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Postado em 10-01-2020
Arquivado em (Artigos) por vitor em 10-01-2020 00:11

Jair Bolsonaro cogita indicar André Mendonça para o Supremo sob o argumento de que ele seria “terrivelmente evangélico”. É um critério bastante relativo e não deveria servir de base para decisão tão importante.

Prova disso é que o AGU está longe de ser o mais evangélico da família.

Enquanto Mendonça é pastor auxiliar numa igreja em Brasília há cerca de quatro anos, seu primo Luís Alberto de Mendonça Sabanay é reverendo há três décadas, fundou uma congregação presbiteriana em Santa Catarina e tem longa trajetória de serviços sociais.

Só que, além de líder evangélico, Sabanay é terrivelmente petista.

Foi vice-presidente do diretório catarinense do PT, coordenou as campanhas de Ideli Salvati e José Fritsch, e ocupou diversos cargos de confiança nos governos de Lula e Dilma, chegando a secretário de Assuntos Estratégicos e Relações Institucionais do Ministério da Pesca – até ser alvo, em 2015, da Operação Enredados, que investigou esquema de fraudes em certificados de registros de embarcações pesqueiras.

No ano passado, voltou a Brasília como uma das principais lideranças da greve de fome de integrantes do PT e de movimentos populares que acamparam por uma semana em frente ao STF, exigindo a votação das ADCs que questionavam a legalidade das prisões em segunda instância.

Pelo “Lula Livre”, Sabanay também fez vigília em frente à Polícia Federal em Curitiba. Em suas redes sociais, exibe fotografias com o ex-presidiário, Dilma Rousseff e o ex-ministro José Dirceu, além de outros próceres petistas.

Em entrevista a O Antagonista, Sabanay também criticou o uso do critério religioso para a escolha do primo como futuro ministro do Supremo.

“Religião não deve ser critério para o exercício da função pública, porque não existe cláusula constitucional que justifique isso. Já fomos um Estado religioso, mas a República trouxe a liberdade religiosa para desvincular essa relação.”

Para ele, o que interessa no desempenho da função pública é a “competência” e “que se respeite a Constituição”. O pastor presbiteriano critica o que chama de “tendência de se usar o emblema religioso para fins políticos”.

Sabanay ressalta que a Igreja Presbiteriana estimula a liberdade de consciência e defende a “absoluta separação entre Estado e Igreja”. Embora diga que o “cristão tem que partir para a política”, o primo do AGU alerta que é preciso evitar a imposição do pensamento religioso como cultura política.

“Quando eu vou defender a luta política de militância, vou ao encontro da minha compreensão teológica. Mas não quer dizer que quero tornar o presbiterianismo ou o cristianismo uma cultura dominante. Eu respeito as opções religiosas e a diversidade cultural.”

“Qual o meu papel de militante, como cidadão e cristão? No caso da greve de fome, eu não estava ali instrumentalizando a religião, tanto que era um grupo ecumênico e não especificamente de uma denominação religiosa. O emblema era o Lula, mas não só ele. A demanda era pelo conjunto da sociedade. A questão maior era a criminalização dos movimentos sociais e populares.”

O ex-secretário da Pesca do governo petista afirma ainda que nunca condicionou os fiéis a votarem em A ou B, pois seria “uma heresia pedir voto para qualquer candidato”.

Sabanay nasceu em Ribeirão Preto, mas cresceu em Miracatu, no Vale da Ribeira, assim como André Mendonça. Formou-se em Teologia e foi morar em Santa Catarina.

Diz que mantém uma relação fraterna com o primo AGU, com quem se encontrou recentemente no aniversário de uma irmã. Ele garante que, nesses encontros, nunca discute política para preservar a família.

“Tenho absoluto respeito por ele. Sou contra a sectarização e o que me une ao André é muito maior do que a política.” Em relação a Enredados, o ex-secretário rejeita as acusações, diz já foi absolvido na esfera cível e restaria apenas derrubar uma última acusação num ação penal.

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