Resultado de imagem para Janio Ferreira Soares no Bahia e Pauta

ARTIGO  

 

 Um Papai Noel movido a absinto

Janio Ferreira Soares

 

Mais um ano se vai, mais um Natal que chega e sempre que acontece um desses raros ajuntamentos familiares, velhas histórias se misturam às rabanadas que adoçam zangas e aí lembranças rolam noite adentro aos sons dos sinos pequeninos e do espocar do abençoado vinho que, desde que da água se fez, cumpre o delicioso papel de inebriar cristãos, ateus, agnósticos e quem mais se aventurar a sorvê-lo em generosos goles sem culpa.

Pois bem, se tudo der certo, no momento em que você estiver lendo este texto o casarão onde ora teclo estas linhas estará recebendo em seus aposentos a mesma tropa que aqui viveu memoráveis natais, numa época em que a meninada, como canta Milton, respirava o vento, tinha um monte de tios na varanda, um jipe na estrada e uma insaciável sede de viver tudo.

E aí, talvez motivados pelas luzinhas piscando como uma espécie de código Morse em libras, todos começarão a se lembrar de alguma história dos Natais passados, sobretudo daquelas com a participação deste Bom Velhinho, que naquele tempo ainda era um jovem com pique suficiente pra fazer a festa de seus filhos e de dezenas de crianças daqui e dos sítios da redondeza.

Pra você ter uma ideia da fartura de meninos por essas bandas, só o meu morador tinha dezesseis. E aí quando chegavam os vizinhos, parentes e agregados era uma folia sem igual, cujo ápice, lógico, acontecia diante da triunfal chegada de um arremedo de Papai Noel que, graças à enorme expectativa pelos brindes, não sofria nenhum tipo de bullying por parte da garotada, que tanto poderia pegar no seu pé pela péssima indumentária, quanto pelo incomum desempenho motivado pelo consumo etílico anterior ao desafinado “Ho, Ho, Ho!”.

As histórias são muitas, mas vou contar a da vez em que Noel exagerou na cerveja e, pra completar, ainda tomou umas boas doses de absinto, nesses ridículos brindes motivados exatamente pela quantidade de álcool entornada. E aí, quando chegou a hora do ritual de sempre (“ninguém acorde painho que ele tá morrendo de dor de cabeça!”), ao correr por um atalho que dava na porteira levei umas duas quedas em cima de uns garranchos, como se numa prévia de que a coisa não andava nada bem.

Suando horrores e na pressa de colocar a roupa pus a calça ao contrário e, com as horas voando, tive que subir no capô do carro com aquele incômodo entrando nas partes e fui em frente.

E foi assim que naquela linda tarde de um dezembro azul, um bom e embriagado velhinho socializou tudo e deu presente caro a menino pobre, correu pra fazer xixi no mato e, naquela agonia de ficar puxando o fundo da calça como se coçando a bunda, ainda teve de ouvir uma criança cochichando no ouvido de outra: “acho que Papai Noel tá é com lombriga!”. Um bom Natal a todos.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultua de Paulo Afonso, na beira do Rio São Francisco

 
 

Be Sociable, Share!
Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • dezembro 2019
    S T Q Q S S D
    « nov   jan »
     1
    2345678
    9101112131415
    16171819202122
    23242526272829
    3031