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Postado em 20-11-2019
Arquivado em (Artigos) por vitor em 20-11-2019 00:12

Afagados por dirigentes, Bolsonaro, Witzel e correligionários surfam na euforia em torno da boa fase do clube mais popular do país. Diretoria se diz apolítica, mas negou homenagem a vítima da ditadura

Witzel com Rodolfo Landim (à esq.), Bolsonaro e Rodrigo Amorim (à dir.): clube se aproxima de políticos ultraconservadores.
Witzel com Rodolfo Landim (à esq.), Bolsonaro e Rodrigo Amorim (à dir.): clube se aproxima de políticos ultraconservadores.
 

Figura cativa em estádios, Bolsonaro tem utilizado o futebol como trampolim de popularidade desde que se elegeu – uma carta já empregada por muitos que o antecederam no cargo, do clássico ufanismo insuflado pela ditadura militar na campanha da Copa de 1970 ao lobby presidencial em prol da construção da Arena Corinthians durante o Governo Lula, às vésperas do último Mundial sediado pelo Brasil. Elevando a instrumentalização à máxima potência, incluindo o expediente de se convidar para grandes jogos como o clássico entre Santos e São Paulo, na Vila Belmiro, o presidente ultradireitista enxergou no Flamengo, que não vivia uma fase tão empolgante desde os tempos de Zico, nos anos 80, a plataforma de maior alcance para conquistar torcedores.

Em abril, na mesma semana em que o time sagrou-se campeão carioca, o mandatário recepcionou no Planalto a menina Yasmin Alves, que, supostamente, teria se recusado a cumprimentá-lo em visita a sua escola, e a presenteou com uma camisa do Flamengo. Em junho, Bolsonaro apareceu nas tribunas do Mané Garrincha ao lado do ministro da Justiça, Sergio Moro, para acompanhar o jogo dos rubro-negros contra o CSA. Ambos posaram para fotos vestindo camisas do time. A exibição no estádio aconteceu três dias depois do The Intercept revelar mensagens vazadas de Moro, que colocaram em xeque a imparcialidade do ex-juiz da Lava Jato. Na semana passada, o presidente voltou a agradar flamenguistas durante uma solenidade em Campina Grande, na Paraíba, ao cravar que Gabigol marcará o gol do título da Libertadores.

Concorrentes pelo protagonismo na direita recorrem a estratégia similar. No Rio de Janeiro, o governador Wilson Witzel (PSC), que venceu a eleição colado na imagem de Bolsonaro, mas agora  se apresenta como desafeto do presidente, é outro chefe de governo a surfar na onda do Flamengo. Um dos primeiros compromissos oficiais como governador eleito foi receber o então candidato a presidente rubro-negro, Rodolfo Landim, para discutir a concessão do Maracanã. Em janeiro, Witzel esteve no estádio para assistir a um jogo do time pelo Campeonato Carioca. Apesar de torcer para o Corinthians, ele entrou no gramado com uma camisa do Flamengo, pediu autógrafos aos atletas e tirou selfies com torcedores. A partir dali, se dedicou a estreitar laços com o clube.

No início de abril, o governo estadual concedeu a Flamengo e Fluminense a gestão provisória do Maracanã, sob protestos do Vasco, que alegou falta de transparência no processo de escolha – nesta segunda, o governador anunciou parceria com o clube cruzmaltino para obras de melhorias no entorno de São Januário. Witzel tem comparecido ocasionalmente aos camarotes do Maracanã em partidas do time rubro-negro, já se reuniu com integrantes de torcidas organizadas do clube e chegou até a se dispor a convencer o português Jorge Jesus a permanecer no Brasil após rumores de que o treinador estaria preocupado com a violência no Rio. “Ele terá paz para fazer o melhor pelo Flamengo”, garantiu o governador. O elo entre Witzel e o presidente Landim reside dentro do clube, chancelado por um cargo oficial.

Bolsonaro entrega agasalho do Flamengo ao presidente chinês.
Bolsonaro entrega agasalho do Flamengo ao presidente chinês.

Aleksander Santos exerce o papel de relações públicas do Flamengo na política. Membro da executiva estadual do Solidariedade, ele já foi filiado ao MDB e PSC e chefiou secretarias em cidades como Itaboraí e Maricá. Inicialmente como colaborador informal, cuidou da intermediação de contatos de Landim com autoridades antes mesmo de ele assumir a presidência do clube. Amigo do vice-governador Cláudio Castro, a quem conheceu ao longo de sua militância no PSC, Santos estabeleceu ligação direta com o Palácio Guanabara. Castro esteve na posse de Landim, na Gávea, onde recebeu uma camisa personalizada e, assim como em outras duas solenidades, representou o governador.

Mas foi o empenho do conselheiro em obter as licenças com órgãos municipais e estaduais para desinterditar o Ninho do Urubu, após o incêndio que matou 10 garotos da base no centro de treinamento em fevereiro, que convenceu a diretoria a nomeá-lo, em maio, à função de diretor de relações governamentais. Antes da oficialização no cargo, Santos já havia atrelado a imagem do clube a outras referências da direita aliada ao bolsonarismo, como o ex-senador Magno Malta (PL-ES) e o deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL-RJ), que receberam uniformes do time. O agrado a Amorim, entretanto, provocou divergências internas no clube.

Em seu gabinete na Alerj, ele ostenta uma camisa do Flamengo emoldurada entre a foto de Jair Bolsonaro com a faixa presidencial e um pedaço da placa com o nome de Marielle Franco quebrada pelo então candidato em um comício ao lado de Witzel. No início do ano, o deputado desfilou no gramado do Maracanã comemorando a conquista da Taça Rio entre jogadores rubro-negros. Em abril, agradeceu ao clube que o presenteou com uma camisa 17, número de seu partido. Porém, na mesma semana, a diretoria do Flamengo havia emitido uma nota ressaltando que a instituição “não se posiciona sobre assuntos políticos”. O comunicado rechaçava envolvimento do clube em uma homenagem de torcedores ao ex-remador rubro-negro Stuart Angel, torturado e morto em 1971 pela ditadura militar, regime exaltado por adeptos da corrente bolsonarista.

Diante do mimo entregue a Rodrigo Amorim, conselheiros e sócios questionaram a cúpula sobre a conotação política do ato, que dirigentes qualificaram como “uma gentileza”, de caráter extraoficial. O deputado segue pegando carona na boa fase do time. Em outubro, por exemplo, publicou duas fotos com trajes rubro-negros nas redes sociais. Uma delas por ocasião do Dia de Valorização da Família e a outra, em que posa com o vice-governador Cláudio Castro, no Dia do Flamenguista, celebrado em 28 de outubro. Apesar da polêmica, Alexsander Santos ganhou ainda mais prestígio com os cartolas. Desde que foi promovido ao cargo remunerado, passou a direcionar o foco à aproximação entre clube e Governo federal. O dirigente afirma que seu trabalho é “apartidário”, voltado somente ao “relacionamento institucional com os poderes públicos”.

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