DO EL PAÍS

Miley Cyrus, Rod Stewart, George Harrison. Existem muitos casos de cópias de obras musicais, porque (quase) tudo já foi inventado

 

A cantora norte-americana Miley Cyrus (Tennessee, 1992) acaba de chegar a um acordo em um processo de plágio no qual lhe pediam 300 milhões de dólares (cerca de 1,227 bilhão de reais). Foi movido pelo compositor jamaicano Michael May —conhecido artisticamente como Flourgon—, que alegou que a canção We Can’t Stop (ouça a canção clicando aqui) da norte-americana era idêntica ao seu tema We Run Things (ouça a canção clicando aqui). O valor total do contrato não foi revelado.

Embora a criação de May tenha ficado em primeiro lugar na ilha caribenha durante várias semanas de 1988, globalmente é muito menos conhecida do que o tema de Cyrus, que foi um sucesso mundial que chegou a ocupar o segundo lugar na lista de vendas dos Estados Unidos. Só não chegou a ficar em primeiro foi porque essa posição foi arrebatada por Blurred Lines, de Robin Thicke, música que também foi alvo de uma ação por plágio. Os queixosos foram os herdeiros de Marvin Gaye, que consideraram que a canção era igual a Got to Give Up, lançada pelo artista da Motown em 1977. Fatos que demonstram que, no mundo da música, o plágio é mais frequente do que parece. Entrem, vejam e ouçam.

Miley Cyrus, em show em junho de 2019.
Miley Cyrus, em show em junho de 2019.

‘My Sweet Lord’ (1970), de George Harrison, possível plágio de ‘He’s So Fine’ (1962), de Ronnie Mack

O caso. Depois da dissolução dos Beatles, George Harrison lançou All Things Must Pass, um álbum triplo produzido por Phil Spector que incluía My Sweet Lord, um tema que Ronnie Mack considerou uma cópia de He’s so Fine, composição que ele havia feito para o grupo nova-iorquino The Chiffons.

A resolução. My Sweet Lord havia sido gravada previamente por Billy Preston em 1970, mas passou despercebida. No entanto, quando Harrison a incluiu em All Things Must Pass e a escolheu como single, se tornou um sucesso graças em parte ao seu pegajoso e memorável refrão que dizia “Hare Krishna, hare Krishna / Krishna Krishna, hare hare”. Em fevereiro de 1971, a editora que tinha os direitos de He’s So Fine processou Harrison. Depois de ouvir diferentes especialistas, o tribunal decidiu que o ex-beatle havia cometido um “plágio inconsciente” e deveria compensar os autores da canção. As negociações sobre o valor se alongaram e, finalmente, Harrison tomou uma decisão drástica: em 1981 decidiu comprar os direitos de He’s So Fine por mais de meio milhão de dólares e encerrou o assunto.

Ouça My Sweet Lord clicando aqui.

Ouça He’s So Fine clicando aqui.

George Harrison lê livro de Bob Dylan em imagem de arquivo.
George Harrison lê livro de Bob Dylan em imagem de arquivo.

‘Stairway to Heaven’ (1971), de Led Zeppelin, possível plágio de ‘Taurus’ (1967), do Spirit

O caso. Em 1971, o grupo britânico Led Zeppelin lançou o álbum Led Zeppelin IV. Aqui foi incluída o que talvez seja sua música mais conhecida: Stairway to Heaven. A canção foi um sucesso, mas, com o passar do tempo, muita gente encontrou semelhanças demais entre essa composição e Taurus, do grupo Spirit, cujos shows o Led Zeppelin havia aberto em sua primeira turnê pelos Estados Unidos.

A resolução. Em 2016, cansados de ver como Jimmy Page e seus colegas de grupo compravam mansões e viviam intensamente, em grande parte, graças aos lucros de Stairway to Heaven, os herdeiros de Randy California, líder do Spirit e compositor de Taurus, entraram com uma ação contra Page que, como Diego A. Manrique contou neste artigo para o EL PAÍS, não era a primeira vez que se inspirava demais nas composições de outros artistas. Durante o processo o júri não pôde ouvir as duas canções, baseando sua decisão apenas nos relatórios periciais feitos por especialistas, o que resultou na absolvição de Page. No entanto, e diante do recurso dos herdeiros de Randy California, em setembro de 2019 um tribunal de apelação começou a estudar se era necessário repetir o julgamento ou não por falhas na primeira instância. Randy California morreu em 1997 enquanto surfava no Havaí.

Ouça Stairway to Heaven clicando aqui.

Ouça Taurus clicando aqui.

‘Da Ya Think I’m Sexy?’ (1978), de Rod Stewart, possível plágio de ‘Taj Mahal’ (1972), de Jorge Ben

O caso. Em 1972, Jorge Ben lançou seu álbum Ben, um trabalho de fez muito sucesso no Brasil e no resto do mundo graças a temas como Fio Maravilha e Taj Mahal. Alguns anos depois, Rod Stewart se apropriou da melodia e do ritmo de Taj Mahal para criar Da Ya Think I’m Sexy?, que se tornou uma das canções mais populares do músico inglês.

A resolução. Jorge Ben não hesitou e processou Stewart, que acabou reconhecendo que Da Ya Think I’m Sexy? era um plágio de Taj Mahal, embora “involuntário”. O tribunal obrigou o inglês a indenizar o brasileiro, mas, em um gesto de malícia ou de humanidade, Rod Stewart propôs que o dinheiro, em vez de ir para o bolso de Ben, fosse doado para o Unicef. O músico carioca não teve escolha senão aceitar para não fazer papel de desalmado, embora, desde que o litígio foi resolvido, em 1979, ele receba os direitos autorais tanto de Taj Mahal quanto de Da Ya Think I’m Sexy?. De fato, por acaso ou não, as versões seguintes que Jorge Ben fez de sua canção têm arranjos que lembram bastante a de Stewart.

Ouça Da Ya Think I’m Sexy? clicando aqui.

Ouça Taj Mahal clicando aqui.

Rod Stewart durante apresentação em Budapeste.
Rod Stewart durante apresentação em Budapeste. Balazs Mohai / EFE

‘Get Free’ (2017), de Lana Del Rey, possível plágio de ‘Creep’ (1992), do Radiohead

O caso. Em 2018, Lana Del Rey admitiu os rumores de que a banda Radiohead estava determinada a entrar com uma ação contra ela. O motivo da disputa era o suposto plágio entre sua música Get Free, incluída em Lust for Life, seu quinto álbum, e Creep, uma composição do grupo britânico que foi o lado A do seu primeiro single. Lana Del Rey, que admitiu as semelhanças, ofereceu à banda 40% dos lucros da canção, mas o Radiohead exigiu 100%.

A resolução. Em 2018, ao terminar a interpretação de Get Free no festival Lollapalooza, em São Paulo, Lana Del Rey acendeu um cigarro e disse ao público: “Agora que o litígio está resolvido, acho que posso cantar essa canção quando quiser, não?”. Com isso confirmou que as partes tinham chegado a um acordo cujas cláusulas não foram divulgadas. De fato, no site da ASCAP, o equivalente norte-americano do Ecad, os autores da canção continuam sendo os membros da equipe de Lana Del Rey e não os componentes do Radiohead.

Ouça Get Free clicando aqui.

Ouça Creep clicando aqui.

‘Creep’ (1992), do Radiohead, possível plágio de ‘The Air I Breathe’ (1973), dos Hollies

O caso. É surpreendente que os membros do Radiohead tenham se mostrado tão incomodados com Lana Del Rey por causa das semelhanças entre Get Free e Creep, quando a verdade é que esta última é muito parecida com The Air I Breathe, dos Hollies. Pelo menos, o suficiente para que seus autores, Albert Hammond e Mike Hazlewood, decidissem entrar com uma ação por plágio.

A resolução. Os tribunais deram razão a Albert Hammond e Mike Hazlewood e, a partir de então, Creep deve ser creditada tanto em nome da banda britânica quanto desses dois compositores. Agora se entende melhor por que o Radiohead não queria continuar dividindo os lucros de Creep com mais gente…

Ouça Creep clicando aqui.

Ouça The Air I Breathe clicando aqui.

Thom Yorke durante show do Radiohead no Rio de Janeiro.
Thom Yorke durante show do Radiohead no Rio de Janeiro.

‘Bitter Sweet Symphony’ (1997), do The Verve, possível plágio de ‘The Last Time’ (1965), dos Rolling Stones

O caso. Em 1964, Andrew Oldham, empresário dos Rolling Stones, criou a The Andrew Oldham Orchestra, que não era tanto uma formação musical, mas uma etiqueta para vender ao público adulto versões sinfônicas de músicas de bandas britânicas feitas por músicos de estúdio. Entre os discos lançados sob esse selo estava o The Rolling Stones Songbook, que incluía uma versão da canção The Last Time, que teve fragmentos sampleados pelo The Verve em Bitter Sweet Symphony.

A resolução. Embora o The Verve tivesse solicitado aos Rolling Stones permissão para usar um fragmento da canção em troca de 50% dos royalties, na opinião dos advogados dos Stones o fragmento era maior do que o acordado, razão pela qual entraram com uma ação e exigiram ficar com 100% dos benefícios gerados pela canção. Assim foi até que, em abril de 2019, Jagger e Richards decidiram ceder ao The Verve a totalidade da autoria. Desde então, tudo o que é arrecadado com Bitter Sweet Symphony, que não deve ser pouco, é para Richard Ashcroft (líder do The Verve) e seus amigos.

Ouça Bitter Sweet Symphony clicando aqui.

Ouça The Last Time clicando aqui.

‘Viva la Vida’ (2008), do Coldplay, possível plágio de ‘If I Could Fly’ (2004)

O caso. Viva la Vida é uma das canções mais conhecidas e pegajosas da banda britânica Coldplay. Talvez a razão seja que fosse familiar, porque é muito parecida com o tema de Joe Satriani If I Could Fly, incluído no álbum duplo Is There Love in the Space?

A resolução. Em 2009, um juiz da Califórnia rejeitou a alegação de Joe Satriani de que Viva la Vida era plágio de sua canção If I Could Fly e estabeleceu que cada parte deveria pagar suas custas judiciais. No entanto, as semelhanças entre as duas canções eram tantas que era pouco convincente que o juiz tivesse resolvido o caso dessa maneira tão estranha. A explicação é que o Coldplay e Satriani optaram por chegar a um acordo e pôr um fim ao processo judicial antes que a coisa tomasse maiores proporções. Uma decisão que, de alguma forma, mostrou que o Coldplay havia copiado mais da conta.

Ouça Viva la Vida clicando aqui.

Ouça If I Could Fly clicando aqui.

‘Surfin’ USA’ (1963), dos Beach Boys, possível plágio de ‘Sweet Little Sixteen’ (1958), de Chuck Berry

O caso. Lançado em março de 1963, Surfin’ USA foi o primeiro single do The Beach Boys a entrar na lista dos dez mais vendidos nos Estados Unidos. A partir daquele momento se tornou um clássico do repertório do grupo da Califórnia e uma das composições mais lembradas de Brian Wilson, que nunca escondeu que havia se inspirado em Sweet Little Sixteen, de Chuck Berry. Por seu lado, Berry agradeceu a homenagem, mas exigiu receber a parte que lhe correspondia dos direitos autorais.

A resolução. Quando Chuck Berry tornou pública sua decisão de processar o grupo para reivindicar a autoria da canção, Murray Gage Wilson, pai de Brian, Dennis e Carl Wilson (todos eles membros do Beach Boys), decidiu incluir Berry nos créditos. O problema foi que ele não informou Brian sobre isso, que descobriu quando o acordo já estava assinado e nunca entendeu por que seu pai também cedeu a Berry uma porcentagem na autoria da letra de Surfin’ USA, quando era exclusivamente sua

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