DO EL PAÍS

Roberto Alvim copiou trechos de discurso de ministro da Propaganda de Hitler e atribuiu o fato a uma “busca” feita por sua equipe no Google. Atriz Regina Duarte foi convidada para o cargo

O pronunciamento do secretário Roberto Alvim.
O pronunciamento do secretário Roberto Alvim.

Ao som de Richard Wagner, o compositor favorito de Adolf Hitler, o secretário de Cultura do Governo, Roberto Alvim, plagiou em pronunciamento que foi ao ar nas redes sociais trechos de um discurso do ministro da Propaganda do führer nazista, Joseph Goebbels. “A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa […] ou então não será nada”, diz Alvim no vídeo. O líder nazista havia dito: “A arte alemã da próxima década será heroica, será ferrenhamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa (…) ou então não será nada”. O caso provocou revolta nas redes sociais e a manifestação dos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Supremo, Dias Toffoli. A Confederação Israelita do Brasil considerou “inaceitável” o uso do discurso. No início da tarde desta sexta, o Governo demitiu o secretário , alegando que o pronunciamento “tornou insustentável” sua permanência.

Após parafrasear o nazista, Alvim afirmou nas redes sociais que se tratou de uma “coincidência retórica” e que não citou Goebbels “e jamais o faria”. Ao jornal O Estado de S. Paulo, no entanto, ele disse que “a origem [da frase] é espúria, mas as ideias contidas da frase são absolutas perfeitas.” “Eu assino embaixo”, ressaltou. Já em entrevista à Rádio Gaúcha, ele apresentou nova versão, e se defendeu alegando que foi uma “infeliz coincidência retórica”, fruto de uma pesquisa feita por sua equipe no Google. A busca teria sido por discursos que envolvessem “nacionalismo em arte”. Ele admitiu ter escrito 90% do texto lido na quinta-feira, mas não os trechos copiados de Goebbels. Por fim, o secretário foi novamente às redes sociais, onde afirmou que, “se soubesse da origem da frase, jamais a teria dito. Tenho profundo repúdio a qualquer regime totalitário, e declaro minha absoluta repugnância ao regime nazista”. Ele pediu desculpas à comunidade judaica, e disse ter colocado o cargo à disposição de Bolsonaro “com o objetivo de protegê-lo”.

Horas após a demissão, o jornal Folha de S.Paulo revelou que a atriz Regina Duarte foi convidada para assumir o lugar de Alvim. Em entrevista ao programa Os Pingos nos Is, da rádio Jovem Pan, a atriz disse que ainda não decidiu se aceita o convite, mas destacou que não se sente preparada para o cargo. “Acho que a gestão pública é algo complicado, uma pasta como a da Cultura, muito mais. Este é um país imenso e continental, tem muitos artistas, grupos, criações, vamos querer abraçar tudo. Então, eu fico muito preocupada de não estar preparada”, comentou. Duarte ficou de dar uma resposta a Bolsonaro neste sábado.

Histórico

Não é a primeira vez que um integrante do primeiro escalão bolsonarista emula regimes autoritários em detrimento da democracia. O ministro da Economia, Paulo Guedes, já defendeu em duas ocasiões um novo Ato Institucional número 5 (AI-5) da ditadura militar, responsável pelo endurecimento da repressão e conhecido como “golpe dentro do golpe”. A fala aconteceu depois de uma referência ao AI-5 feita pelo próprio filho do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, que defendeu a medida caso a “esquerda radicalizasse”. O próprio presidente fez sua carreira política defendendo torturadores da ditadura, como o coronel do Exército Carlos Brilhante Ustra, famoso por inserir ratos na vagina de presas políticas e morto em 2015.

O discurso de Alvim coloca Bolsonaro em uma situação delicada. Eleito com apoio de boa parte da comunidade judaica do país, o presidente se empenhou desde a posse na tarefa de estreitar laços com o premiê israelense, Benjamin Netanyahu. O Planalto, inicialmente, afirmou eu não iria comentar o discurso de inspiração nazista de Alvim. Horas depois veio a nota do presidente afirmando que ele seria demitido. Já a Confederação Israelita do Brasil divulgou nota dizendo ser “inaceitável o uso de discurso nazista pelo secretário”. “É um sinal assustador da sua visão de cultura, que deve ser combatida e contida”, diz o texto. A embaixada da Alemanha no Brasil publicou texto afirmando que “o período do nacional-socialismo é o capítulo mais sombrio da história alemã […] opomo-nos a qualquer tentativa de banalizar ou glorificar esta era”.

Mesmo dentro do círculo bolsonarista o plágio de um discurso nazista não foi bem recebido. O filósofo Olavo de Carvalho, principal ideólogo do Governo, afirmou ser “cedo para julgar, mas o Roberto Alvim talvez não esteja muito bem da cabeça. Veremos”. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), pediu a demissão do secretário: “Passou de todos os limites. É inaceitável. O Governo brasileiro deveria afastá-lo com urgência do cargo”, escreveu no Twitter. Davi Alcolumbre (DEM-AP), presidente do Senado, também se manifestou: “Como primeiro presidente judeu do Congresso Nacional, manifesto veementemente meu total repúdio a essa atitude e peço seu afastamento imediato do cargo”. O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, também se manifestou: “Há de se repudiar com toda a veemência a inaceitável agressão que representa a postagem feita pelo secretário de Cultura. É uma ofensa ao povo brasileiro, em especial à comunidade e judaica”.

Dramaturgo por formação, Alvim ocupava a direção do Centro de Artes Cênicas da Funarte. No período ele chegou a atacar a atriz Fernanda Montenegro após ela criticar o presidente em entrevista. Bolsonaro o promoveu para a chefia da secretaria de Cultura em novembro de 2019. No comando da pasta, ele chegou a nomear Sergio Camargo para a presidência da Fundação Palmares: o indicado pedia o fim do movimento negro e relativizava a escravidão no Brasil.

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Comentários

Vanderlei on 19 Janeiro, 2020 at 0:20 #

Muita fumaça por muito pouco fogo. O Alvin acendeu um pau de fósforo, e, principalmente, as mídias nacionais e internacionais produziram, do pequeno fogo, mais fumaça do que os vulcões produzem. E o filme do Wagner Moura, minusculo mesmo, ENALTECENDO o TERRORISTA Marighella?


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