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CRÔNICA

                                                                   Duas belas rimas para o ano que começa

 

Janio Ferreira Soares

São quase 18 horas do segundo dia de 2020 e, em busca de um mote para escrever mais um texto, vejo no canto da sala o último livro de Ariano me desafiando com seus dois volumes ainda intactos dentro de uma linda capa dura, como se implorando meu cansado olhar a deslizar sobre sua inigualável prosa barroca.

Ao seu lado, Graciliano também me olha de soslaio e manda uma espécie de se ligue, meu rapaz, enviando algo como se fora uma charada, dizendo: “nas três letras finais de nossos nomes você vai ver aquele que ora principia e que, além de rimar conosco, é sempre uma incógnita pra quem espera dele mais do que ele pode dar”.

Se eu fosse um poeta, talvez respondesse: “por aqui seu nome é ano, mas lá em Londres ele é year. Já no Japão chamam-no era, enquanto na China ele tanto pode ser um leão, quanto um colibri”. Mas como sou apenas um velho, como diz Caetano, com cabelos nas narinas, me posto na velha cadeira de balanço, coloco uns fones e deixo a flauta de Thijs Van Leer chamar Morfeu, enquanto Adágio e outros allegros valsam com minha alma bamba.

Agora são 5 da manhã do seu terceiro dia e, fosse uma criança, o ano ainda estaria a dormir o sono dos sem pecados e sem juízo. No lago em frente, paturis voam e V e se preparam para pousar com seus característicos pios que me levam às caçadas da infância na companhia de tios e primos, lá pras bandas do Marí.

A abafada manhã sem vento traz o cheiro das margens do rio refletindo postes e me lembro do surubim que um dia meu pai desfiou com extremo carinho e colocou no lado esquerdo do meu prato de bordas floridas, falando com uma incomum voz de bondade: “peixinho! peixinho!”.

Ah, a vida, my friend! A vida, como disse José Eduardo Agualusa numa de suas últimas crônicas no O Globo, bem que poderia ser como um livro, onde no final alguns personagens nem morrem nem vivem a chatice da eternidade e então ficam como se numa suspensão, momento em que contemplam o luar num permanente passeio de barco com a mulher amada, mesmo tendo de ouvir do impaciente barqueiro: “E até quando o senhor acha que ficaremos nesse vai e vem do caralho?”, no que ele responderia: “para sempre, amigo, para sempre!”.

Igualmente ao escritor angolano, muito me agrada essa ideia de uma boa interrupção entre a continuidade da luz e a eternidade da foice, onde este escriba, antes do ponto final, terminaria sua história, sei lá, subindo a Serra do Retiro num jipe ao som de Encontros e Despedidas, enquanto mulher, amigos e filhos sorririam o riso do perdão pelas suas bobeiras e aí, com a voz de Milton dizendo que o trem que chega é o mesmo trem da partida, começaria a chover e a pena do autor suspenderia por um bom tempo o que o spoiler da vida, cruel e sem rima, em breve irá estragar.

Janio Ferreira Soares , cronista. é secretário de Cultura de Paulo Afonso, no lado baiano do Rio São Francisco

 

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