ARTIGO/Ponto de vista

Ideologia do atraso econômico e social

Joaci Góes

Ao prezado amigo Carlos Antônio Oliveira!

As diferentes correntes do pensamento socialista que se desenvolveram a partir do Século XVIII, galvanizando parcela crescente da opinião pública mundial, ganharam novo impulso com o Manifesto Comunista de 1848, da lavra de Engels e Marx, seguido de O Capital e o Trabalho, culminando na Revolução Russa de 1917. Desse momento em diante, generalizou-se a crença de que o mundo marchava para o socialismo, sentimento que ganhou revigorante musculatura com a Depressão de 1929, fenômeno que, nascido nos Estados Unidos, se derramou por todo o Planeta, abalando a crença no Liberalismo como a grande matriz do desenvolvimento econômico e social da humanidade.

Na esteira do “fracasso” do capitalismo, o Fascismo, nascido numa Itália, recém-unificada e, ainda, extremamente frágil, mudou de nome, na Alemanha, para Nazismo, com as adaptações oriundas das peculiaridades germânicas. Esse novo movimento nazifascista se apresentou como alternativa equidistante dos extremos do comunismo e do capitalismo, chegando a seduzir, em seu início, o Governo Vargas, no Brasil, e os dirigentes do Império Soviético, centrado em Moscou. Não fosse pela loucura de Hitler que o levou à hediondez do Holocausto e ao delírio de querer subjugar o mundo, o nazifascismo ter-se-ia imposto, desde então, não tendo que aguardar algumas décadas para ressurgir vigoroso na China, como regime sucessor do fracassado socialismo de Mao Tse Tung que protagonizou um genocídio algumas vezes maior do que o abominável hitleriano.

É inegável que há muitos analfabetos políticos que ignoram, de fato, e muitos espertalhões que fingem ignorar a verdade, de percepção elementar, de que o regime que vige na China é o fascismo na plenitude de sua concepção original: uma ditadura, apoiada no aparato militar e num time seleto de empresas campeãs para usufruírem da crescente produtividade de uma mão de obra abundante e disciplinada, apta a assegurar a competitividade dos manufaturados chineses nos quintais dos seus concorrentes, mundo afora. O despreparado caudilho venezuelano Hugo Chavez, em sua patética tentativa de implantar o bolivarianismo na América do Sul e em parte da África, ao imitar a China, não percebeu que a terra de Confúcio, ao reconhecer a invencível incapacidade gerencial do Estado, avançava, célere na adoção das mais tradicionais práticas capitalistas, já agora fazendo do paquidérmico Estado Totalitário sócio da dinâmica produtiva da iniciativa privada. O resultado é o que aí está, a China, já consolidada como detentora do segundo maior PIB mundial, avançando para alcançar em vinte anos o primeiro posto, ainda que, em matéria de IDH, se encontre na rabada dos povos mais avançados.

Esse progresso chinês nada tem de novo quando se sabe que, dos últimos vinte e cinco séculos, só nos últimos cinco é que a China não liderou como a nação mais desenvolvida, mesmo operando intramuros, por detrás da Grande Muralha, símbolo de sua decisão de viver em isolamento cultural. Pela primeira vez, a China se extroverte, derramando sua avançada tecnologia e reservas de trilhões de dólares para se afirmar como o novo Xerife do Universo, na altura do transcurso da primeira metade do Século XXI. Não é à toa que é nosso maior parceiro internacional, desbancando o segundo colocado, os Estados Unidos, com mais do dobro do valor do comércio exterior, nos dois sentidos.

Sem sombra de dúvidas, o sentimento que domina os povos de todas as latitudes é que, a exemplo da democracia, como sistema de governo, o capitalismo, com todos os seus defeitos, é o mais eficiente sistema econômico que se conhece. O animador sucesso do primeiro ano de governo brasileiro fornece combustível para reagirmos às forças do atraso, motivadas pelo obsessivo empenho de assegurar a vigência do quanto pior melhor, como meio de retornar ao poder, como vociferou Lula, que já deixou claro que acima do bem estar do povo ou da articulação de uma frente de esquerda que tenha viabilidade eleitoral, está a mobilização para livrá-lo da cadeia certa.
O après moi, le déluge ou l´état c´est moi de Luiz XIV deu metástase no Brasil, com o mecânico torneiro-Presidente empenhado em levar às últimas consequências o estado de abestalhamento de parte considerável da população brasileira.

Joaci Góes é escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia. Artigo publicado originalmente na edição desta quinta-feira, 30, da TB.