DO EL PAÍS
Lula da Silva, durante la entrevista con EL PAÍS, en su oficina en São Paulo.
Lula da Silva, durante la entrevista con EL PAÍS, en su oficina en São Paulo. Lela Beltrão (EL PAÍS )

 Juan Arias

No Brasil, algumas placas tectônicas da política estão se movendo de repente, enquanto Lula, já fora da cadeia e com liberdade de palavra e ação, continua envolto em silêncio político. Sabemos através de terceiros o que pensa e o que está organizando. Aparentemente, sua grande preocupação seria definir os possíveis candidatos de seu partido, o PT, com vistas às eleições municipais. Muito pouco para o momento crítico que o país vive, em que estão em jogo sua liberdade de pensamento e seu futuro democrático.

Vemos que o bolsonarismo mais exacerbado e autoritário, mais de extrema direita, está levantando a cabeça e o presidente Bolsonaro, enaltecido pelos seus, já não fala apenas em disputar a reeleição em 2022, como até insinua poder se eternizar no cargo para além de oito anos. Quando parecia que seu balão de popularidade tinha furado, alcançando índices insignificantes de consenso superados até por seu ministro da Justiça, Sergio Moro, de repente parece ter levantado a cabeça.

As últimas pesquisas lhe dão, de fato, um crescimento significativo de apoio popular e ele, encorajado, imediatamente deu sinais claros de querer debilitar a força de Moro em seu Governo. Anunciou que poderia retirar de seu ministério a luta contra o crime organizado, campo no qual o ex-juiz da Lava Jato estava colhendo frutos consideráveis. Daí a retirá-lo do Governo ou empurrá-lo para fora há um passo.

Além disso, encorajado por seu crescimento de popularidade, Bolsonaro se permitiu o luxo de oferecer a Secretaria da Cultura à famosa atriz global Regina Duarte, algo que deixou perplexa a extrema direita. Seu filho Carlos, o vereador extremista do Rio de Janeiro, chegou a acusar o pai de ter escolhido uma “comunista”.

Agora Bolsonaro, mais livre, exibe como seu novo troféu a atriz que, na realidade, teria desempenhado um bom papel em qualquer governo democrático. Gilberto Gil não foi ministro da Cultura do Governo Lula? Não, Bolsonaro não se converteu repentinamente aos valores democráticos. É que ele se sente mais forte e com vontade de provocar até os seus.

Ainda não sabemos se essa escolha para dirigir a rica cultura brasileira acabará se consolidando, se a atriz se sentirá à vontade e com liberdade de ação nesse Governo de extrema direita e até quando o chefe a apoiaria se tentasse abrir novos campos de democracia cultural. Não há dúvida, no entanto, de que Bolsonaro se permite até jogar com dois baralhos e até se diverte com a nomeação de Duarte como sua nova “noiva”.

Enquanto isso, Lula continua em silêncio neste momento crucial em que poderia se consolidar um clima de autoritarismo e obscurantismo e uma caça às bruxas dentro do país, começando por operações como a intentona de condenar o jornalista norte-americano Glenn Greenwald –o fundador do The Intercept, que desentranhou as vísceras mais obscuras da Lava Jato– como um símbolo claro de desprezo pela liberdade de expressão e para desmoralizar ou punir os tradicionais meios de informação, que tenta demonizar a todo custo.

Existem, no entanto, momentos na história de uma família ou de um ou país em que é necessário esquecer os interesses mais pessoais ou de grupo para se colocar a serviço da comunidade, especialmente se esta estiver em grave perigo. Por isso Lula, que com seus acertos e erros não deixa de ser uma figura fundamental na democracia deste país e, por enquanto, ainda é um líder indiscutível, faria mal em se perder na defesa de seu curral pessoal, esquecendo-se do bem geral.

Seu papel se apequenaria se sua única preocupação fosse salvar do incêndio o seu partido, por mais importante que tenha sido e continue sendo na política geral. Nem de nada serviria neste momento um confronto direto com Bolsonaro, pois isso serviria apenas para fortalecê-lo, bem como suas hostes ultraconservadoras, que se sentem orgulhosas de ter derrotado o lulismo nas urnas.

O que o Brasil precisa, algo para o qual Lula ainda poderia ser uma peça importante, é de reunificação. Não digo da esquerda, que, como tal, parece ter poucas chances de derrotar a onda liberal-conservadora e até fascista que se impôs no país e que contagiou inclusive boa parte das classes mais baixas e pobres que um dia foram o curral exclusivo de Lula.

O Brasil, depois da explosão e da involução bolsonarista, está em um momento histórico que outros países já viveram no passado, como a Espanha, quando acabou a ditadura franquista. Só conseguiu sair do túnel fúnebre de 40 anos de obscurantismo, precedido por uma sangrenta guerra civil, com a ideia genial e inteligente de todos os partidos democráticos de dar vida por meio do famoso Pacto da Moncloa, que mais tarde seria imitado por outros países, a uma primavera democrática capaz de recuperar todas as liberdades pisoteadas pelo franquismo.

Também hoje as forças democráticas no Brasil, da esquerda à direita, precisam fazer um pacto de ação, diante do furacão extremista que agitou o país com a chegada de Bolsonaro. Deve reunir forças, esquecendo-se dos interesses pessoais ou partidários, para criar um pacto democrático capaz de devolver ao país, antes que seja tarde demais, seus melhores valores civis e de modernidade, vividos em liberdade.

Para isso, todas essas forças democráticas devem estar cientes, assim como Lula, de que não será alimentando egos e defendendo seus próprios interesses partidários, ou com slogans falsamente nacionalistas como os do bolsonarismo, que se recriará uma sociedade pacificada, unida e feliz, onde todos tenham direito à cidadania.

E onde não sejam relegadas mais uma vez ao esquecimento, como está acontecendo hoje, essas caravanas de pobres e desassistidos, vítimas de um capitalismo rançoso e cruel. Caravana de famílias que mal conseguem sobreviver e que se refletem escandalizadas nos privilégios vergonhosos de algumas minorias, começando pelos políticos.

E essas famílias da periferia econômica do país não são uma minoria sofrida e insignificante, pois hoje, infelizmente, já constituem a grande maioria numérica deste Brasil, um dos maiores e mais ricos países do mundo. Um país que, paradoxalmente, acaba de aparecer na fila daqueles que menos combatem a corrupção generalizada e quase institucionalizada. Será verdade que não existe corrupção no novo Governo Bolsonaro? É de esperar que seu ministro da Justiça, Moro, que era um lince para descobrir corrupção até debaixo das pedras quando exercia como juiz da Lava Jato, seja capaz agora de detectá-la dentro de seu próprio Governo. Ou não?

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