DO EL PAÍS

Moro e Bolsonaro diante do abismo

Presidente da República, Jair Bolsonaro, e o ministro da Justiça, Sergio Moro, durante a final da Copa América 2019.
Presidente da República, Jair Bolsonaro, e o ministro da Justiça, Sergio Moro, durante a final da Copa América 2019.Carolina Antunes/PR
 As notícias dadas por todos os meios de comunicação com ênfase nas denúncias de suposta corrupção da família do presidente Jair Bolsonaro o colocam, assim como a seu ministro da Justiça, Sergio Moro, diante de um abismo. Principalmente porque foi o próprio Bolsonaro quem alertou que podem ressuscitar novas notícias sobre o nunca resolvido “caso Marielle”, esse fantasma que se recusa a morrer e que, segundo ele, seus inimigos políticos tentam ressuscitar.

A presença de Moro no Governo Bolsonaro nestes momentos críticos se torna duplamente importante, enigmática e até perigosa. Há apenas alguns dias confessou que o presidente Bolsonaro é uma pessoa “muito digna” com quem tem uma boa relação de trabalho. A impressão que se tinha é de que Moro, que já não excluía que poderia se candidatar a vice-presidente nas próximas eleições, seguindo suas ambições políticas cada vez menos negadas, aparecia cada dia mais próximo do bolsonarismo mais duro. E agora? É verdade que pode dizer que não é mais o temido juiz da Lava Jato e apenas ministro da Justiça. Isso em teoria. Na prática, sua figura e sua imagem de intransigência contra a corrupção o colocam agora em uma situação que poderia significar seu teste definitivo. Terá de escolher. Continuará apostando em Bolsonaro e sua família diante dos novos acontecimentos? Continuará brincando de avestruz como se isso já não lhe dissesse respeito?

Outra pergunta que se impõe é até que ponto agora Bolsonaro continuará confiando em seu superministro ou temerá que possa ser traído, apoiado no consenso popular que apresenta, maior que o do presidente. Talvez tenha sido uma simples casualidade, mas, justamente neste momento surgiu a notícia de que o presidente está pensando em desdobrar o Ministério da Justiça para criar o Ministério da Segurança Pública, cuja missão é um dos êxitos de Moro no Governo, com a diminuição da criminalidade — embora os especialistas digam que não há elementos confiáveis para atribuir a queda de mortes violentas às políticas implementadas neste ano. Será que Bolsonaro está começando a duvidar da lealdade de seu ministro que também lhe servia de escudo e teme uma dessas traições das facas longas? Estaria considerando sangrar os poderes de seu ministro que de escudo pode se tornar seu inferno?

Se é difícil decifrar o que a esfinge Moro pensa hoje sobre as nuvens cinzentas que pairam sobre a família do presidente Bolsonaro, da qual está sendo rasgada uma das bandeiras fortes de seu programa, como era a luta contra a corrupção a qualquer preço, não é menos enigmático o que Bolsonaro começa a pensar sobre ele e seus escândalos que já parecem ter rompido suas margens. O presidente poderá temer uma traição de Moro, com sua fama internacional de juiz duro, que não tremeu a mão ao colocar na cadeia o mítico ex-presidente Lula e que sabe ter muitos anos pela frente em sua ainda indecifrável vocação de poder?

O mais seguro é que as próximas semanas e meses, ou talvez apenas dias, sejam definitivos nessa relação de amor e ódio que hoje une os dois personagens com maior poder no país e que, ao mesmo tempo, são seguidos perigosamente em seus passos pelo governador do Rio, o ex-juiz Wilson Witzel, não menos duro e ambicioso do que os dois, que não têm escrúpulos em anunciar desde já que poderá enfrentar Bolsonaro nas urnas.

Só Bolsonaro? E se o acaso fizesse que seu oponente na disputa pela presidência fosse Moro? Ambos foram juízes. Ambos ainda são jovens e têm fome de política. Dois duros que anunciaram ser a favor de mão forte contra o crime, o que lhes rende o aplauso das hostes bolsonaristas.

Talvez seja necessário, para tentar analisar o complexo panorama político aberto pelas investigações cada vez mais importantes e sombrias sobre a família do presidente, desenterrar o mito da esfinge grega, que era um demônio destrutivo com asas manchadas de sangue e que Sófocles chamava de “cruel cantora”. Esfinge e enigma, filha do rei Laio, cujo enigma, conhecido apenas pelos monarcas de Tebas, fora desvendado.

Para uma política correta e não destrutiva, mais do que enigmas e segredos, seriam necessários, como se dizia no jornalismo clássico, “luz e taquígrafos”, transparência e respeito pela verdade. Bolsonaro usa as palavras da Bíblia em seu lema de governo: “a verdade os libertará”. Essa verdade que desintoxica a política é o que o Brasil está precisamente necessitando nestas horas em que parece estar vivendo os fantasmas das pitonisas antigas.

“Sabor a Mi”, Nara Leão: um clássico mundial do bolero , aqui em registro raro e extraordinário na voz da musa maior da Bosa Nova, co acompanhamento mais que luxuoso de Roberto Menescal. Confira.

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

 

Por G1 SP

Músico Bira, do Sexteto do Jô, morre aos 85 anos

O músico Bira, baixista do Programa do Jô Soares, morreu na manhã deste domingo (22), aos 85 anos, em São Paulo. A informação foi confirmada por familiares.

Ele estava internado desde a última sexta-feira (20) no Hospital Sancta Maggiore, na Mooca, Zona Leste da cidade, após sofrer um AVC.

Natural de Salvador, Ubirajara Penacho dos Reis ficou conhecido como “Bira do Jô”.

 

Foto de arquivo de 01/12/2010 do músico Bira, baixista do Sexteto do Jô — Foto: EVELSON DE FREITAS/ESTADÃO CONTEÚDO Foto de arquivo de 01/12/2010 do músico Bira, baixista do Sexteto do Jô — Foto: EVELSON DE FREITAS/ESTADÃO CONTEÚDO

Foto de arquivo de 01/12/2010 do músico Bira, baixista do Sexteto do Jô — Foto: EVELSON DE FREITAS/ESTADÃO CONTEÚDO

 

Foto de arquivo de 25/05/2004 da banda Sexteto do Jô — Foto: ALE SILVA/ESTADÃO CONTEÚDO Foto de arquivo de 25/05/2004 da banda Sexteto do Jô — Foto: ALE SILVA/ESTADÃO CONTEÚDO

Foto de arquivo de 25/05/2004 da banda Sexteto do Jô — Foto: ALE SILVA/ESTADÃO CONTEÚDO

O baiano era um dos integrantes do Sexteto, banda formada por Tomati (guitarra elétrica), Osmar Barutti (piano), Chiquinho Oliveira (trompete), Derico (saxofone) e Miltinho (bateria).

O grupo acompanhou o apresentador Jô Soares nos programas Jô Soares Onze e Meia, no SBT, e Programa do Jô, da TV Globo.

Bira ganhou ganhou popularidade no talkshow por sua risada forte e alta.

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Por Jussi Maria e G1 SP, TV Globo e G1 SP — São Paulo


Jô Soares com Bira Reis — Foto: Acervo TV Globo Jô Soares com Bira Reis — Foto: Acervo TV Globo

Jô Soares com Bira Reis — Foto: Acervo TV Globo

O apresentador e humorista Jô Soares lamentou a perda de Bira, baixista do Sexteto, grupo que o acompanhou nos programas Jô Soares Onze e Meia, no SBT, e Programa do Jô, na TV Globo.

“Olha, o que falar do Bira? Dos músicos, era a pessoa mais marcante devido à sua gargalhada absolutamente contagiante. Por trás dessa gargalhada havia um ser humano muito especial. Ele era uma pessoa delicada, muito amada e muito amante. Amava as pessoas. É difícil, nessas horas, falar alguma coisa. Era querido pelos colegas, por todo mundo na produção”, contou Jô em entrevista à TV Globo por telefone.

Bira estava internado no Hospital Sancta Maggiore, na Zona Leste da cidade. Ele sofreu um AVC na última sexta (20).

 

Foto de arquivo de 01/12/2010 do músico Bira, baixista do Sexteto do Jô — Foto: EVELSON DE FREITAS/ESTADÃO CONTEÚDO Foto de arquivo de 01/12/2010 do músico Bira, baixista do Sexteto do Jô — Foto: EVELSON DE FREITAS/ESTADÃO CONTEÚDO

Foto de arquivo de 01/12/2010 do músico Bira, baixista do Sexteto do Jô — Foto: EVELSON DE FREITAS/ESTADÃO CONTEÚDO

O humorista também lembrou de outras características e momentos marcantes do baixista.

“Ele chegava e ia direto na produção. A gente brincava que ele botava a cabeça na porta, botava e tirava, para saber se estava interrompendo alguma coisa. O apelido dele foi ‘o cuco’, porque ele entrava e saia. E finalmente, ele ia para a produção para ler os jornais. As pessoas amavam o Bira, não tem o que falar. Bira, um beijo muito grande para você”, completou.

dez
23
Posted on 23-12-2019
Filed Under (Artigos) by vitor on 23-12-2019

DO SITE O ANTAGONISTA

Janaina, sobre Bolsonaro: “Só sabe liderar no conflito”

Em entrevista ao Globo, Janaina Paschoal disse que Jair Bolsonaro é “um líder do conflito”.

“Ele só sabe liderar no conflito. O meu temor é que ele venha eventualmente a perder a mão desse grau de conflito (…)

Agora, ele decide criar um novo partido (o Aliança pelo Brasil) e divide o PSL. Ele conseguiu cindir pessoas que gostam verdadeiramente dele. Concordam com as coisas que ele diz e pensa. Ele conseguiu criar um cisma onde não precisava. Foi um grande erro, gerou muita mágoa.”

EL PAÍS

A mobilização contra a reforma da previdência reabre o debate sobre a tendência da sociedade de protestar nas ruas

Manifestação em Paris contra a reforma da previdência, em 10 de dezembro.
Manifestação em Paris contra a reforma da previdência, em 10 de dezembro.Kiran Ridley (Getty Images)

“A França é um paraíso povoado por pessoas que acreditam que vivem no inferno.” A lapidar frase do escritor Sylvain Tesson resume uma época e continua sendo citada nos dias de hoje, quando o mundo volta a se perguntar o que este país tem para exprimir regularmente sua insatisfação nas ruas. Com protestos ordenados e pacíficos, como os atuais contra a reforma da previdência; ou violentos, como os realizados pelos coletes amarelos há um ano.

É o paradoxo francês: um dos lugares com maior bem-estar e melhor proteção social do planeta, um dos mais igualitários e com menor taxa de pobreza e maiores índices de expectativa de vida e fecundidade da Europa. E, ao mesmo tempo, um país onde os níveis de infelicidade são mais altos que os de outras nações comparáveis. O malaise – o proverbial mal-estar francês – é cíclico, vem e vai. Pareceu diminuir após a injeção de otimismo trazida pela vitória de Emmanuel Macron, em maio de 2017. De um ano para cá, no entanto, explodiu a revolta dos coletes amarelos – a França da classe média empobrecida das províncias que se sentia desprezada pela elite de Paris e por Macron –, e o pessimismo se instalou no coração da sociedade.

“Somos mais pessimistas que os demais países, mas as coisas estão indo bem para nós. A questão não é tanto essa, e sim a distância entre nossa percepção e a realidade”, afirma, num café de Paris, o demógrafo Hervé Le Bras, autor de Se sentir mal dans una France qui va bien (sentir-se mal numa França que está indo bem). O país, por exemplo, destina 34% do PIB a gastos sociais, cinco pontos acima da média europeia. Mesmo assim, existe num setor a percepção de que os sucessivos Governos aplicam receitas neoliberais para destruir esse sistema. Por quê, então, existe o mal-estar? “A ascensão social diminuiu, e os franceses são conscientes disso”, responde Le Bras. Some-se também a crise do ideal republicano da meritocracia, segundo o qual a educação abriria o caminho do progresso social e econômico. Mas já não é assim. E, como explicaram os economistas Yann Algan, Pierre Cahuc e André Zylberberg, consolida-se a percepção de que este é um país marcado por relações sociais “distantes e conflituosas”, uma sociedade hierárquica e estratificada, “organizada em forma de pirâmide”, sem espaço para a mobilidade.

Para explicar o paradoxo francês de um país com um forte Estado de bem-estar e infeliz, Le Bras menciona o pensador liberal Alexis de Tocqueville, do século XIX, segundo o qual a revolução de 1789 não ocorreu num momento de miséria, mas depois de décadas de melhorias que, no entanto, haviam estancado. Ou seja: as convulsões históricas ocorreriam em momentos de um certo bem-estar, mas sem expectativas de melhoria. Tocqueville também explicou que, quanto maior a igualdade, maior a insatisfação. Isso porque, “ao não estar muito longe dos demais, [os cidadãos] pensam que deveriam ser iguais aos demais”, resume Le Bras. A proximidade aumentaria o ressentimento.

O economista norte-americano Arthur C. Brooks, professor da Universidade Harvard, menciona pesquisas que detectam “um alto nível de inveja social na Europa em geral e na França em particular”. “A inveja é um verdadeiro câncer para a felicidade: se a sorte dos outros torna você menos feliz, quase nada do que tiver será satisfatório”, explica ele por e-mail.

Ninguém sabe a causa exata do mal-estar, que não é exclusivo da França, embora seja ali mais incisivo. Uma mistura de pessimismo e nostalgia o explicariam, segundo a economista Claudia Senik, coautora de Les français, le bonheur et l‘argent (os franceses, a felicidade e o dinheiro). O ensaio enfatiza outra particularidade francesa: a associação entre a felicidade e o dinheiro. Daí a centralidade, no debate político, do conceito de poder aquisitivo, associado ao nível educacional.

“A França se sente particularmente inquieta sobre seu destino coletivo”, escrevem Senik e os coautores do ensaio, Yann Algan e Elizabeth Beasley. “E, no entanto, os franceses dizem estar muito mais satisfeitos com sua vida pessoal e suas relações com o próximo e seu círculo privado.” O paradoxo não tem fim.

O medo da erosão dos direitos adquiridos

Não é apenas o difuso mal-estar francês que explica as reiteradas explosões de insatisfação nas ruas da França. A tradição revolucionária (1789, a Comuna de Paris…) e de mobilizações sociais do país – a França costuma estar entre as primeiras posições dos rankings de dias de greve anuais – pode ajudar a entender a simpatia e a compreensão que os protestos despertam.

“Os franceses têm a sensação de que as próximas décadas serão marcadas por cada vez menos progresso e cada vez mais retrocesso social”, diz o veterano cientista político Jérôme Jaffré.

A oposição à reforma proposta pelo presidente, Emmanuel Macron, tem motivos muito tangíveis: a unificação dos 42 regimes previdenciários atuais pode significar uma perda de direitos para muitos trabalhadores. E ninguém cede o que já tem gratuitamente. “Na França, temos a cultura dos direitos adquiridos”, diz Jaffré. “Os que se manifestam e os que apoiam as graves nas pesquisas estão dizendo: ‘Não gostamos da sociedade que vocês nos preparam, não gostamos da sociedade que virá. Porque é uma sociedade de direitos individuais, não coletivos, onde cada um compete com os demais.”

Em outras palavras: os franceses não estão infelizes apesar de viverem bem, mas justamente porque vivem bem e não querem perder isso.

dez
23
Posted on 23-12-2019
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Sponholz , NO

 

DO EL PAÍS

Em um dia como hoje em 1994 estreava ‘Riquinho’, o último filme do ator como astro infantil, um fracasso que o levou a deixar o cinema na mesma idade em que outras crianças entram no ensino médio

Macaulay Culkin, com10 anos, em um evento realizado em 1990, ano em que filmou 'Esqueceram de Mim'. O filme se tornou a terceira maior bilheteria até aquele momento (depois de E. T. e Guerra nas Estrelas).
Macaulay Culkin, com10 anos, em um evento realizado em 1990, ano em que filmou ‘Esqueceram de Mim’. O filme se tornou a terceira maior bilheteria até aquele momento (depois de E. T. e Guerra nas Estrelas).

Antes de ser uma estrela de cinema, Macaulay Culkin dividia um quarto com os seis irmãos. Depois de ganhar o equivalente a 200 milhões de reais em cinco anos, seu pai ainda o obrigava a dormir no sofá de sua própria mansão, para que a fama não lhe subisse à cabeça. Hoje é o 25º aniversário de Riquinho (1994), sua aposentadoria com 14 anos. Nessa idade, Culkin, a maior estrela infantil da história de Hollywood, ao lado de Shirley Temple, se emancipou legalmente dos pais, nomeou seu contador como responsável legal e depois disso não voltou a falar com o pai.

A partir daí, rios de tinta descreveram esse turbulento relacionamento familiar. Embora nos últimos anos o próprio Culkin tenha se pronunciado sobre o assunto — principalmente em uma entrevista concedida em 2018 ao podcast norte-americano da WTF — os relatos remontam a meados dos anos 90 e ao divórcio tempestuoso dos pais do ator.

Macaulay Culkin se emancipou legalmente dos pais aos 14 anos, nomeou seu contador como responsável legal e depois disso não voltou a falar com o pai

Kit Culkin era um frustrado ator de teatro: atuou com Laurence Olivier em Beckett. Sua obsessão era deixar o pequeno apartamento de dois quartos onde a família Culkin morava: nove membros no total (os pais e os sete filhos). Kit já havia acompanhado dois de seus filhos em todos os testes de elenco que pôde. Não teve sorte. Até que conseguiu com Macaulay (Nova York, 1980). O garoto tinha um encanto no meio do caminho entre O Pequeno Príncipe e Bart Simpson, e uma memória prodigiosa para lembrar dos diálogos, assim, não lhe faltou trabalho desde sua estreia no teatro aos quatro anos.

Quando tinha nove anos, filmou Esqueceram de Mim (1990), o terceiro filme de maior bilheteria até aquele momento (depois de E.T. e Star Wars), e Kit deixou seu posto de sacristão em uma paróquia católica para se dedicar a ele como empresário. Três anos depois, em 1993, a revista Premiere nomearia Kit Culkin uma das 50 pessoas mais poderosas de Hollywood.

Macaulay tinha recebido o equivalente a 1,1 milhão de reais para interpretar Kevin McCallister, protagonista de Esqueceram de Mim, um personagem que causou sensação porque não correspondia aos arquétipos infantis do cinema norte-americano (travesso, rejeitado ou perverso). Kevin era um garoto normal. A filmografia de Macaulay consistia em realizar os sonhos de qualquer criança da sua idade: ficar sozinho em casa sem a supervisão dos pais, apaixonar-se pela primeira vez (Meu Primeiro Amor, 1991, pelo qual se tornou o primeiro menino a receber um milhão de dólares por filme), viver as aventuras de seus livros favoritos (Pagemaster – O Mestre da Fantasia (1994) ou ter um McDonald’s em casa e Claudia Schiffer como personal trainer em Riquinho (1994). E também houve O Anjo Malvado (1993), um thriller psicológico que destoa entre tantas comédias para toda a família. O final traumático de O Anjo Malvado, à beira de um penhasco, é cativante em comparação com a extorsão que Kit Culkin perpetrou nos produtores do filme, a 20th Century Fox, a mesma de Esqueceram de Mim.

Macaulay Culkin com a mãe, Patricia Bretnup, o pai, Christopher Kit Culkin, e seu irmão Kieran (que acaba de receber uma indicação ao Globo de Ouro pela série 'Succession'), em Paris, em 1990.
Macaulay Culkin com a mãe, Patricia Bretnup, o pai, Christopher Kit Culkin, e seu irmão Kieran (que acaba de receber uma indicação ao Globo de Ouro pela série ‘Succession’), em Paris, em 1990.

O Anjo Malvado já contava com um protagonista infantil escolhido: Jesse Bradford (Connecticut, EUA, 1979). No entanto, três semanas antes do início das filmagens, Kit Culkin decidiu que o papel do menino psicopata seria adequado a Macaulay para demonstrar sua versatilidade como intérprete. Então, exigiu que o estúdio o contratasse. O diretor do filme se recusou porque mudar de ator no último minuto significaria atrasar as filmagens em nove meses, perder três milhões e deixar uma equipe de 60 pessoas desempregada alguns dias antes do Natal. Kit respondeu que se não lhe dessem o papel, Macaulay não faria a sequência de Esqueceram de Mim. E também teriam que contratar outra de suas filhas, Quinn, para interpretar a irmã de Macaulay. O estúdio cedeu: preferiu se ajoelhar diante de Kit Culkin do que deixar de produzir Esqueceram de Mim 2.

Nove meses e dois diretores demitidos depois, Macaulay filmou O Anjo Malvado, que fracassou nas bilheterias. Esqueceram de Mim 2 – Perdido em Nova York (1992), pelo qual o ator recebeu o equivalente a 20 milhões de reais, triunfou e reforçou o apelo comercial do prodígio infantil. Mas desde que estivesse, claro, fugindo de alguns ladrões: a produção de O Quebra-Nozes (1993), na qual Macaulay ostentou sua formação como dançarino de balé, mais uma vez pôs Kit Culkin em confronto com toda Hollywood. Em uma extensa reportagem de The New York Times, o produtor Arnon Milchan denunciou “o assédio, a extorsão e a chantagem” que o pai vinha exercendo sobre Macaulay havia meses.

Quando o estúdio decidiu inserir uma narração do ator Kevin Kline para esclarecer o enredo de O Quebra-Nozes, que os espectadores infantis dos testes de avaliação prévia do filme haviam definido como “confuso”, Kit ameaçou remover o nome de Macaulay do filme e proibi-lo de participar de sua promoção se não eliminassem aquela voz em off. O estudo acabou cedendo (“foi humilhante”, confessou Milchan, “eu odiei a mim mesmo por tomar aquela decisão”) e logo se deparou com outra lista de demandas de Kit: mudanças nos efeitos sonoros, mudanças na ordem de aparição dos nomes do elenco…

O Quebra-Nozes mal chegou a arrecadar dois milhões de dólares (8,2 milhões de reais, um décimo de seu orçamento) e os galos de Hollywood começaram a comemorar o crepúsculo da carreira de Macaulay Culkin. “As pessoas aqui estão desejando, mas desejando de verdade, que o garoto tropece. Estão desejando que sua voz mude”, alertou, sem dar seu nome, no mesmo artigo do The New York Times, um poderoso produtor que havia trabalhado com Culkin. “É a história de sempre”, concordou outro executivo anônimo, “precisamos dele enquanto ele estava no topo, mas assim que começar a cair, teremos prazer em empurrá-lo ladeira abaixo”.

Macaulay Culkin e Natalie Portman em uma festa em 2002.
Macaulay Culkin e Natalie Portman em uma festa em 2002.

Em 1994, o último ano de sua carreira, Macaulay Culkin protagonizou alegorias involuntárias de sua própria fama: em Acertando as Contas com Papai (pelo qual recebeu o equivalente a 32 milhões de reais), escondia o butim de seu pai, um ladrão de luvas brancas, e o chantageava para que o levasse ao aquário, ao parque de diversões e a um jogo de beisebol; em Riquinho (também de 1994), interpretava um garoto bilionário (todos os atores do filme eram bem altos para dissimular que Macaulay já estava com 13 anos e fazia a barba todos os dias), cuja riqueza não o fazia feliz porque o isolava do mundo real.

Em nenhum desses filmes restava alguma coisa daquele idealismo, energia e carisma natural de Kevin McCallister, seu personagem de Esqueceram de Mim. Durante as entrevistas, o ator tirava os tênis e jogava Game Boy estirado em um sofá enquanto respondia com relutância (“O que você faz quando não está rodando filmes? Entrevistas”, “Você gosta do filme? Não tive tempo de ver”) e só se envolvia na conversa quando lhe perguntavam sobre seus cães. “Acabou!”, sentenciou um agente de atores infantis, “não tem talento, não funciona na bilheteria. Foi adorável por um tempo. Winona Ryder, River Phoenix, Leonardo DiCaprio. Eles sim são atores”. E então a vida de Macaulay se converteu em um drama judicial.

Michael Jackson e Macaulay Culkin no Madison Square Garden, em Nova York, em 2001. O ator teve que testemunhar em um julgamento do cantor por abuso sexual de menores e negou ter sofrido qualquer tipo de toque inadequado de Jackson.
Michael Jackson e Macaulay Culkin no Madison Square Garden, em Nova York, em 2001. O ator teve que testemunhar em um julgamento do cantor por abuso sexual de menores e negou ter sofrido qualquer tipo de toque inadequado de Jackson.

Kit Culkin e Patricia Bentrup nunca se casaram. Quando se separaram, em março de 1995, além do litígio pela custódia dos filhos (havia outros filhos atores, nenhum à altura da popularidade de Macaulay), havia a questão da administração de suas carreiras cinematográficas. O casal não tinha renda própria nem patrimônio: viviam dos 15% que tiravam dos salários dos filhos. A fortuna de Macaulay Culkin era estimada em 205 milhões de reais (o julgamento revelou que, em 1995, restavam apenas 70) e tanto o pai como a mãe se recusavam a lutar pela custódia e a representação profissional como causas separadas.

Ambos queriam tudo. Ela citou o alcoolismo de Kit, suas agressões físicas (socos e até empurrões à beira de uma sacada) e suas infidelidades como motivo da separação. Ele negou tudo e ameaçou tirar um de seus filhos, Kieran Culkin (que estreou em Esqueceram de Mim como Fuller, o primo de Kevin que come sua pizza de queijo), da produção do filme Amanda, faltando uma semana para o começo das filmagens, e afundar a carreira de todas as crianças Culkin se não lhe concedessem a guarda compartilhada e a gestão de suas carreiras.

“As pessoas aqui estão desejando, mas desejando de verdade, que o garoto tenha um tropeço. Estão desejando que mude de voz”, alertava, sem dar o seu nome, um poderoso produtor que havia trabalhado com Culkin, em um artigo no ‘The New York Times’

Então, Macaulay jogou o Monopoly pelos ares. Conseguiu que um juiz proibisse seus pais de terem acesso à sua fortuna, comunicou que não voltaria a fazer filmes e começou a torrar suas economias em caprichos como um conjunto de fraque, cartola e monóculo. Comprou um apartamento de 465 metros quadrados em Greenwich Village (Nova York), onde se refugiou e dedicava dias inteiros ao que mais gostava de fazer antes de ser uma estrela de cinema: assistir a disputas de luta livre e andar de skate. Aos 17 anos, casou-se com a atriz Rachel Miner, de quem se divorciaria dois anos depois. Diante desse cenário, seu pai desistiu da ação e parou de brigar pela custódia. Não voltaram a se falar depois disso.

Toby Goodshank (vestido como David Bowie), Macaulay Culkin e Deenah Vollmer, membros do grupo Pizza Underground, durante um show realizado em Washington em 2014.
Toby Goodshank (vestido como David Bowie), Macaulay Culkin e Deenah Vollmer, membros do grupo Pizza Underground, durante um show realizado em Washington em 2014.

“Meu pai era um homem abusivo”, confessou Macaulay Culkin à Time anos depois, “não tanto de modo físico, embora tenha havido um pouco disso, mas de modo mental. Eu lhe pedia um descanso, queria sair de férias pela primeira vez na vida, e ele não parava de assinar contratos para mais filmes. Ninguém me ouvia. Meu pai tinha uma cama tamanho gigante e uma televisão enorme e me fazia dormir com meu irmão no sofá. Fazia isso para quebrar meu espírito. Então, eu me retirei para desaparecer da face da Terra. Mas seis anos depois compreendi que nunca iria poder me livrar da minha fama”.

Em 2004, Macaulay foi preso em Oklahoma com 17 gramas de maconha e dois tipos de tranquilizantes, o que levou o público a temer pelo ex-menino favorito do planeta: tudo indicava que seria o mais recente brinquedo quebrado de Hollywood incapaz de se recuperar quando adulto. Nesse mesmo ano, o ator teve que testemunhar no julgamento de seu amigo Michael Jackson por abuso sexual de menores de idade. Culkin e Jackson se conheceram em 1988, quando o garoto se apresentava no balé de Nova York e o cantor foi aos camarins acompanhado por Donald Trump. No depoimento Culkin negou ter sofrido qualquer tipo de toque inadequado por parte de Jackson, apesar de reconhecer que dormia em seu quarto com Kieran (que tinha nove anos de idade) enquanto seus outros irmãos dormiam em quartos diferentes. Ele também afirmou que, depois de completar 14 anos, parou de visitar Neverland e que Jackson lhe deu joias de ouro e férias nas Bermudas. E também confirmou que o cantor tinha um sistema de campainhas instalado em seu quarto para alertar se alguém estava se aproximando.

“Meu pai era um homem abusivo”, confessaria Macaulay Culkin à Time anos depois, “eu pedia uma folga e ele continuava assinando contratos para mais filmes. Meu pai tinha uma cama tamanho gigante e uma televisão enorme e me fazia dormir com meu irmão no sofá

Apesar de tudo isso, Macaulay, que já tem 39 anos, acabou seguindo em frente. Dedica seu tempo a dar festas com temas adolescentes (baile de debutantes, dinossauros) e a voltar a interpretar Kevin McCallister em campanhas publicitárias. Diz que todos os dias dezenas de desconhecidos lhe pedem que coloque as mãos nas bochechas, como fazia no pôster de Esqueceram de Mim, um pedido sempre recusa gentilmente, e que todas as suas namoradas querem assistir ao filme com ele.

Seu pai vive confinado desde que um ataque cardíaco paralisou parte de seu corpo e lamenta que nenhum de seus seis filhos (Dakota Culkin morreu depois de ser atropelada aos 29 anos, em 2008) se interesse por sua saúde. Rory e Kieran ainda estão trabalhando em Hollywood, e o segundo acaba de receber uma indicação ao Globo de Ouro pela série Succession, da HBO.

Em fevereiro, os comentários ao vivo de Macaulay Culkin sobre a última cerimônia do Oscar se tornaram virais no Twitter (“Não acredito que seja o quinto ano em que não apareço no In Memoriam … e olha que me esforcei muito”). Muitas pessoas expressaram seu desejo de que Culkin apresente a cerimônia no próximo ano e a verdade é que seria um gesto poético da indústria de Hollywood. Claro que isso significaria olhar nos olhos o fantasma de seu filho pródigo. Significaria reconhecer sua culpa. E Macaulay Culkin também não precisa de Hollywood: além de seus recordes, sua fortuna e seu lugar de honra na cultura popular, o verdadeiro triunfo de Macaulay é viver para contar. E ainda por cima rir disso tudo.

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