universal e atual prefeito da capital fluminense] falava que iria ‘cuidar das pessoas’, enquanto Marcelo Freixo dizia que não iria cuidar, mas sim ‘trabalhar junto’. Mas as pessoas já trabalham demais, sofrem demais. Elas querem cuidado mesmo”, explica o professor e historiador João Bigon, evangélico da Igreja Batista e coordenador do Movimento Negro Evangélico no Rio de Janeiro.

Morador de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, Bigon explica que a defesa dos valores familiares nem sempre está relacionado com uma ideologia conservadora. “As pessoas que moram em favelas e periferias muitas vezes só têm isso, a família. Para elas, a defesa da família muitas vezes não é uma questão ideológica, mas sim uma lógica de proteção”, argumenta. Ele conta que muitas mulheres buscam igrejas justamente em contexto de fragilidade familiar: por exemplo, quando está sofrendo violência doméstica e teme denunciar para a polícia, quando o marido está abusando do álcool, o filho está na vida do crime… “E a mulher busca no sagrado um reforço para unir uma família. Ela luta o tempo todo pra trazer esse filho ‘desgarrado de valores cristãos’ e a igreja muitas vezes consegue resgatá-lo. Ela diz que é pecado beber, usar droga, cria uma mentalidade que faz ele se apartar disso tudo”, explica Bigon. A antropóloga Teixeira segue na mesma linha e explica: “A defesa da família está focada no único lugar possível existência. Ela simboliza uma espécie de segurança dentro de territórios pós-coloniais como o nosso, permeados pela sensação de violência, vulnerabilidade e instabilidade”.

O antropólogo Lucas Bulgarrelli usou o Twitter para lançar pistas dos motivos pelos quais o discurso sobre abstinência pode se mostrar atrativo até para pais que não se consideram conservadores. “A ideologia de gênero tem sido uma das ferramentas mais bem sucedidas da direita no Brasil. Ao disputar o sexo e o gênero no campo da política, oferece uma compreensão de mundo bastante útil para quem questiona se está sendo um bom pai ou mãe. Porque [isso] localiza as dificuldades sobre o sexo e a sexualidade como um elemento externo ao núcleo familiar e contrário a seus valores. Um mal, portanto, que vem de fora para dentro por contaminação, podendo, por consequência, ser combatido”, escreveu Bulgarelli .

Vinculado também a movimentos sociais progressistas, Bigon lembra de alguns debates que vivenciou com não-evangélicos. Como quando um vídeo que viralizou nas redes mostrava uma Damares relatando ter visto Jesus em um pé de goiaba no momento em que se pensava em se matar. “Aquilo virou meme, muitos riram e inclusive passaram a duvidar de sua sanidade mental”, recorda. “E eu disse: não podemos tratar dessa forma uma experiência que foi só dela, porque essa experiência, por mais absurdo que pareça, vai de encontro ao coração de muitos brasileiros que vão dizer que já aconteceu algo parecido. É a experiencia de fé do indivíduo e com o que ele acredita”, prossegue.

Incômodo progressista

Nas eleições de 2006 e 2010, a maior parte da população protestante votou nos candidatos do PT ?que mantinha uma aliança pragmática com lideranças evangélicas? nas eleições presidenciais. Algo que mudou sensivelmente nas eleições de 2014, quando a maioria apoiou o tucano Aécio Neves. Mas a distância aumentou radicalmente em 2018, quando cerca de 70% dos eleitores evangélicos apoiaram Bolsonaro. Em entrevistas recentes, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem defendendo que seu partido se empenhe em reconquistar essa importante fatia do eleitorado.

“Eu assisti, na cadeia, a muito culto, muita gente rezando. E eles estão entrando na periferia, porque o povo, quando está desempregado e necessitado, a fé dele aumenta”, afirmou o petista ao portal UOL neste domingo. “Acho que o papel do Estado é ser laico, não ter uma posição religiosa. Mas o que o PT tem que entender é que essas pessoas estão na periferia, oferecendo às pessoas pobres uma saída espiritual, uma saída que mistura a fé, com o desemprego, com a economia”, complementou. “As pessoas estão ilhadas na periferia, sem receber a figura do Estado. E recebem quem? De um lado, o traficante que está na periferia. De outro lado, a Igreja Evangélica, a Igreja Católica, que também tem uma atuação forte ainda”.

A deputada petista Benedita da Silva faz uma autocrítica ao admitir que em determinados aspectos o PT deixou de dialogar diretamente com os evangélicos. Ela argumenta, no entanto, que o caminho para reverter isso não passa por usar o púlpito para fazer política. “O PT tem um projeto de inclusão social. Temos que falar sobre emprego, violência, políticas públicas”, opina. Também destaca que a disputa não deve se dar com a religião em si, mas com instituições religiosas que possuem um projeto de poder. “Temos que deixar claro que a fé é algo de cada um e que será sempre respeitada.”

Isso significa, por exemplo, deixar claro que “ninguém vai obrigar um pastor a realizar em sua igreja um casamento homoafetivo” e deixar claro que “esse é um tema que deve ser tratado no âmbito civil, não da fé”, segundo explica Valéria Vilhena, do Evangélicas pela Igualdade de Gênero. “Não podemos deixar toda essa comunidade fora do diálogo, nos fechar e achar que são todos ignorantes, desprezar a capacidade de pensarem e também de saírem do senso comum”, opina.

Em outras palavras, explica a antropóloga Teixeira, “é preciso não demonizar a pessoa evangélica”. “Precisamos dar nome aos problemas, e o problema é o Silas Malafaia, é Bolsonaro… Mas uma pessoa que decide professar uma fé evangélica não é alguém que podemos necessariamente colocar 100% na direita conservadora ou como apoiadora do nazismo, porque elas são permeadas por muitas outras camadas e pertencimentos religiosos e político”, explica. “E se a maioria é formada por mulheres negras, a quem é que estamos nominando quando dizemos que evangélico é isso ou aquilo?”, questiona. E conclui: “Precisamos ter uma postura que dê espaço para entender um pouco como essas pessoas estão pensando em relação à política sem necessariamente elegê-las como inimigos. Eles existem, mas existe um contingente imenso que está vivenciando isso sem necessariamente escolher por um lado ou outro. Eles fazem uma leitura da política que não necessariamente é a do pastor. Elas também tem discernimento, e a partir disso precisamos pensar em pedagogias de diálogo e de troca de conhecimento.”

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