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ARTIGO

velha Glória pela lente de Fellini

 

Janio Ferreira Soares

 

Como não uso WhatsApp, por esses dias, enquanto eu lia um belo texto sobre o centenário de Fellini, Valéria me mostrou no seu celular um velho filme que falseia completamente a verdade sobre a inundação da velha Glória e a construção da nova cidade.

Produzido em 1974 e ufanista até o talo, o que se vê é uma louvação ao Brasil ame-o ou deixe-o, onde imagens de casinhas de taipas rodeadas por crianças esquálidas são mostradas ao toque de um violão plangente e de uma lamuriosa flauta em tons de uma esmolinha pelo amor de Deus, tudo na intenção de reforçar a ideia de que seus habitantes viviam condenados ao atraso, mas, depois de “indenizados com justiça e compreensão”, encontrariam a tão sonhada modernidade.

Na sequência, engenheiros abrem uma planta mostrando as 208 habitações (um embrião do Minha Casa Minha Vida) que seriam construídas a um custo de “25 milhões de cruzeiros”, expressados pelo locutor com uma entonação que até parece que a quantia seria distribuída entre os ariados moradores sem saber pra onde ir.

Glória, se viva, teria completado 133 anos no último dia 6 de janeiro, apenas um Cristo a mais do que Fellini, que nessa segunda-feira, 20, faria 100 anos em sua Rimini, cidade que lhe serviu de inspiração para seu poema maior, Amarcord. E aí, meus caros e caras, me vejo forçado a montar no lombo do jumento que ora relincha as horas pra quem não usa Rolex, e viajo em como seria um filme sobre o afogamento de pedaços do meu passado pela lente do genial italiano.

Entre tantas figuras iguais às suas, creio que ele se fixaria no aluado Zé Bacalhau, que quase perdeu a mão na esteira de um trator depois de jurar que o motor lhe dizia: “bote o dedo, Zé!”; em Lulinha Boca Preta, que todo dia surgia de paletó na casa de minha avó com um violão, cantando: “você partiu, saudades me deixou, eu chorei” e depois recitava, de sua autoria: “e meu corpo vai morrendo, minha alma vai gemendo, na alegria de voltar”; em Osminho, viciado em pimenta e cachaça, que, do nada, parava no meio da rua e cantava alguma do Trio Nordestino e aí, numa alusão ao seu cantor, berrava: “Lindú é foda!”; ou em Barbosinha, que quando chegava bêbado na casa de tio Rui, ameaçava parar o ventilador com a língua.

No fim, embarcaríamos num imenso navio ancorado no Caxacá e seguiríamos à deriva, com Lulinha Boca Preta gritando desesperadamente num megafone: “e agora, meu povo, para onde?”, enquanto sereias e negos d’água dançariam na réstia da Lua ao som do pífano de Zé Bode, da zabumba de Carrinho e do tarol de Tonho de Duba, os três a flutuar como anjos banidos em busca do adro da igreja, que surgiria submersa na tela com peixinhos prateados nadando ao redor de Santo Antônio e de um assustado Menino Jesus fazendo glub glub no altar.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura  de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

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