ARTIGO

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Quem controla os controladores?

Joaci Góes

Ao bom amigo William Mateik!

Na última segunda-feira, dia 09, data internacional dedicada ao combate à corrupção, falamos no encerramento do seminário que a UNINASSAU promoveu em seu Campus Pituba, abordando o tema que intitula este artigo.

A grossa corrupção que campeia Brasil afora, como todos os grandes problemas que nos afligem, decorre, em primeiro grau, de nosso péssimo sistema educacional. Enquanto não houver uma densa consciência coletiva dessa verdade palmar, continuaremos a apanhar água em cesto, gastando dinheiro e energia no combate às consequências, ignorando as causas. Educação compreendida como uma moeda em que os valores ocupam uma das faces e o conhecimento a outra. Os valores são aprendidos, essencialmente, no berço, e o conhecimento na escola. Os destituídos de berço têm na educação escolar a última oportunidade de pegar o bonde da cidadania. Fora daí, são candidatos a engrossar a caudal dos carentes de toda ordem, rota segura do desemprego, do crime e da morte precoce. Prova disso é a ineficácia da pletora legislativa que faz do Brasil o país detentor do maior número de leis do Planeta. Assistimos a uma permanente e crescente rebelião dos fatos contra os códigos. Incorremos naquela idiotia diagnosticada por Einstein e adotada pela psiquiatria: “a loucura consiste em esperar resultados incompatíveis com as causas geradoras”.
O comportamento de biruta de aeroporto protagonizado pela nossa Corte Suprema, como se viu no grotesco episódio da derrogação da prisão a partir da condenação em segunda instância, só é possível porque não temos uma opinião pública consistente, formada por um eleitorado educado, e, por isso, compassiva com intoleráveis abusos que vêm do alto. Patinam no atraso os povos incapazes de submeter ao crivo permanente de sua vigilância as ações dos gestores. Foi refletindo sobre esse fenômeno que o poeta satírico Juvenal (58-140 d. C), questionou, com ceticismo, os que advogavam a contratação de guardas para vigiar a fidelidade das esposas: “…mas quem montará guarda aos guardas? ” (..sed quis custodiet ipsos custodes?).
O pensador irlandês David Hume, em sua História da Inglaterra (History of England), de 1771, observou com acuidade que o objeto da História consiste em demonstrar a importância da opinião pública como agente modelador da sociedade humana, porque até mesmo os mais sanguinários ditadores não podem prescindir dela para alimentar o ânimo dos que calam as baionetas. Antes dele, o inglês John Locke, no livro Dois tratados sobre o Governo (Two treatises on Government), de 1690, disse que “O corpo político deve caminhar na direção apontada pelo poder maior, que é o consenso da maioria”. E antes de Locke, o francês Blaise Pascal, nos seus Pensamentos (Pensées), 1670, lecionou que “seguimos a maioria não porque esteja correta, mas porque tem mais poder”. É verdade que muito antes de todos esses pensadores, coube ao jurista e orador romano Públio Múcio Scaevola, no segundo século antes de Cristo, formular esse princípio clássico, ao enunciar: “O que a maioria do conselho decidir deve ser considerado como decisão de todos”(Quod major pars curiae effecit pro eo habetur ac si omnes egerint), Digesto, Livro I. Nutrido dessas lições, o esperto Talleyrand aconselhou Napoleão: “Com as baionetas, Senhor, pode-se fazer tudo, menos sentar-se sobre elas”. Com essas palavras, Talleyrand ensinava ao Corso que o poder, mesmo despótico, não pode prescindir do respaldo popular. Lições que levaram Ortega Y Gasset a concluir em La Rebelion de las Masas, 1929: “O mando é menos uma questão de punhos do que de nádegas”.
Trocado em miúdos: com um eleitorado, predominantemente, de tão baixo nível educacional, não temos uma opinião pública consciente e solidamente constituída, mas um arremedo, que reage aos solavancos, e quando manipulada por discursos populistas em que se promete o céu na terra, para proveito dos espertalhões que se nutrem da manutenção das massas em estado de ignorância administrada. Massas que não tugem e nem mugem diante de investimentos em outros países, em prejuízo de mais da metade da população brasileira destituída de acesso a saneamento básico, fato que compromete a saúde, rendimento intelectual e a longevidade das pessoas. População que pede a soltura de genocidas que desviam recursos públicos que poderiam salvar milhões de vidas.
Enquanto não se faz da educação a maior de nossas prioridades, nada mais importante no atual momento brasileiro do que o apoio incondicional à Operação Lava Jato, que está sob grave risco

Joaci Góes é escrito, presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia, onde o texto foi publicado originalmente, nesta quinta-feira,12..