Jornalista fundador do ‘The Intercept’ classificou ação do Ministério Público Federal como ataque à liberdade de imprensa. Vazamentos originaram série de reportagens, com participação do EL PAÍS

O jornalista Glenn Greenwald, ano passado, no Rio de Janeiro.
O jornalista Glenn Greenwald, ano passado, no Rio de Janeiro.Ricardo Borges (AP)

O Ministério Público Federal (MPF) em Brasília denunciou o jornalista Glenn Greenwald, fundador do The Intercept, e outros seis investigados no âmbito da Operação Spoofing, que apura a invasão de celulares de autoridades como o ministro Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol, da força-tarefa da Operação Lava Jato. As mensagens privadas via Telegram das autoridades recebidas por Greenwald originaram uma série de reportagens feitas pelo The Intercept e um grupo de veículos, incluindo o EL PAÍS, que revelaram a proximidade entre Moro, então juiz da Lava Jato, e os procuradores e puseram em xeque a imparcialidade da operação.

“Glenn Greenwald, de forma livre, consciente e voluntária, auxiliou, incentivou e orientou, de maneira direta, o grupo criminoso, durante a prática delitiva, agindo como garantidor do grupo, obtendo vantagem financeira com a conduta aqui descrita”, diz o procurador Wellington Oliveira, sem maiores detalhes.

O jornalista do The Intercept sempre rejeitou ter auxiliado de qualquer forma os hackeamentos, citando o direito constitucional de sigilo de fonte. Nesta terça, em nota enviada à Folha de S. Paulo, declarou: “Há menos de dois meses, a Polícia Federal, examinando todas as mesmas evidências citadas pelo Ministério Público, declarou explicitamente que não apenas nunca cometi nenhum crime, mas também exerci extrema cautela como jornalista, nem cheguei de qualquer participação. Até a Polícia Federal, sob o comando do ministro Moro, disse o que está claro para qualquer pessoa: eu não fiz nada além do meu trabalho como jornalista —eticamente e dentro da lei.” “O Governo Bolsonaro e o movimento que o apoia deixaram repetidamente claro que não acreditam em liberdade de imprensa”, seguiu. Seus advogados disseram que vão tomar as medidas cabíveis e que pretendem acionar a Associação Brasileira de Imprensa.

Segundo a denúncia, Greenwald não era alvo das investigações inicialmente. Porém, ao longo das análises do material apreendido, foi encontrado um áudio em que o jornalista conversa com um dos investigados, Luiz Molição. A conversa teria ocorrido depois que a imprensa já havia noticiado a invasão ao celular de Moro. “Nesse momento, Molição deixa claro que as investigações e o monitoramento das comunicações telefônicas ainda eram realizadas e pede orientações ao jornalista sobre a possibilidade de baixar o conteúdo das contas do Telegram de outras pessoas antes da publicação de matérias pelo site The Intercept”, diz a denúncia. “Greenwald, então, indica que o grupo criminoso deve apagar as mensagens que já foram repassadas para o jornalista de forma a não ligá-los ao material ilícito”.

O procurador Wellington Oliveira entendeu então que Greenwald teria orientado o grupo, “caracterizando clara conduta de participação auxiliar no delito, buscando subverter a ideia de proteção à fonte jornalística em uma imunidade para orientação de criminosos”, segundo a denúncia. O MPF ainda ressalta que o jornalista não foi investigado pela Polícia Federal em respeito a uma decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, que vetou a implicação de Greenwald no caso.

Os outros denunciados são Walter Delgatti Neto, que já havia confessado ter invadido as contas de Telegram de pessoas públicas, e Thiago Eliezer Martins Santos, apontados como líderes do grupo. Além deles, Danilo Cristiano Marques, suposto “testa-de-ferro” de Delgatti, Gustavo Henrique Elias Santos, que teria desenvolvido técnicas que permitiram a invasão, a esposa dele, Suelen Oliveira, apontada como laranja, e Luiz Molição, que teria sido o porta-voz do grupo nas conversas com Greenwald, também foram denunciados. Se a Justiça aceitar a denúncia, as sete pessoas responderão por organização criminosa, lavagem de dinheiro —exceto para Greenwald— e interceptações telefônicas ilegais. Para a Procuradoria, os suspeitos utilizariam as invasões para ganhar dinheiro.

A publicação da série de reportagens marcou a agenda política brasileira desde junho de 2019 e abalou a percepção pública da Operação Lava Jato. Após as primeiras reportagens, o presidente Jair Bolsonaro chegou a sugerir que Greenwald poderia ser preso. As declarações provocaram protestos de entidades em defesa da liberdade de expressão no Brasil e no exterior.

O EL PAÍS, que assim como Folha, a Veja e outros veículos utilizou as mensagens para fazer reportagens, reitera que não paga para conseguir informações sigilosas nem estimula atos criminosos para tal, mas não se furta de apresentar a seus leitores um cabedal de notório interesse jornalístico, independentemente da forma que tenha chegado à imprensa protegido pelo sigilo de fonte.

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Comentários

Lucas Ribeiro on 21 Janeiro, 2020 at 15:52 #

Vanderlei on 21 Janeiro, 2020 at 23:04 #

Crime é crime. O americano vai ter que pagar pelo crime que cometeu. Se fosse nos EUA também pagaria também. Aliás, porque ele não volta pros EUA? Se o Brasil não criminaliza-lo, realmente, podemos fechar as portas do Brasil em termos de justiça.


Lucas Ribeiro on 22 Janeiro, 2020 at 7:14 #

Xenofobia, xenofobia , xenofobia !! ” O americano vai ter… ” Assim como a máscara do nazista Roberto Alvim caiu, outros vão saindo do armário!!!!!


Vanderlei on 22 Janeiro, 2020 at 11:15 #

Leiam com atenção o diálogo longo e criminoso mantido entre Glenn e Luiz Molição, o delator da Operação Spoofing. É material do Agora Paraná.
“Exclusivo: Greenwald orientou hackers durante o crime de invasão de celulares. Veja as conversas entre Glenn e o hacker…”, continue lendo em: https://www.agoraparana.com.br/noticia/exclusivo-greenwald-orientou-hackers-durante-o-crime-de-invasao-de-celulares-veja-as-conversas-entre-glenn-e-o-hacker-aqui


Vanderlei on 22 Janeiro, 2020 at 11:31 #

Denúncia completa do MPF contra Glenn Greenwald:

https://drive.google.com/file/d/1M0zrAsniVkCmRdxYD-G7nkeICI11C9Ck/view


Lucas Ribeiro on 22 Janeiro, 2020 at 17:01 #

A íntegra do editorial do New York Times de hoje:

Brasil indicia criminalmente Glenn Greenwald

Jornalista vem sofrendo reiteradas ameaças desde que revelou mensagens vazadas mostrando atividades ilegais do juiz que ajudou a pavimentar o caminho para a eleição de Bolsonaro

Pelo Conselho Editorial do New York Times

A apresentação de acusações criminais pelo governo brasileiro contra o jornalista norte-americano Glenn Greenwald, é mais uma expressão da prática—cada vez mais comum—de matar o mensageiro e ignorar a mensagem.

Greenwald é mais conhecido pelo seu papel na revelação de documentos vazados por Edward Snowden, ex-empregado da Agência de Segurança Nacional, em 2013. No Brasil — para onde o jornalista se mudou há 15 anos para viver com o marido, hoje um parlamentar de oposição —Greenwal é co-fundador da versão em português do site investigativo The Intercept, que tem se tornado uma pedra no sapato do presidente Jair Bolsonaro.

Em junho passado, The Intercept Brasil iniciou a publicação de uma série de matérias baseadas em mensagens vazadas que sugerem o conluio ilegal entre procuradores e o juiz Sergio Moro, o juiz que se tornou um superstar no combate à corrupção por ter prendido vários empresários e políticos, incluindo o popular ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A prisão de Lula o retirou da corrida presidencial, abrindo caminho para a eleição de Bolsonaro—que nomeou Moro como seu ministro da Justiça. Agora, soma-se ao implícito conflito de interesses a suspeita levantada pelas mensagens hackeadas de que Moro violou a lei brasileira (segundo a qual juízes devem manter neutralidade) para ajudar Bolsonaro. Logo ele, um homem que anteriormente foi glorificado por seu ataque à renitente corrupção.

Mas o campo bolsonarista rapidamente voltou suas baterias contra Greenwald, em vez de mirar em Moro. O jornalista e seu marido, Davi Miranda, vêm sofrendo uma saraivada de ameaças de morte e ataques homofóbicos. A imprensa brasileira relata que a Polícia Federal, comandada por Sergio Moro, solicitou ao ministro da Economia que investigasse as “atividades financeiras” de Greenwald, e a polícia iniciou uma investigação sobre o hackeamento dos telefones que originou os vazamentos.

A queixa-crime de 95 páginas [contra Greenwald] divulgada na última terça-feira (21) alega que o jornalista não apenas teve acesso e escreveu sobre a as mensagens hackeadas, mas exerceu um “claro papel na facilitação do cometimento do crime”. Por exemplo, os procuradores dizem que Greenwald teria se comunicado com os hackers enquanto eles monitoravam conversas privadas em um aplicativo de mensagens por celular.

Juristas e politicos da oposição afirmam que as provas são frágeis. Uma investigação da Polícia Federal, que identificou e prendeu o hacker, já inocentou Greenwald e um ministro da Suprema Corte já decidiu que a publicação das mensagens está protegida pela Constituição Brasileira.

Glen Greenwald declara que adotou “extrema cautela” no exercício jornalístico e que “jamais esteve sequer próximo de qualquer participação” no hackeamento das mensagens. Ele também destacou que a queixa-crime está sendo apresentada pelo mesmo procurador que já havia tentado, sem sucesso, processar o president da Ordem dos Advogados do Brasil por criticas feitas a Moro.

Infelizmente, atacar a imprensa livre e crítica se tornou um dos alicerces da nova leva de políticos autoritários no Brasil, assim como nos EUA e no resto do mundo. Acusações de má conduta são desqualificadas como “fake news” ou difamação politicamente motivada e o poder de Estado se volta não contra os acusados, mas contra os repórteres.

No seu relatório de 2018 sobre Liberdade de imprensa, a organização Repórteres Sem Fronteira (RSF) alerta que um “clima de ódio e animosidade” insuflado por governantes contra jornalistas já se constitui em uma “ameaça à democracia”.

“Mais e mais governantes democraticamente eleitos deixam de encarar a imprensa como parte essencial do processo democrático, passando a vê-la como adversária a quem abertamente dirigem sua hostilidade”, afirma o relatório da RSF. Quando Bolsonaro foi eleito presidente, Repórteres Sem Fronteira o apontou como “uma grave ameaça à liberdade de imprensa no Brasil”.

O presidente Trump pode não ter causado dano à liberdade de imprensa nos EUA — as tradições e instituições norte-americanas são muito fortes para que isso aconteça — mas a incessante desqualificação de notícias que o desagradam como “fake news” e seus asquerosos ataques a repórteres como “inimigos do povo” vem fornecendo apoio e encorajamento para tipos como Bolsonaro, cujos ultrajes a repórteres são movidos tanto pelo desdém pessoal pela liberdade de imprensa quanto pelo método cínico de estimular a raiva de seus seguidores.

As reportagens de Glenn Greenwald fizeram o que a imprensa livre deve fazer: revelaram a verdade dolorosa sobre ocupantes do poder. A nódoa na imagem heroica de Moro foi obviamente um choque para os brasileiros e um prejuízo para Bolsonaro, mas exigir que defensores da lei sejam escrupulosos na sua adesão à legalidade é essencial para a democracia. Atacar o mensageiro é um grave desserviço é uma perigosa ameaça ao império da Lei.

destaques


Lucas Ribeiro on 22 Janeiro, 2020 at 17:01 #

Vanderlei on 25 Janeiro, 2020 at 15:58 #

Tal e qual a Folha de São Paulo o New York Times é. A verdade aparecerá como é cristalina nas condenações do Lula. Na Bíblia está escrito: diga com quem tu andas e eu direi quem tu és! E as companhias do Gleen Greenwald são Hackers que serão condenados. Gleen foi acusado de participar diretamente do crime junto com a gangue – segundo o MP, há prova de que ele “auxiliou, orientou e incentivou” o furto das conversas. Ele pode até não ser condenado, mas isso é coisa de um Brasil, indubitavelmente, cheio de impunidades, pois estamos cheios de bandidos poderosos, políticos e empresários, julgados e condenados soltos, como o próprio Lula.


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