Resultado de imagem para Janio Ferreira Soares no Bahia em Pauta
ARTIGO

 

Um admirável santuário de jumentos

Com as lembranças derrapando nas curvas dos baleados neurônios, confesso que deveria ter seguido o conselho de Mr. Hemingway, que dizia que todo escritor tem de anotar suas ideias, pois a memória é curta. Muitos fazem isso, como Ignácio de Loyola Brandão, que aos 83 continua consultando seus caderninhos quando reminiscências rateiam, ou Milton Hatoum, que usou anotações da década de 60 em seu último romance.

Mas ninguém supera Ruy Castro, que não larga sua Bic preta e uma cadernetinha nem na hora de dormir. A propósito, ele conta que certa noite acordou com ideias do balacobaco e aí começou a anotá-las no escuro. No dia seguinte, ao correr pra vê-las, não havia nada escrito simplesmente porque se esquecera de destampar a caneta.

Pois bem, isso tudo é só pra dizer que este quase amnesiado escriba agora também anota umas coisinhas soltas, que é pra facilitar o esparramar destas que seguem. Simbora.

Final de novembro, madrugada morna e sem vento, eis que meu amigo João Pedro Pitombo saca de seu alforje de jornalista ligeiro uma pérola desses novos tempos, e a crava bem no meio da capa da Folha de São Paulo. “Promotoria Impõe Cardápio Vegano em 154 Escolas Municipais da Bahia” é o mote do assunto, seguido de uma foto com uma criancinha olhando o fundo de sua caneca, como quem diz: “que gororoba dos diabos é essa que consegue ser pior do que a outra?”.

Imposta pela promotora Leticia Baird (vegana e defensora da causa) sob a alegação de promover uma dieta sustentável, quase 32 mil alunos acostumados na sustança do bode com cuscuz agora saboreiam um cardápio composto de: mingau de leite de amendoim com aveia, tabule de legumes, escondidinho de soja e, como pièce de résistance, uma suculenta feijoada vegana, na qual as carnes foram trocadas por pedaços de coco seco, fato que deve levar alunos pouco alfabetizados a associar o seu sabor ao significado que teria o fruto se tivesse um circunflexo no segundo “o”.

Por falta de espaço, não falarei da perseguição do capitão Jair ao jornal que me proporcionou estas linhas; nem dos comentários do novo presidente da Funarte, dizendo que o rock ativa o aborto; tampouco do negão Sérgio Nascimento, novo presidente da Fundação Palmares que, talvez daltônico, deve se achar o albino Hermeto.

Finalizo com uma notícia que me enche de esperanças. Trata-se da criação de um santuário de jumentos na fazenda de Thereza Bittencourt, professora do curso de veterinária da UFBA. Em princípio destinado apenas a asnos de quatro patas, nada impede um cercadinho vip pra receber essa gente que vive relinchando absurdos, além de uma bela suíte presidencial onde, por ordem da promotora, o cardápio será um misto de alfafa fofa e capim vegano, com toques de coco (ops!) mole. “Use a colher, Carluxo!”.

Be Sociable, Share!

Comentários

Taciano Lemos de Carvalho on 11 dezembro, 2019 at 8:30 #

Maravilha de texto!

Verdade que nesses tempos de Brasil, eu temo que possa faltar terra pra juntar tanto jumento que vemos na política brasileira.


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • dezembro 2019
    S T Q Q S S D
    « nov   jan »
     1
    2345678
    9101112131415
    16171819202122
    23242526272829
    3031